Transição Socialista
   

A queda de Moro e o futuro da esquerda brasileira

Como foi organizada a derrubada de Moro por Bolsonaro?

Na terça-feira, 21/04, Bolsonaro se reuniu com um velho amigo, o deputado Arthur Lira, do PP, líder do “centrão” na Câmara. Um videozinho amistoso celebrou não apenas o reencontro de dois, mas também um novo acordo político.

Quem é Arthur Lira? Além de líder do “centrão” e membro do partido de Maluf, Lira: foi afastado por corrupção da Assembleia Legislativa do Alagoas; foi condenado por corrupção no mesmo estado; foi processado por agressão à esposa; tem o pai investigado na Lava-Jato, acusado de receber R$ 1 milhão no petrolão; foi fotografado na porta do edifício de Alberto Youssef, um dos maiores operadores de propina no petrolão. Ele agora é o candidato do “centrão” (e de Bolsonaro) para a presidência da Câmara dos Deputados (seu oponente, Rodrigo Maia, aliou-se a Dória, o que explica todo o ataque dos bolsonaristas ao “Botafogo” das Planilhas da Odebrecht).

No mesmo dia 21/04, Roberto Jefferson, do PTB, declarou: “Para derrubar Bolsonaro, só se for na bala!”. Foi assim que anunciou ao mundo que se transformara em bolsonarista e defenderia o presidente até à morte. Claro, ele e seu partido ganharam alguns cargos-chave no governo, produto da reunião de Lira.

Quem é Roberto Jefferson? Este talvez dispense apresentações, mas façamos uma breve: antes de ser bolsonarista, foi “collorido” e depois lulista. Era da tropa de choque de Collor junto com Renan Calheiros e, após FHC, foi indicado por Zé Dirceu para mandar nos Correios. Todavia, quando os petistas tentaram acomodar lá mais uma boquinha amiga, a casa ficou pequena para todos e Roberto Jefferson, no momento em que perdeu espaço, resolveu apresentar ao mundo o que depois ficou conhecido como “mensalão”.

No mesmo dia 21, graças à reunião de Arthur Lira, Valdemar da Costa Neto e seu PL receberam de presente o Banco do Nordeste. O dono do PL é outro que se “puxarmos a capivara” ficaremos impressionados: na política desde o fim dos anos 1970, no começo da década de 1990 já tinha influência decisiva sobre a “grande política”. Em 1994, era o dono da área VIP da Sapucaí onde, no carnaval, o presidente Itamar Franco foi fotografado com modelos sem calcinha. Relativamente afastado sob FHC, retornou com tudo com os lulistas, onde alcançou grande poder (sobretudo na área de transportes). O apoio de seu partido ao PT foi vendido por R$ 10 milhões (pagos por Marcos Valério). Em 2016 – após uma estadia de 3 anos na prisão, devido ao “mensalão” –, Valdemar voltou à política apenas para se enroscar de novo nas delações da Odebrecht (escândalo do Petrolão), sendo novamente condenado (desta vez, por Moro).

Arthur Lira, Roberto Jefferson, Valdemar da Costa Neto e outras nobres figuras condicionaram o apoio do centrão a Bolsonaro à saída de Moro. Só apoiariam Bolsonaro se este entregasse a cabeça de Moro de bandeja. Por que? Porque precisam desmoralizar por completo a operação que – por mais enfraquecida que estivesse – lhes tinha caçado, capturado, e mantinha a maioria de seus parlamentares sob investigação. Simples assim.

Bolsonaro, que então já precisava fugir de 24 pedidos de impeachment, aceitou os termos do acordo; gastou a terça e a quarta-feira planejando como faria a demissão do Ministro da Justiça, e na quinta-feira resolveu agir. Anunciou então a demissão de Valeixo, diretor da PF. O foco de Bolsonaro não foi em momento algum apenas trocar Valeixo, mas tirar Moro. É preciso que isto fique claro: não foi uma ação desastrada. A saída de Moro não foi um tiro que saiu pela culatra, mas algo muito bem preparado. Bolsonaro usou o capital político de Moro e depois o jogou fora. Não é verdade que só agora a PF estava chegando no 02, o “Carluxo”, pois tais informações já são sabidas há meses. A verdade é que Bolsonaro decidiu tirar Moro no momento certo de celebrar o acordo com o centrão. O presidente, inclusive, aproveitou-se da pandemia do coronavírus para agir. Ele sabia que a saída do Moro, que ele planejava há muito tempo, seria polêmica e poderia derrubar seu governo. Aproveitou um momento em que, mesmo sabendo que isso faria muito barulho, tal barulho seria logo abafado pelas sirenes de ambulâncias, choros de mortes e rezas de enterros. Bolsonaro conscientemente demitiu Moro no momento em que o país se aproxima do pico dos casos e mortes por coronavírus, tendo em vista o fato político ser secundarizado ou apagado da memória da população em pouco tempo.

Bolsonaro + centrão + PT

Engana-se quem acha que a retirada de Moro é apenas parte de uma ação de Bolsonaro para salvar a si e a seus filhos. É evidente que o presidente quer impedir o risco de um impeachment e a prisão de seus filhotes comprometidos com milicianos, mas olhar apenas isso é ver superficialmente a questão. Na realidade, a tirada de Moro do governo é parte do processo mais geral da “velha política” para se defender de operações que, como a Lava-Jato, são um ponto fora da curva; elementos que saíram do controle dos grandes bandidos da política nacional (já comentamos sobre isso em inúmeros textos).

Por que destacamos isso? Por que falamos que não se trata meramente de salvação dos Bolsonaro? Pelo simples fato de que nessa mesma “velha política” que tenta se salvar está também o PT, fator chave na queda ou manutenção do governo Bolsonaro. E a forma como o PT tem se posicionado frente à crise é muito curiosa sobre o que está em questão.

O PT passou a defender oficialmente o “Fora Bolsonaro” exatamente após a reunião de Arthur Lira com Bolsonaro. Será que Lula ficou triste ao ver seu antigo centrão de braços dados com o “inimigo”? Não, Lula – diz ele mesmo – não guarda mágoas de ninguém; e, mais do que isso, sabe bem que o único dono do coração do centrão são aquelas notinhas verdes sob as quais se estampa “dólar”.

O PT passou a defender o “Fora Bolsonaro” porque, com a adesão do centrão, viu condições reais de Bolsonaro superar os riscos de impeachment e terminar seu mandato. É isto que Lula e o PT mais querem: enfrentar um Bolsonaro fraco e desmoralizado em 2022 (e enfrentar Lula ou um poste seu é o que Bolsonaro mais quer).

A saída de Moro embaralhou todas as cartas do PT, pois se torna um candidato mais forte que Bolsonaro. Ato contínuo à saída do ministro, Lula chamou reunião da direção do PT e defendeu que seu partido “não se precipitasse em qualquer movimento para derrubar o presidente”. Ou seja, após a saída de Moro, contra toda a nação, o PT voltou atrás da posição assumida no dia 21!

Temos assim hoje a insólita situação em que o centrão e o PT são dois fieis da balança de manutenção do governo de Bolsonaro, o primeiro no parlamento, o segundo nas ruas. Se a conjuntura política não mudar por algum fato novo, não se deve esperar dos petistas e seus braços sindicais qualquer movimento sério para a derrubada do presidente. Eles preferem não atrapalhar, deixar no “banho-maria”. Mas a conjuntura deve se mover contra o presidente, apesar dos petistas, e derrubar Bolsonaro.

Apesar de insólita, a situação não espanta qualquer analista atencioso da conjuntura, pois, temos dito e insistido, o bolsolulismo é uma das principais correntes no Planalto. Lembremos: Bolsonaro só não caiu, no início de 2019, porque estabeleceu um acordo com o petista Toffoli, presidente do STF. Como parte do acordo, André Mendonça, também petista de carteirinha, virou Advogado Geral da União. É ele quem está todo dia trabalhando com Bolsonaro e estava a seu lado no pronunciamento após a saída de Moro. Mendonça é também um dos principais cotados a entrar na vaga de Celso de Mello no STF. Além de Mendonça, também o petista Augusto Aras assumiu posto-chave: a PGR. Aras, após banquetes para a direção petista e após homenagear Zé Dirceu, foi escolhido por Bolsonaro para a tarefa de quebrar a Lava-Jato dentro do MPF. Suas ações têm funcionado. Aras, por exemplo, aproveitou as revelações de Moro em seu discurso de saída para abrir um investigação contra… o próprio Moro!

Assim, não só é falso o “Fora Bolsonaro” do PT, não só o PT recuou após a saída de Moro, não só o PT não chamará de verdade sindicatos para a rua, como ele tem fornecido quadros no alto escalão do poder para manter Bolsonaro até o fim de seu governo.

O discurso duplo do PT não espanta ninguém que queira olhar o que realmente se passa, pois em 2015/16 esse partido falou em um suposto “golpe” contra a Dilma, no qual nunca acreditou. A narrativa era apenas para manter sua base pequeno-burguesa na defesa do indefensável. Depois, os petistas nos atormentaram com o indefectível “Primeiramente, Fora Temer”, que na primeira oportunidade séria virou um “Fica Temer” (no caso da gravação do Joesley Batista, quando o presidente poderia cair mas o PT segurou os grandes sindicatos nacionais, esvaziando as ruas). Depois, o PT falou de um “risco” de fascismo, somente para mobilizar mais uma vez sua pequena-burguesia desesperada. Hoje é evidente que Bolsonaro – que tem pedido de impeachment até do seu último partido, o PSL – é o presidente mais fraco de toda a Nova República. Não espanta que o “Fora Bolsonaro” do PT seja só mais uma mentira pra enganar os sempre predispostos a serem enganados.

O caminho para algo novo se abre

A esquerda de verdade (da qual o PT nunca fez parte) tem uma grande oportunidade pela frente. A queda de Bolsonaro e a queda do PT são um só e mesmo processo, na medida em que são duas faces da mesma moeda. Virar a página do Bolsonaro na história ajuda a virar de vez a página do PT na história. Na verdade, Bolsonaro é um epifenômeno, algo que nem vale muito a pena ser explicado, ou melhor, algo que só vale ser explicado a partir do PT, o verdadeiro demiurgo do processo. Já falamos muito sobre isso. Mas o que importa lembrar é que Bolsonaro tende a produzir o contrário do que defende. Não apenas porque ter um presidente desmoralizado falando de comunismo mais aviva do que enfraquece o comunismo, mas sobretudo porque com a derrubada de Bolsonaro afunda juntamente o maior bloqueio à construção de uma esquerda de verdade neste país: o PT.

A tragédia brasileira é que não existe partido de esquerda em nosso país. O PT, há anos insistimos, é de direita. Os demais, mais à esquerda que o PT, são na verdade de centro ou de centro-esquerda (é claro, para isso estamos usando caracterizações verdadeiras, e não as falsas do senso-comum e da mídia). Há gente de esquerda, ou seja, comunista, espalhada por partidos como PSOL, PCB e PSTU, mas é minoritária (haja visto que, em todos os momentos realmente decisivos, tais partidos, em maior ou menor grau, voltaram para o colo do PT).

Apesar da tragédia, seguimos firmes na convicção de que a conjuntura produzirá uma nova organização de esquerda, propriamente revolucionária, com um programa realmente socialista (e não social-democrata); um programa de transição ao socialismo, que parta da defesa das atuais condições de vida da maioria da população e leve invariavelmente ao socialismo. Chamamos todos os lutadores do país a construir conosco um projeto assim!

Fora Bolsonaro!
Enterrar de vez o PT!
Construir um novo partido revolucionário!