Transição Socialista
   

Balanço do primeiro turno das eleições

O primeiro e mais importante elemento a se destacar neste balanço é o antipetismo. Fernando Haddad/PT teve 31 milhões de votos (21% do total, e 29% dos votos válidos). Jair Bolsonaro/PSL teve uma guinada impressionante na reta final, à medida que boa parte da população deu-se conta da rápida elevação anterior de Haddad. Muitos acharam que Bolsonaro, com tal guinada surpreendente, poderia vencer no primeiro turno. E quase conseguiu. Ao final, o candidato do PSL teve 49 milhões de votos (33% do total, 46% dos votos válidos).

Haddad teve a pior votação de um petista em mais de 20 anos. Bolsonaro venceu Haddad em quatro das cinco regiões do país (perdendo apenas no Nordeste, onde todavia também obteve votação expressiva).

Esse mesmo movimento surpreendente de Bolsonaro na reta final expressou-se em outras candidaturas, em outros estados, para o pleito ao governo estadual. Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, Romeu Zema, candidato do partido Novo, vinculou levemente sua imagem à de Bolsonaro na reta final, e por isso obteve ascensão meteórica. Desbancou, surpreendentemente, tanto o candidato do PT (Fernando Pimentel) quanto o candidato do PSDB (Antônio Anastasia). Ficou com 42% dos votos válidos, enquanto o candidato tucano, Anastasia, obteve 29%. Ambos foram para o segundo turno. No Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país, deu-se algo similar ao ocorrido em Minas Gerais. Wilson Witzel, do PSC, subiu após vincular sua imagem a Bolsonaro. Dos 1% de intenções de voto em agosto, Witzel terminou a campanha surpreendente e inesperadamente com 41% dos votos válidos, o dobro do até então favorito Eduardo Paes (DEM), tradicional político carioca, que terminou com 19%. Romário (partido Podemos), até então em segundo lugar, terminou com 8% dos votos, em quarto.

O mesmo se deu, em menor escala, em todo o país. Vale comentar o caso sintomático do maior colégio eleitoral, o estado de São Paulo. Nele foi para o segundo turno, em primeiro lugar, o candidato João Dória (PSDB), com 31% dos votos válidos. Em segundo lugar apareceu Márcio França (PSB), com 21%. Em terceiro, fora do segundo turno, Paulo Skaf (MDB), também com 21%, pouco abaixo de França. É a primeira vez em 16 anos que há um segundo turno na disputa do governo de SP. A diferença entre Dória e França não é tão grande quanto a existente entre os citados acima, nos demais estados, sobretudo se considerarmos, qualitativamente: Dória não realizou ascenção meteórica. Dória esteve boa parte do pleito empatado com Skaf, e só ascendeu ao final, e pouco, quando se vinculou mais à imagem de Bolsonaro. Mas na cidade de São Paulo, de onde era prefeito, Dória quase empatou com Márcio França e Skaf. Por que isso ocorreu? Porque Dória virou prefeito de São Paulo em 2016, já surfando na primeira onda eleitoral antipetista. Dória então derrotou Fernando Haddad (PT) no primeiro turno, com uma ascensão meteórica inesperada na reta final. Dois anos se passaram e a população que votou em Dória já se sente enganada e se arrependeu. A cidade de São Paulo, a locomotiva que poderia impulsionar Dória para o governo do estado, já o abandona ou nele só vota com muita ressalva. Não será surpreende se Dória perder a eleição para o governo estadual neste segundo turno.

Falamos que esse caso acima, de Dória, é sintomático, pois revela o fôlego curto dos burgueses que tentam surfar no antipetismo. O mesmo deve acontecer com Bolsonaro, se eleito. O proletariado brasileiro está revoltado e quer respostas rápidas a seus problemas; vota como quem dá tiro, mas, acima de tudo, não é burro. Pode ser enganado, mas não é burro. Em pouco tempo, os burgueses lobos em pele de cordeiro se revelam.

Como um todo, o PT fez três governadores estaduais (Ceará, Bahia e Piauí, todos no Nordeste) e ainda concorre o segundo turno com mais um (no Rio Grande do Norte, também no Nordeste). Em 2014, o PT fez 5 governadores (também nas regiões Norte e Sudeste).

No poder legislativo, a onda antipetista também surpreendeu. A taxa de renovação da Câmara dos Deputados foi a maior desde a redemocratização (início de IIIa República, 1986). A princípio, pode parecer haver resiliência do petismo, dado que o PT fez a maior bancada (56 deputados), reelegendo cerca de 40. Mas o trajeto descendente do PT é evidente: de 88 parlamentares em 2010, caiu para 69 em 2014 e, agora, para os 56. Já o partido de Bolsonaro foi de 1 parlamentar em 2014 para 52, compondo a segunda maior bancada da Câmara. E deve receber migrações logo no início do ano. O próprio Jair Bolsonaro disse estar impressionado, pois esperava fazer entre 30 e 40 deputados. No legislativo do estado de SP, por exemplo, Janaína Paschoal (PSL), advogada autora da peça jurídica do impeachment de Dilma, obteve mais de 2 milhões de votos, na maior votação para deputado (estadual ou federal) da história brasileira. Para se ter dimensão, apenas em SP ela obteve quase metade dos votos nacionais do tradicional tucano Geraldo Alckmin, que disputou a presidência. Já o filho de Jair Bolsonaro, Eduardo, foi eleito deputado federal com quase 2 milhões de votos, também batendo um recorde da câmara dos deputados.

O fenômeno Jair Bolsonaro, na câmara, parece funcionar como um tipo de “macronização” da política brasileira (em referência à eleição de Emmanuel Macron, na França, que criou um partido praticamente do nada e elegeu grande base no legislativo, com pessoas até então externas à política oficial). Quem são esses novos 243 deputados (dos 513 no total)? Mesmo os jornalistas não sabem e apenas começam a investigar. Mas percebe-se desde já que, com raras exceções, ascendeu ao poder uma escória de novos vigaristas, impostores, gângsteres e aventureiros da pior espécie, desde Alexandre Frota (PSL, ator pornô) até o “Príncipe” Luiz Phelippe de Orleans e Bragança (PSL e herdeiro do “trono” da monarquia brasileira…). A lama não só continuará, como necessariamente se aprofundará, de forma ainda mais estapafúrdia. É a continuidade da diluição geral da política, promovida nos anos do PT.

Os partidos do chamado “centrão” ― grupo fisiológico e corrupto de pequenos partidos, que se unem num bloco para chantagear qualquer presidente eleito, composto por PP, DEM, PRB, Solidariedade, PTB e outros menores ― agora liberam seus filiados para assumir a posição que quiserem frente a Bolsonaro ou Haddad. A postura, na verdade, é mais vista como uma aproximação a Bolsonaro do que a Haddad, dado o favoritismo do primeiro. A rigor, o centrão diminuiu nesta eleição (como, em geral, figuras tradicionais da política corrupta não foram eleitas, sofrendo o impacto da Lava-Jato). O centrão, suprassumo dos anos de diluição geral da política promovida pelo balcão de negócios lulista, diminuiu de 164 para 142 cadeiras. Se se confirmar a vitória de Bolsonaro, esses partidos em pouco tempo lhe darão sustentação. Onyx Lorenzoni (DEM-RS), braço direito de Bolsonaro, já é cotado para Ministro da Casa Civil (ministério responsável pelas negociatas com os partidos). Lorenzoni é acusado na Lava-Jato de ter recebido R$ 100 mil da JBS em caixa dois.

Assiste-se a um movimento de “pulverização” dos partidos na câmara. Não se vê mais grande bancadas, como se via em 2010 e mesmo em 2014. Agora, mais partidos estão representados, embora o tamanho de suas bancadas seja menor (em 2010, eram 22 partidos; antes das eleições deste ano, 25. Agora, 30). As negociatas correrão soltas em maior grau, a estabilidade será mais frágil e exigirá mais corrupção.

Ainda no legislativo, mas referente ao Senado (onde somente os dois primeiros colocados de cada estado são eleitos), é digno de nota que os petistas Dilma Rousseff e Eduardo Suplicy também não se elegeram. A primeira, ex-presidenta “impichada”, era franca favorita ao Senado por Minas Gerais. Despencou e terminou a eleição em quarto lugar, com 15% dos votos válidos. Suplicy, tradicional senador por SP, e visto como voz independente e dissonante até entre os petistas, também não foi poupado. De favorito, despencou e terminou em terceiro lugar (sendo ultrapassado pela ascensão meteórica de Major Olímpio, do PSL de Bolsonaro).

Dos demais grandes partidos, o tradicional PSDB saiu humilhado. Geraldo Alckmin, que fizera 39 milhões de votos válidos em 2006, caiu agora para 5 milhões. O PSDB não elegeu nenhum governador neste primeiro turno, embora tenha emplacado 6 para o segundo turno. Já para a Câmara dos Deputados, caiu de 54 para 29 cadeiras, tornando-se um partido médio. Isso é reflexo da tática estúpida dos tucanos ao confrontar os petistas no último período, como se deles fossem diferentes. Os tucanos deram corda à revolta anti-corrupção e terminaram por ela enforcados. Seu principal candidato em 2014, Aécio Neves, está desmoralizado e, com muito custo, foi eleito deputado federal (em 19º lugar no seu estado). O partido está rachado entre os velhos (“cabeças brancas”) e os novos (“cabeças pretas”). Os novos, dirigidos por João Dória, criação de Alckmin (e que traiu este), aproximam-se de Bolsonaro. Já o MDB, do presidente Michel Temer, cujo candidato à presidência foi Henrique Meirelles, teve o pior resultado presidencial desde a redemocratização do país. O PMDB fez 7 governadores em 2014, e agora apenas um (e concorre com mais 3 no segundo turno). Além disso, sua bancada na Câmara dos Deputados caiu praticamente pela metade (para 34, frente aos 66 eleitos em 2014). Ainda assim, seguirá com forte bancada no Senado (cerca de 11, a depender de suplentes).

Tudo isso confirma o que apontamos: maior pulverização do quadro partidário, em processo de dissolução dos grandes partidos burgueses que mantiveram a ordem democrático-burguesa desde o final do regime militar. O velho está morrendo, mas o novo ainda não nasceu. O “novo” é o partido de Bolsonaro, um verdadeiro saco de gatos, inconsistente, uma incógnita. Não representa verdadeiramente nada novo. A crise de dominação burguesa está longe de acabar e apenas se aprofundará, sobretudo porque a economia não dá nem dará sinais de vida rapidamente. Enquanto a economia não dá sinais de vida, uma nova casta parasita, bolsonarista, de sanguessugas do mercado financeiro, chicago boys, amigos menos competentes do chicago boys de Lula, Dilma e Meirelles, se apoderará da fonte do ouro para seguir o saque da nação trabalhadora. E isso até o povo dizer chega.

Quanto à chamada “esquerda”, deve-se notar que nela também se manifestou a tendência geral antipetista. O partido de “esquerda” que mais cresceu foi o PSOL (que, a rigor, como já esclarecemos, não é de esquerda, mas de centro). O PSOL teve a pior votação presidencial em sua história com Guilherme Boulos. A cúpula do PSOL necessitava apenas de um bobo-da-corte para não criar atritos nacionais com Lula e o PT. Assim, de alguma forma, o PSOL teria as mãos livres para focar-se no público pequeno-burguês que tradicionalmente vota no PT mas estava descontente com este. Assim, o PSOL teria chance de ocupar espaço dos petistas desmoralizados, sobretudo no âmbito do poder legislativo. Essa foi desde o início a estratégia do PSOL: não se importar com a presidência e focar nos deputados. Nesse quesito, o PSOL foi bem sucedido; cresceu de 6 para 10 deputados federais, ultrapassando a cláusula de barreira (que permite acesso a dinheiro do fundo partidário). Ainda assim, vale notar que, assim como Boulos, os “figurões” mais petistas do PSOL, como Jean Wyllys, tiveram um pífio resultado, se comparado a eleições anteriores. Wyllys, por exemplo, foi eleito agora com 24 mil votos (e, em 2014, 144 mil).

Curiosamente, deputadas eleitas da corrente MES (Movimento da Esquerda Socialista), favoráveis à Lava-Jato, como Sâmia Bomfim em São Paulo e Fernanda Melchionna no Rio Grande do Sul, tiveram votação expressiva para os padrões do partido. A primeira obteve 250 mil votos e a segunda 114 mil. Ainda assim ― e a despeito de apoio a lutas importantes, como o apoio de Sâmia, enquanto vereadora, à luta dos professores paulistanos no caso do Sampraprev, contra João Dória ―, ambas foram eleitas principalmente graças à onda do movimento #elenao, erguido contra Bolsonaro. Trata-se, portanto, em linhas gerais, de ocupação de espaço antes tradicionalmente do PT, e não necessariamente de resultado favorável devido à posição correta frente à lava-jato. O fortalecimento do MES deve reforçar a ala menos lulista do partido, mas este seguirá dirigido por oportunistas da velha política pragmática, muito longe de um partido de esquerda ou revolucionário.

Quanto ao PSTU, verificou-se também um enfraquecimento no quesito resultado eleitoral. Em 2014, José Maria de Almeida obteve 91 mil votos. Agora, em 2018, Vera Lúcia obteve 56 mil votos. No principal reduto operário do PSTU, a cidade de São José dos Campos ― onde o partido dirige o importante Sindicato de Metalúrgicos, eixo de existência da central sindical CSP-Conlutas ―, o resultado de Vera Lúcia foi de apenas 481 votos (enquanto Bolsonaro, em primeiro lugar, obteve mais de 231 mil). Como é possível explicar essas poucas centenas? O PSTU paga preço alto por não ter sabido ser contra o PT desde que a ruptura de 2013 se manifestou como antipetista. Em 2013, fazendo coro com petistas, o partido pronunciou-se contra os chamados “Black Blocs” ― jovens proletários radicalizados que resistiam à repressão policial (e que os petistas, aliás, chamaram de “fascistas”). Em 2014, mantendo tais críticas à juventude, em vez de aproximar-se do grito revoltoso das ruas, “Não Vai ter Copa” ― que vinha desde a Copa das Confederações, em 2013 ―, o PSTU somou-se ao abstrato lema “Copa para quem?”, da esquerda petista e psolista, que legitimava a Copa no Brasil, apenas fazendo críticas. Já no início de 2015, quando do estouro das manifestações contra Dilma, o PSTU, em vez de falar claramente “Fora Dilma!” e juntar-se às massas revoltadas, falou um abstrato “Fora Todos”, lavando as mãos e tirando o foco da questão central por meio de um subterfúgio esquerdista (mas depois, quando não se tratava do PT, falou “Fora Temer”). Além disso, erroneamente, o PSTU defendia uma suposta “terceira via” (nem apoiar o PT, nem participar dos atos da suposta “direita”), que nunca se concretizou.

As posições de tal partido foram por muito tempo dúbias, na seguinte forma: por um lado, expressava-se um setor pequeno-burguês, que queria se adaptar ao PT e ao PSOL, que sobrevalorizava questões de gênero e minorias, e se negava a falar “Fora Dilma” em qualquer hipótese. Por outro, manifestava-se uma ala visivelmente mais proletária, mais revoltada, que valorizava questões de classe e queria defender de forma mais clara a queda da Dilma. A confusão reinou no partido até meados de 2016, quando houve o racha que quase o cortou ao meio. O setor pequeno-burguês foi parar no PSOL, coligando-se à ala à direita e lulista desse partido. Após o racha, depurado, o PSTU melhorou suas posições, embora não as tenha resolvido por completo; posicionou-se de forma mais clara pela queda da Dilma (ainda que tenha tido pouco tempo para isso) e, depois, posicionou-se de forma mais clara pela prisão de Lula. Nesta eleição, os maiores espaços e destaques que Vera Lúcia teve nos principais jornais ― com maiores manchetes, mais bombásticas, textos mais lidos ― ocorreram quando a candidata falou duro contra o PT. Ainda assim, o momento oportuno para se posicionar contra o PT de forma incisiva, e, sobretudo, para se construir como direção no movimento real de descontentamento das massas, já havia passado.

Somam-se a isso ― perder o momento oportuno ― confusões que perduram nesse partido, como sua defesa de um estatismo de tipo social-democrata/reformista, estranho ao marxismo clássico. Ao defender “estatizações” (para o Estado burguês atual) como medidas supostamente revolucionárias, o PSTU aproxima-se em conteúdo do PT e, curiosamente, até de caricaturas indefensáveis do socialismo como a Venezuela chavista (um governo bonapartista, ou seja, uma ditadura de direita, capitalista). Por isso, o PSTU ainda aparece às massas como pintado por cores do velho.

Por todos esses elementos, o PSTU não conseguiu se desgarrar da imagem decadente do PT nesta conjuntura geral e se enfraqueceu eleitoralmente. O eleitor que queria dar um voto de protesto contra o PT ― mesmo na base sindical do PSTU, em São José ― viu Bolsonaro como mais eficiente. Inclusive, se agora o PSTU decidir apoiar Haddad no segundo turno, enfrentará sérios riscos de se enfraquecer em sua base operária. A decisão a ser tomada é: se isolar dos pequenos-burgueses de “esquerda”, anulando o voto, mas aproximando-se e dialogando com a classe operária, ou se isolar da classe operária, apoiando Haddad, e confinando-se à pequena-burguesia.

Ainda assim, apesar de tudo isso que dissemos, parece-nos que a campanha do PSTU, este ano, se comparada à realizada nos anos anteriores, destacou-se por procurar um público mais proletário, marginalizado (favelas, ocupações, fábricas e canteiros); destacou-se por ser menos traçada por um discurso pequeno-burguês de gênero (com exceção na reta final do primeiro turno, quando tragado pelo movimento #elenao); destacou-se por um discurso mais sério e combativo, proletário, contra o PT. Assim, ainda que não tenha havido tempo hábil para tirar o atraso desde 2015, a campanha do PSTU serviu para a aproximação de novos militantes e contatos proletários em novo patamar, muito superior aos que até então aproximavam-se do partido (vindos de universidades, via pautas pequeno-burguesas). Isso é algo fundamental para todos revolucionários brasileiros.

De nossa parte, da TS, lançamos uma pequena candidatura a deputado federal, com nosso companheiro Rafael Padial. Nossa organização é bastante pequena, tem um corpo militante muito jovem (média de 25 anos), pouco experimentado, e nossa candidatura tinha como propósito central o diálogo com a própria esquerda. Nunca nos propusemos realizar uma campanha de massas. Sabíamos, além disso, que nossos votos seriam pequenos, pois, por mais que nossas críticas válidas à esquerda pudessem ser ouvidas por muitos militantes, estes dificilmente romperiam seus centralismos e votariam em nós. Portanto, esperávamos poucos votos. Esperávamos 300. Obtivemos 341, o que, para nós, não foi bom nem ruim, mas satisfatório. Saímos da campanha com a consciência tranquila do dever cumprido. Criamos nossas metas internas e externas e, quase todas elas, cumprimos, apesar das dificuldades. Isso também frutificará, dentro de toda a esquerda brasileira, no médio e longo prazos.

De todo o traçado acima, pensamos ser possível observar, no longo prazo, acentuar-se a queda do PT. Isso produzirá, objetivamente, a destruição (ainda que relativamente lenta) dos aparatos sindicais que este partido usa para controlar a classe trabalhadora, sobretudo a operária, fabril. Isso permitirá uma reorganização sindical da classe trabalhadora brasileira, e, junto com isso, uma reorganização da esquerda revolucionária. Num primeiro momento, o PSOL deve ocupar relativo espaço deixado pelo PT na superestrutura política e moral da “esquerda” pequeno-burguesa, mas isso não será determinante, dado que esse partido, o PSOL, não tem acesso à classe operária (e nem se propõe isso). O movimento da classe operária, que cedo ou tarde despontará, puxará a reorganização dos revolucionários. Será iniciada a construção rápida de organizações de esquerda revolucionária, as quais devem se preparar desde já, conscientemente, para isso. O bloqueio que o PT impôs à esquerda revolucionária nos anos 1980 cairá.

Dado que ― para além de todo o alarmismo e histeria dos petistas e da pequena-burguesia ―, a ascensão de Jair Bolsonaro não significa um verdadeiro risco fascista no Brasil, a queda do PT só pode ser saudada. O ideal teria sido a ascensão conjunta da esquerda nesse processo de queda, mas a realidade não se move de acordo com o ideal. O processo para que a esquerda brasileira se desvencilhe das suas longas raízes no PT, das suas décadas de adaptação, carreirismo, bom-mocismo, morosidade e tranquilidade, é mais lento do que o necessário. Mas ao menos acabou a paz de cemitério. O velho será deixado para trás.

“O tempo é roído por
vermes cotidianos.
As vestes
poeirentas de
nossos dias, cabe a
ti, juventude,
sacudí-las.”

(Maiakovski)