Transição Socialista
   

Alvim e a pergunta que não quer calar

A nação inteira assistiu atônita ao energúmeno secretário que cria ser a reencarnação do nazista Goebbels. Mas mais ou tão patético quanto são os que creem isso ser a prova do “fascismo” ou “proto-fascismo” no Brasil (claro, um “fascismo” sui generis, à la Regina Duarte…). Alvim, obviamente, está mais próximo dos que, em hospícios, creem ser Napoleão Bonaparte, do que do chefe da agitação do partido burguês reacionário que conduziu milhões de homens e cujo objetivo era acabar com a União Soviética.

Muito além de tendência ao fascismo, o caso Alvim revela a extrema fragilidade da dominação burguesa hoje no Brasil. A burguesia não tem mais representantes à frente da sua nação. Alvim não representa nada nem ninguém, senão ele mesmo (e até isso é duvidoso, dado seu histórico psiquiátrico).

Ora, passado Alvim, quantos outros não estão na berlinda? Toda a vinícola – o impreCionante Weintraub e o imprestável Wejngarten – e o laranjal de Marcelo Álvaro Antonio. Somem-se os bolsonaros (de todos os ramos e sexos) preenchendo as páginas policiais. Pense-se no desvanecido caipirão Moro, que ninguém faz ideia do que anda fazendo (excetuando-se o Roda Viva). Pense-se nos assessores de Guedes, sitiados pela investigação de escândalo de corrupção na gestão de fundos de pensão (no que sobra para o próprio Guedes).

O governo está por um fio, ou melhor, praticamente acabou e ninguém se deu conta. É um castelo de cartas que só não cai porque ninguém o assopra. E essa é a pergunta central que ora levantamos: por que ninguém o assopra? Por que há um lunático vestido de Napoleão (ou Goebbels, tanto faz) em cadeia nacional e ninguém se mexe? Por que não há oposição?

Todas as sumidades intelectuais do país estão sendo convocadas para responder a tal questão: por que não há oposição política consistente a Bolsonaro? Entretanto, a depender do espectro político, não se pode responder, pois a questão contém o risco da auto-anulação. É melhor então fugir, divertir, crer em fascismo da Regina Duarte, golpe e duendes. Ou colocar a culpa no “povão”, “despolitizado”, que não percebe que a nação está em perigo.

A pergunta leva à auto-anulação porque, se respondida a sério, exige a constatação de que as supostas “oposições” a Bolsonaro morreram porque mereciam morrer. As oposições se enterraram com o PT por medo de largar seu caixão. Note-se: não é que não haja oposição porque o PT não quer fazer oposição de verdade, é que – desculpem-nos a redundância – não há oposição porque não há oposição. Ela não existe; não se encontra seus átomos e moléculas espalhadas materialmente em nenhum canto do país. Uma potencial oposição à esquerda do PT ficou sempre presa a este, em todos os momentos-chave (como o segundo turno de 2018), e, por isso mesmo, para além dos círculos da pequena-burguesia, essa “esquerda” é vista pelo “povão” como variante de algo morto, do passado. Justo, legítimo e correto!

Dada a ausência de oposição, a maioria da população brasileira, que votou em Bolsonaro em repúdio ao PT, demorará mais para romper com Bolsonaro. Até nisso os petistas nos atazanam, condenando-nos a aturar por mais tempo um governo de pessoas fantasiadas.

Mas o Brasil, sem saída para o seu caos econômico burguês – como todos os índices demonstram, apesar dos delírios da mídia –, explodirá cedo ou tarde. A ausência de oposição política real é fator menor diante do econômico. As massas trabalhadoras, mesmo sem direção, romperão com Bolsonaro, autonomamente (e contra o PT, que tentará se aproveitar). Demorará mais e o caminho será menos ideal, devido à ausência de oposição, mas ocorrerá. E junho de 2013 será fichinha, pois agora a burguesia não tem mais quadros como aqueles do PT, PSDB e variantes. Foram todos deglutidos com gosto pela massa, pouco a pouco, pedacinho por pedacinho, nos anos após 2013. Agora, o novo estouro, diferentemente do de 2013, não encontrará tão fortes anteparos – como um governo ainda relativamente popular (que se reelegeu em 2014), como os sindicatos pelegos fortalecidos porque mamando no Estado burguês, etc. Encontrará a Regina Duarte.

Apertem os cintos! Por cima dos escombros da “esquerda”, Lohengrin será logo trocado pela Varschavianka!