As eleições de 2018 e a paralisia da esquerda socialista

A conjuntura nacional é hoje muito diferente das que antecederam eleições anteriores. A situação nacional exige dos revolucionários ocupar todos os espaços o mais rápido e amplamente possível. O debate eleitoral de 2018 não foi antecipado pela burguesia, mas pela crise política que se arrasta. Desde a queda da Dilma, vivemos um interregno, uma situação não definida que abriu a disputa eleitoral (pois a eleição seria, ao menos em parte, uma possível resolução da crise e da instabilidade).

Portanto, afirmar que é cedo para apresentar candidaturas é algo errado. A população trabalhadora quer respostas para a crise política nacional, já discute nas ruas os candidatos e deposita parte das suas esperanças na resolução por meio do processo eleitoral. Sabemos que isso é um erro, uma ilusão; que as coisas nunca serão resolvidas dessa maneira, etc., mas temos de respeitar e levar em consideração a ilusão das massas com o processo eleitoral.

Deixar de apresentar uma alternativa política da classe trabalhadora para o país, numa situação em que toda a burguesia o faz, é um erro. É hora de a esquerda revolucionária tomar a dianteira, vir a público e falar em alto e bom som o que pensa sobre a situação nacional: bater duro no PT, no PMDB, no PSDB, apresentar uma saída emergencial para o país, um programa de luta e resistência operária, que prepare a transição para outra sociedade (e não meramente reforme o capitalismo).

Diante desta urgência, o que faz a esquerda?

A esquerda está em compasso de espera. À espera de quem? Curiosamente, à espera de Lula. Eis o eixo da paralisia da esquerda socialista hoje.

A ala majoritária do PSOL paquera cada vez mais a candidatura de Guilherme Boulos. É isso que afirmou o novo presidente do PSOL – curiosamente eleito antes da própria realização do Congresso que o elegeria – em texto oficial no site do partido. Boulos daria, sem dúvida, uma dimensão ao nome do PSOL, pois este não tem hoje nenhum grande movimento social, de visibilidade, por trás de si. Além disso, é sabido que as principais figuras nacionais do PSOL (parlamentares) desistiram de se candidatar à presidência, para garantir a reeleição a seus cargos. Portanto, o PSOL, afora o possível Boulos, não tem candidato com relativa projeção política nacional (não queremos com isso menosprezar os demais pré-candidatos do partido, que têm, aliás, uma linha política melhor do que a de Boulos).

Mas o que faz Boulos? Boulos reune-se com Lula; faz jogo duplo com o PT; constrói-se a partir de sua plataforma que costura PT e PSOL, a do “Vamos”; já falou um zilhão de vezes que não se candidatará se Lula participar da eleição. E Lula, após recente reunião com Boulos, soltou na mídia a informação de que está convencido de que Boulos será candidato de qualquer forma, sendo ele próprio, Lula, candidato ou não. Lula soltou essa informação, obviamente, para emparedar Boulos e pressioná-lo a não se candidatar, impedindo que se constitua qualquer plano B a Lula.  Esta é a tática do PT: fazer com que a esquerda petista ou semi-petista cerre suas forças em torno de Lula, como num jogo de morte súbita. Partir para o tudo ou nada é a chave para salvar a candidatura de Lula, e, muito mais, para salvar este da prisão. Lula não quer plano B para não correr risco de ser preso.

Boulos, em certo sentido, atende à pressão de Lula: toda hora fala demagogicamente na imprensa que é cedo para se falar de processo eleitoral, que é hora de se focar na luta e no seu movimento, etc. Mas, curiosamente, segue com sua “plataforma” Vamos e seus debates com setores petistas e psolistas, construindo sua candidatura. Boulos apenas espera a definição ou não da prisão ou inelegibilidade de Lula. Caso este não participe, Boulos será candidato pelo PSOL e arrastará atrás de si (e do PSOL) setores internos ao PT e externos amistosos a esse partido.

O fato é o seguinte: o PSOL está parado, esperando Boulos, que está parado, esperando a definição sobre o futuro de Lula. Por isso, nem a ala majoritária do PSOL nem Boulos estão à altura das necessidades urgentes que a conjuntura exige: a ocupação imediata e radical do espaço da crise política nacional. Quanto mais vazio o espaço de uma alternativa consequente ao nefasto projeto lulista, sabemos, mais Bolsonaro e outras figuras repugnantes crescem.

Mas o problema não para por aí. Lula paralisa Boulos, que paralisa o PSOL, que paralisa até… os companheiros do PSTU! Estes, num discurso esquerdista (que neste sentido se assemelha ao de Boulos), dizem que é necessário não dar importância ao processo eleitoral neste momento e focar nas lutas. Todavia, como já explicamos, essas coisas não são contraditórias — as lutas cotidianas confundem-se e imbricam-se com a crise política nacional. Esse discurso, por parte dos companheiros do PSTU, só serve hoje para esconder certa paralisia, que parece ser, na prática, um compasso de espera pelo PSOL. Isso é compreensível até certo ponto, afinal, caso Plínio de Arruda Sampaio Jr. ou Nildo Ouriques (pré-candidatos do PSOL) tornem-se candidatos oficiais, todo o debate sobre uma possível frente de esquerda passa a fazer sentido (o que não faz com Boulos).

Mas a tática está errada. A melhor coisa que os companheiros do PSTU podem fazer hoje é não aguardar o PSOL, sair na frente e tomar a dianteira: estar à altura da conjuntura e começar a ocupar o espaço que é necessário nacionalmente. Companheiros, lancem, por exemplo, Zé Maria de Almeida como pré-candidato! A mídia dará destaque, discussões se abrirão, mesas, palestras, possibilidades de intervenção, etc. É melhor se mover e ocupar o espaço do que aguardar a definição do PSOL. Depois, caso o PSOL lance um candidato melhor que Boulos, a discussão será recolocada em outro nível, e tudo poderá ser rediscutido sobre uma possível frente. Mas o pior é aguar, dado que o eixo da paralisia é o próprio projeto lulista. E mais: quanto antes os camaradas lançarem um projeto à esquerda, a própria discussão interna ao PSOL será relativizada para a esquerda: ou seja, será uma pressão sobre todo o PSOL, uma pressão que fortalece a ala à esquerda e atua contra a ala à direita desse partido. Ou seja: o que está em questão são as melhores formas de impedir, amanhã, que o próprio PSOL se torne um verdadeiro bloqueio à esquerda; o que está em questão é preparar melhor as condições para criar, amanhã, uma via dos revolucionários.

Companheiros da esquerda socialista: sair do compasso de espera, pois é novamente a espera da falsa esperança: é a espera de Lula! Impedir que os lulistas tomem o PSOL de vez! Correr contra o tempo: levar um projeto de combate para as massas, ocupar as ruas!

Conjuntura Editoriais
04.12.2017