Transição Socialista
   

Carta do companheiro Rodney Álvarez, na prisão chavista

Rodney Álvarez é operário e militante sindical classista na empresa Ferrominera do Orinoco [Venezuela], preso há 8 anos. Ele é falsamente acusado pelo homicídio do operário Renny Rojas, crime que na realidade foi cometido por Héctor Maicán, militante do PSUV [Partido de Maduro], o qual conseguiu sair em liberdade devido à sua relação com o então governador chavista de Bolívar, Francisco Rangel Goméz.

O caso do Rodney comprova a repressão que o chavismo tem exercido contra a classe trabalhadora. Mas também é uma grande amostra da predisposição de luta dos trabalhadores venezuelanos contra a ditadura chavista. Por isso, pela libertação do Rodney Álvarez e todos os lutadores presos na Venezuela, é necessário promover ações internacionais de solidariedade. Na Argentina, os companheiros da organização política Razón y Revolución tomaram a iniciativa de propor a criação de um Comitê Internacional de Solidariedade aos Trabalhadores Presos e os Desaparecidos na Venezuela. Nós, da Transição Socialista, em acordo com tal necessidade, iniciamos uma série de conversas com lutadores de outras organizações políticas para promover um comitê semelhante em nosso país.

Os crimes do chavismo (dos governos do próprio Chávez e do de Maduro) não podem passar em silêncio. São ações de governos capitalistas, bonapartistas (autoritários) para massacrar uma classe trabalhadora que, em situação de miséria e desemprego, resiste e luta de toda forma que lhe é possível. Abaixo a repressão, perseguição e morte de lutadores venezuelanos pelo chavismo!

Em seguida reproduzimos a carta de Rodney Álvarez:

Prisão Judicial Rodeo II, 15.07.2019
À classe operária e ao proletariado mundial

Me declaro em rebeldia!

Após oito anos preso, tenho entendido que o meu caso não tem caráter penal, pois como cidadão eu teria o direito a demonstrar minha inocência, segundo o que rezam as leis burguesas do Estado capitalista Venezuelano.

Durante estes oito anos, estive recluso em várias prisões do país, longe de meu grupo familiar e de meus companheiros de vida e trabalho. A empresa FERROMINERA, localizada no estado Bolívar, propriedade do Estado venezuelano, me demitiu, tirou meu salário e os benefícios que amparavam meus três filhos por contrato coletivo. 

Nestes oito anos, sofri três atentados à minha vida. Hoje, produto disso, estou aleijado da minha mão direita, sem que o Estado, que se gaba de que a prisão Rodeo II é um presidio modelo, me garanta segurança ou muito menos atendimento médico.

Em oito longos anos foram realizadas poucas audiências no Tribunal 12 de Juicio, nas quais as testemunhas e especialistas arrolados por minha defesa conseguiram depor, esclarecendo que não há elementos que me incriminem, demonstrando que sou inocente. Das poucas vezes em que o julgamento avançou, foi interrompido pelo juiz ou pelo procurador.

No início fui acusado pela Procuradoria e por dois advogados privados financiados pelo governo do estado Bolívar, dirigido então pelo coronel Carlos Rangel Gomez. Quando este terminou seu período como governador, foi-se pra o México, e os advogados privados desistiram do processo sempre que o governo lhes deixava de pagar. Somente a Procuradoria Pública se manteve como parte acusadora, a qual não tem assistido às ultimas três audiências de julgamento.

A minha defesa esgotou todos os recursos estabelecidos no código processual penal, mas ainda sou mantido prisioneiro, sendo a mim negados todos os benefícios que por lei me correspondem.

Há oito anos me é negado o direito da defesa; o processo se interrompe e é reiniciado pela oitava vez; os companheiros operários que são testemunhas chaves e têm deposto na minha defesa foram detidos. Na última audiência de julgamento, o secretário do tribunal que segue a causa contra a minha defesa me perguntou, alterado e desesperado: “até quando Rodney, o que você espera!? Ou você não quer estar junto à sua família? Você foi abandonado pelo seu sindicato, pela sua primeira defesa… Decida até quando vai (continuar) com isso! Nós sabemos que você é inocente e que o assassino é o Maicán, mas a ordem é para que você assuma os cargos, assim de imediato te damos um benefício de liberdade condicional; há oito anos você está aqui. Caso contrário, você vai apodrecer aqui”.

Agora, com tudo isto que estou vivendo, olho para atrás, para ver e relembrar meus antecedentes, e eu só lembro que sou filho de proletários, nascido num bairro operário do estado de Bolívar; quando atingi a idade legal fui à porta da fabrica vender o único bem que me sobrou, minha força de trabalho. Fui ganhar o meu sustento, gerando ganhos, mais-valia pra o patrão, e é por isto que sou condenado. Por ser um operário. Por pertencer à classe destinada a romper com a escravidão do trabalho assalariado.

Então reviso os antecedentes dos que me capturaram, dos meus carcereiros e vejo que o atual Procurador Geral, o advogado Tarek Williams Saab, e a sua secretária privada de escritório, a senhora Dalia Vegas, são os mesmos que no ano de 2009 eram o governador e a respectiva secretária do Estado Anzoátegui, que ordenaram a um batalhão de 60 policiais a repressão a manifestação dos companheiros da empresa Mitsubishi, que reivindicavam um salário maior, e onde os companheiros operários Pedro Suarez e José Marcano morreram por disparos. Vejo os antecedentes do presidente do Tribunal de Justiça, advogado Maiker Moreno,  envolvido no delito de assassinato em primeiro grau de um operário na cidade Bolívar, no ano 1987, assim como no assassinato de um jovem em 4 de maio, três meses após o Caracazo de 1989. Ele então era agente ativo da polícia política DISIP, agora SEBIN. São eles os que me capturaram, os meus carcereiros.

Nesse sentido, informo à classe operária e ao proletariado de todo o mundo que me declaro em rebeldia; que entendi que o réu que este regime persegue é a classe trabalhadora, que sou prisioneiro político, que não vou seguir o jogo dos que me capturaram, que não vou assistir mais aos tribunais, ao ‘palácio da injustiça’, não vou mais seguir o jogo do juiz Paolette Guevara e do secretário do tribunal.

Só me resta dizer aos que me capturaram e aos meus sequestradores o seguinte: em algum momento da história serão vocês os sentados no banco dos réus em que me encontro, e prestarão contas de seus atos criminosos, de suas mãos sujas de sangue proletário, e podem ter certeza de que terão um julgamento gratuito, simples e expresso.

Rodney Álvarez, operário de Ferrominera