Transição Socialista
   

Bolívia: a “revolução das fitinhas” não acabou!

O texto abaixo, do companheiro Pablo Paniagua, circulou em diversos meios bolivianos desde o dia 01/12/2019.

Por Pablo Paniagua, diretamente de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia

A Bolívia não está salva. Sob a desculpa da “pacificação”, o governo transitório negocia tempo ao MAS, para que se rearticule e se apresente nas próximas eleições, e para que Evo e outras autoridades de seu governo manobrem para burlar a justiça. A história de quase 14 anos de ostentação pública, desperdício, corrupção e clientelismo empresarial (mega-projetos e concessões extrativistas em benefício de grandes empresários nacionais, e de transnacionais russas e chinesas) corre o risco de ficar impune, ou, pior, de continuar como antes!

Que não nos enganem! O mandato de Morales acabou, mas ele ainda exerce poder no país com seus grupos armados, de cocaleiros e militantes, que se mobilizaram para espalhar caos em protestos e que continuam cometendo atos indefensáveis. Que não nos enganem! A classe política dos altos figurões do MAS está sendo resgatada e salva por figuras oportunistas como Camacho, que inclusive desmoralizam e colocam em dúvida o protagonismo popular nos dias de resistência contra Evo.

Cabe questionar: nossos comitês cívicos se colocaram ao lado do povo ou dos empresários aliados ao MAS, que não querem perder o poder com a derrota do ditador Evo Morales? Não podemos celebrar a “revolução das fitinhas”, que depôs o ditador, e, ao mesmo tempo, ser indiferentes frente àqueles que se aproveitam de nossa luta!

Que não nos enganem! Camacho não é o messias da resistência pacífica e cidadã nem com a bênção da bíblia que, só por conveniência, levou nos braços. Evo Morales foi posto em xeque pela força da população boliviana, não por figuras de oposição que se autoproclamam líderes e agora buscam recompensa em âmbito político, projetando-se como candidatos.

Os super “machos” foram os populares bolivianos que bloquearam as ruas do país, os universitários, os operários e mineiros que sacrificaram sua carne frente à ameaça real e violenta de grupos de choque do MAS; e não um charlatão que conta com estrutura e apoio econômico, político e empresarial.

Camacho representa politicamente nossos comitês cívicos, ou o dos empresários aliados ao MAS? Por que Camacho apontou a dedo o super-masista Jerjes Justiniano como Ministro da Presidência do governo transitório? Por que a ex-candidata do MAS, Nadia Beller, tornou-se agora a operadora política de Camacho? A vinculação de Camacho com o masismo, já de antes conhecida, não é especulação; tampouco é especulação sua ambição de poder neste governo provisório. Camacho busca acumular ministros e vice-ministros no atual governo, inclusive com apoio do MAS, preparando-se ser presidente da Bolívia no próximo pleito.

Que não nos enganem! Não é confiável deixar o país nas mãos desses que dizem nos dirigir e representar! Que não nos calem, acusando-nos de “traidores” por os questionar e denunciar! Por que nossos comitês cívicos e movimentos sociais estão em silêncio? Estão sendo indiferentes?

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obs: “revolução das fitinhas” (“revolución de las pititas”) faz referência às fitas de contenção que eram amarradas pelos populares nos bloqueios e piquetes que fizeram em vias públicas e grandes empresas, durante os 20 dias de greve geral contra Evo Morales.