Transição Socialista
   

Bolsonaro derrotado junto com Renan e petistas


Comentário conjuntural da TS 

Segue o trapalhismo dos bolsonaristas. A questão é saber até quando durarão certas figuras e abusarão da nossa paciência. O Ministro da Educação, Vélez-Rodriguez, informou à Veja em entrevista que os brasileiros são canibais quando viajam; roubam sabonetes ou quinquilharias de hoteis, ou mesmo assentos de avião. Já a Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos (e também da FUNAI), Damares Alves, conforme se noticiou amplamente (a partir de notícia que já circulara ao final do ano passado), sequestrou criança indígena com sua ONG. A família, a mulher (menina indígena), os direitos humanos e os índios foram todos violados de uma só vez pela ministra. Para melhorar, soube-se também que ela se autoconcedeu — com a graça de Deus — um mestrado. A mulher nem tem currículo Lattes… 

Em alguns elementos o trapalhismo dos bolsonaristas é cópia invertida do trabalhismo dos petistas. Dilma andava para cima e para baixo, lembremos, dizendo que era Doutora em Economia pela Unicamp. Descobriu-se depois que ela nem mesmo tinha defendido o suposto doutorado. Fazendo isso, copiava seu comparsa Aloízio Mercadante, que por volta de 2006 dizia ser Doutor pela Unicamp sem ter terminado a pós-graduação (Mercadante somente doutorou-se, de forma duvidosa, em 2010, quando apresentou um livro já escrito e anteriormente publicado como tese!).

Seja como for, o central é entender que quanto mais trapalhadas fazem os bolsonaristas, mais desmoralizam o presidente frente à própria consciência burguesa média civilizada. Assim, isolam o presidente. Isso deve durar, pensamos, até que tais figuras sejam afastadas, em meio às crises crescentes. Um pouco como ocorreu com Trump nos EUA, cujos assessores mais “extremistas” e lunáticos foram sendo afastados à medida que se chocavam com a ordem democrático-burguesa. E assim, como anunciamos desde outubro do ano passado (ou pouco antes), Bolsonaro vai sendo moldado pelas instituições burguesas. Tudo muda para permanecer igual.

Cabe comentar a eleição nas casas do Legislativo. Na Câmara, como era de se esperar, Rodrigo Maia foi bem sucedido, com mais de 330 votos (note-se que, para aprovar a reforma da previdência, são necessários 308 votos. A princípio, ou seja, ao menos em tese, há folga para a aprovação, mas nada é garantido. Devemos voltar mais a isso na próxima semana, quando começar circular a proposta final da reforma). Cabe comentar — no que interessa às forças da chamada “esquerda” – que Marcelo Freixo, do PSOL, teve 50 votos, ultrapassando bastante a dezena desse partido. Os votos a mais vieram sobretudo do PT. Foram 39 do PT, 1 da Rede e 10 do PSOL. Os demais votos da bancada do PT (16), que não foram a Freixo, foram a Rodrigo Maia. De um ponto de vista geral, isso significa que o PT está jogando com um discurso mais à esquerda para se relocalizar, depois de tanta (merecida) desmoralização. E o PSOL está ajudando o PT nisso, dando-lhe aval para “conduzir” a chamada “esquerda” parlamentar. Oportunistas petistas que fingem ser de esquerda somente para encobrir que estão mais preocupados em se salvar de denúncias de corrupção burguesa — como Lindbergh Farias — comemoraram a suposta “hegemonia” da ala esquerda do PT…

Lembremos que o PSOL, assim como PDT, PCdoB e PSB, ameaçava fazer um bloco de “esquerda” (bota aspas nisso!) sem o PT, dada a enorme desmoralização deste partido. Agora percebe-se que essa “independência”, por parte do PSOL, tinha outros interesses — um acordo para visibilidade por Freixo. Parte significativa do PT votou no deputado carioca, portanto, num acordo geral por um bloco que não isole completamente o PT. Junto foram também a Rede e a maioria do PSB, que também faziam jogo duplo dizendo-se contrários ao PT. Os bons filhos sempre retornaram à casa. 

Já para o Senado a questão foi mais divertida, como todos acompanharam. Cabe descrever um pouco esse teatrão para revelar o contrário do que as análises superficiais sustentam. Não é dado que o governo saiu vitorioso com a queda de Renan.

A eleição fugiu totalmente de qualquer script. Ocorreu o então inesperado: Renan Calheiros perdeu! A raposa velha, Renan, sustentáculo de todos os governos democráticos desde Collor, com destaque especial para os petistas! Renan, aquele flagrado, entre outras coisas, usando avião da FAB para fazer implante de cabelo! Renan, o que rasgou a constituição para não tornar Dilma inelegível após o impeachment! Renan e o STF se meteram numa suprema trapalhada, similar àquela cotidiana dos bolsonaristas, e se desmoralizaram. Ora, a defesa do voto secreto — a mesma que tanto fazem os petistas e seus funcionários, como jornalistas do naipe de Kennedy Alencar — é um completo absurdo. Nós, socialistas, somos contra voto secreto em qualquer organismo público. Somos a favor da democracia das mãos levantadas, das assembleias, da publicidade total. No caso da democracia burguesa, até compreende-se que haja voto secreto na eleição universal devido às pressões políticas de coronéis das diversas regiões do país (de Norte a Sul, passando por todos os bairros). Todavia, essa compreensão não pode ser meramente transposta para o funcionamento dos representantes populares no parlamento. Isso é um completo absurdo e contrário ao espírito da lei burguesa que aponta tais políticos como representantes da vontade popular. Tais políticos têm uma série de direitos parlamentares próprios para se defenderem de pressões ou coações dos demais poderes. Sua função ali é justamente a de representar, se preciso, a dissonância, com seguridade garantida. O voto secreto é apenas mais um absurdo da “classe política” que quer governar contra o povo, acuada pelo povo. E, lembremos, o regimento do Senado a favor do voto secreto é exatamente de 1970, ou seja, do ápice violento do regime militar brasileiro. Tudo isso apenas deixa claro o completo absurdo dos petistas que defendem voto secreto e se unem a Renan Calheiros. 

Os petistas, aliados de Renan na votação, leem a situação como se a derrota deste tivesse sido de alguma forma — mesmo que deformada — uma derrota de forças progressistas frente ao governo Bolsonaro. Mesmo parte da mídia burguesa fala que é vitória do presidente. É isso que devemos demonstrar ser falso, ou ao menos enviesado. Na verdade, a eleição de Davi Alcolumbre, a despeito deste ter sido apoiado por Onyx Lorenzoni, foi um misto de azar e sorte para o governo. Talvez mais azar do que sorte trazida pelo azarão. É duvidoso que Alcolumbre seja realmente o candidato dos Bolsonaro. Soube-se ao longo da semana que o presidente, assim como os senadores petistas, defendia Renan Calheiros para o cargo (pois Renan ofereceu-se para salvar seu filho, Flávio Bolsonaro, das denúncias atuais). Bolsonaro chegou a ligar para Renan e parabenizá-lo após vencer Simone Tebet nas prévias internas ao MDB. Depois dessa ligação ter sido vazada à imprensa — pelo próprio Onyx! —, Bolsonaro foi obrigado a ligar para os demais candidatos à presidência do Senado. O fato das ligações terem sido após o vazamento foi comprovado por jornais. Além disso, a equipe do Ministro da Economia, Paulo Guedes, defendia Renan Calheiros para o cargo, enquanto mais experiente para passar as reformas econômicas ditas necessárias. Consideravam que o tal do Alcolumbre era uma incógnita. E é. Da mesma forma, o filho enroscado de Bolsonaro, senador Flávio, informou em Twitter que não revelaria o voto para não prejudicar o presidente. A declaração soou publicamente como apoio a Renan (voltaremos ao caso da votação “secreta” de Flávio).

Mas tudo saiu do script porque a base anti-Renan se rebelou. Essa base é composta de políticos experientes do Senado que já não mais suportavam ficar reféns das chantagens de Renan, bem como de senadores novos, advindos da onda de “renovação” bolsonarista do parlamento, que são pressionados por seu eleitorado contrário à velha política. Foi por pressão dessa base parlamentar instável que figurou-se primeiramente o voto aberto na sexta-feira. Ali apontaram-se já 50 parlamentares favoráveis ao voto aberto, deixando claro que Renan poderia ser derrotado. Este partiu então para sua ação de raposa velha, para o golpe da madrugada, conseguindo o apoio do próprio presidente do STF, Dias Toffoli, o qual despachou de casa na própria madrugada (às 03h45) a favor de Renan. A diligência do STF a favor de Renan deixa claro por que seus mais de 10 processos não andam no STF. O Brasil foi dormir na sexta-feira com voto aberto para o Senado e acordou sábado com voto fechado novamente! A união das raposas — desde o regimento do regime militar, passando pelo suprassumo da velha política do Nordeste e os petistas como Toffoli — fez-se impor. Ou pareceu fazer-se. Durou pouco.

Toffoli ordenou também que por princípio o político mais velho da casa (Seniors —> Senado) deveria presidir a sessão. Por suprema coincidência, o mais velho era José Maranhão, político do MDB ligado a Renan Calheiros. Tudo parecia certo no golpe da madrugada para Renan voltar ao páreo…

Todavia, Renan não contava com a astúcia inábil de José Maranhão. Talvez devido à idade, Maranhão mostrou-se um completo trapalhão incompetente na condução da mesa, sem conseguir dar cobertura às traquinagens do alagoano. O ápice do absurdo preparado por Renan não vingou: num assomo de ousadia — talvez rememorando os saudosos anos de eleição para o Diretório Acadêmico de Ciências Sociais, no final dos anos 1970, quando Renan tinha vínculos com o PCdoB (partido ao qual seu irmão Renildo, também parlamentar, ainda hoje é filiado) —, num assomo de ousadia, ciente de que poderia perder a eleição, Renan resolveu fraudar o processo; deu um jeito para algum cupincha seu enfiar um voto a mais na urna!! Eis então que na contagem final havia 82 votos (num total de 81 senadores). Desmoralização completa para o Senado. E, para piorar, Maranhão foi filmado rasgando a cédula a mais e a escondendo no próprio bolso!

Pronto, o absurdo, tão mal executado, foi suficiente para trazer a casa abaixo. O caos se instalou. Senadores deixaram o plenário. Nada restava senão reconhecer a palhaçada e refazer a votação. Então os anti-Renan ganharam mais e mais espaço. As bancadas de partidos, que antes receavam abrir votos, foram mais e mais forçadas a fazê-lo, contra o golpe de Renan+Toffoli. Isso levou a que bancadas fechassem posição por voto uníssono e público contra Renan, retirando alguns votos prometidos a ele dentro dos partidos (por exemplo, José Serra e Mara Gabrili do PSDB, e o próprio Flávio Bolsonaro, do PSL). Assim Renan saiu do páreo. Para não se desmoralizar com a derrota — se é que ainda era possível —, Renan desistiu da candidatura em meio à própria eleição (em outra trapalhada de Maranhão, que não deveria ter dado voz ao dono de Alagoas). Em sua declaração final, Renan voltou-se violentamente contra Serra, Gabrili e Flávio Bolsonaro — que lhe haviam prometido voto em segredo, mas, pressionados, tiveram de mudar de posição e declarar-se publicamente contra Renan. E, no final, Alcolumbre venceu por um mísero voto: 42.

Assim, numa total e imprevista confusão, frustrou-se a eleição de Renan. Como explicar isso? Como explicar que Renan, antes presidente do Senado por 4 vezes, que derrotou grandes figuras tradicionais dessa casa em votações anteriores, tenha perdido para um sujeito medíocre e absolutamente desconhecido, Davi Alcolumbre? Um sujeito tratado ainda hoje pela mídia como nem mesmo do “baixo clero”, mas do “baixíssimo clero”.  

Bom, a rigor, a confusão não é absolutamente imprevista. Ao se considerar o alto grau de renovação do Senado e a não eleição de figuras tradicionais da velha política — como Romero Jucá, Eunício Oliveira e outros —, é curioso notar que apenas Renan tenha escapado. Foi um jogo de sorte. Renan apoiou-se em Lula (e na máquina governamental dominada por seu próprio filho) para se eleger em seu estado. Mas, em vez de ter ido com toda a sede ao pote, deveria ter se posicionado de forma mais prudente, frente ao fervilhar político nacional, que gera recomposições partidárias novas e situações imprevistas. A velha raposa apostou que tudo seguia como antes e teria vitória fácil; meteu os pés pelas mãos, ridiculamente. Deu-se no caso de Renan algo similar à derrota do candidato de Lula frente a Bolsonaro. O anti-Lula medíocre, que ninguém apostava, venceu. Aqui, também, o anti-Renan, desconhecido e medíocre, venceu. Seria resultado da pressão popular, mesmo que deformada, sobre políticos burgueses? A ver.

Cabe voltar ao caso de Flávio Bolsonaro nessa eleição. Ele, como falamos, anunciara que não publicizaria seu voto. Como também falamos, seu pai apoiava Renan nos bastidores, para garantir o compromisso, expresso por este, de salvar o “garoto” de qualquer comissão de inquérito no Senado. E a própria declaração final de Renan, quando de sua desistência, deixa claro que estava tudo acordado com Flávio. Foi somente após a impugnação da primeira eleição, e no mesmo minuto em que Renan foi ao púlpito declarar que abdicava do pleito, que Flávio Bolsonaro anunciou publicamente, via Twitter, que seu candidato era Alcolumbre. Ou seja: somente quando soube que Renan desistiria é que Bolsonarinho defendeu o candidato supostamente “representante” do combate à velha política. É fácil de supor que Flávio Bolsonaro, na primeira votação — a impugnada, a que não quis revelar sua posição — tenha votado em Renan. Talvez mesmo na segunda tenha votado assim, caso tenha votado antes da declaração desistente de Renan. O mais provável é que Flávio tenha mudado o voto apenas quando Inês-Renan já era morta, para não se queimar tanto frente à população. 

Enfim, a eleição de Alcolumbre significou uma vitória de Onyx e uma derrota de Bolsonaro, Paulo Guedes e os petistas (senadores do PT, Kátia “Rouba-pasta” Abreu, Toffoli etc.). É uma maioria frágil, uma vitória capenga, de apenas um voto, contra todo o establishment, o que pode significar a queda de Onyx — já envolto em corrupção — amanhã. Por tudo isso, a eleição de Alcolumbre significou uma maior instabilidade na casa superior do legislativo; significou trazer maiores contradições para dentro dessa casa, devido à pressão popular (“Fora Renan!” ou “Renão!”). E mesmo mais contradições para o governo. Alcolumbre é um estranho no ninho, nas altas cúpulas da velha política, ou, como disse ao Estadão de domingo um ministro não-identificado do Supremo: “Muitas soluções para turbulências são negociadas em conversas, não são escritas. É uma relação de confiança. Você vai falar com uma pessoa dessas [Alcolumbre] tem até medo de ser gravado … Seja o que deus quiser”. É possível que a situação tenha dificultado a aprovação da reforma da previdência, uma vez que o Senado saiu mais dividido (dividido ao meio). De alguma forma, na medida em que se volta contra Renan, Toffoli e os esquemas da velha política — voto secreto —, toda a escaramuça pode ter significado também uma pressão da Lava-Jato e da população, mesmo que pequena. Ainda a verificar. 

A eleição nas duas casas parece reforçar a ideia de consolidação do DEM como partido dirigente, como eminência parda detrás das ações extravagantes bolsonaristas. A ordem burguesa, de qualquer forma, com seu funcionamento corrupto, segue em pé, apesar das contradições e dos sobressaltos. Apenas muda-se aos poucos os grupos dirigentes do processo de assalto do Estado. Saem os emedebistas aliados aos petistas e entram os demoníacos aliados aos bolsonaristas. Tudo isso, sem significar ainda uma quebra de regime ou mesmo mudança profunda. Como apontamos no ano passado, seguimos os últimos capítulos da Nova República, os últimos fiapos (dos mais ridículos) do fim do ciclo democrático-burguês atual. Mas este ainda não acabou.