Transição Socialista
   

Governo avança na reforma mas sindicatos traem trabalhadores

A aprovação da reforma da previdência na CCJ da Câmara dos Deputados foi fato forte o suficiente para elevar as bolsas de valores brasileiras. O resultado final foi muito favorável ao governo – 48 pela aprovação, 18 contra –, contrariando absolutamente tudo o que era dito e surpreendendo os analistas da grande mídia.

O que isso revela? Em primeiro lugar, a tendência à aprovação fácil da reforma no parlamento, caso não haja um fato político novo no país (como um grande escândalo ou a luta da classe trabalhadora se eleve). Em segundo lugar, mas não menos importante, que boa parte dos receios e temores quanto à possibilidade de não-aprovação derivavam da chantagem política do centrão; eram uma forma de expressão, mesmo que nos grandes meios de comunicação, dessa chantagem pública para realizar a adaptação de Bolsonaro às regra$ gerai$ do regime. Em última instância, trata-se da chantagem do sistema político democrático brasileiro sobre Bolsonaro. O centrão é o espírito de corpo (porco) do legislativo – que vive pelos seus próprios interesses materiais e só pode subsistir na medida em que se mantém e se reproduz o próprio sistema democrático-burguês. Assim, em grande medida, o centrão fisiológico, bem estabelecido desde a redemocratização, é, apesar de suas diferentes roupagens, uma das expressões mais puras e perfeitas do próprio regime democrático-burguês. A fragrância do fisiologismo podre é o cheiro natural da burguesia.

Assim, todo o temor que foi colocado, todos os receios, todas as dúvidas, eram em última instância falsos, parte do processo da chantagem do legislativo sobre Bolsonaro. Quando este anunciou que liberaria 40 milhões de reais em verbas para emendas parlamentares, o centrão, dirigido por Rodrigo “Nhonho” Maia, aderiu de vez ao presidente e lhe deu a vitória acachapante. O mesmo tende a se reproduzir na Comissão Especial, na votação do plenário da Câmara, e, por fim, igualmente, em todos os trâmites similares no Senado. 

A oposição só ganhou a dimensão que ganhou – com seu teatrão sobre “tchutchucas” e “tigrões” – porque o centrão deixou, porque o centrão a usou como aríete para fazer Bolsonaro entregar a chave do cofre. Enquanto Zeca Dirceu fingia ser combativo, Rodrigo Maia, ao lado de Paulo Guedes, ria com o canto da boca.

Bolsonaro, que não é burro – como foi Dilma no início de 2015 –, faz jogo duplo; fala uma coisa e faz outra, posta e desmente em seguida, dá informação contrária à do ministro da economia, briga com o vice, etc. É tudo diversionismo, cortina de fumaça, para esconder o central: a necessidade de se entregar ao centrão. Se o fizer muito rapidamente, Bolsonaro perde sua base de apoio mais histérica e pequeno-burguesa, aquela que o elegeu em revolta (parcialmente legítima) contra o regime democrático podre da burguesia. Bolsonaro já não tem os que votaram nele apenas para tirar o PT (que simbolizava perfeitamente a podridão do regime democrático-burguês), já perde parte de sua própria base eleitoral alinhada e histérica… O sinal amarelo acendeu para o governo. É preciso retomar tais bases. Então, não há outra saída senão reativar os histéricos com desvario político. Do contrário, sabe bem Bolsonaro, cairá. As polêmicas inúteis têm pouca ou nula consequência na realidade, mas servem para reativar as falsas polarizações (sobretudo com os petistas), que aquecem sua militância. Assim como Bolsonaro servia como espantalho para o PT se erguer depois de tanta desmoralização, os petistas e satélites são úteis para Bolsonaro se reerguer.

Em suma: Bolsonaro tem total consciência de que se não aprovar a reforma da previdência o futuro de seu governo estará selado. Ele e sua milícia familiar são muito instáveis para a burguesia. São uma cópia piorada do PT. Se não aprovarem a reforma, serão trocados em nome do vice, outro lunático, mas que finge bem ser sóbrio. Assim, a tendência é que Bolsonaro faça esse jogo de alucinados, criando crises de diferentes potências, até mais ou menos setembro de 2019, quando deve-se finalizar – infelizmente – a aprovação da reforma. Ao final do processo, Bolsonaro sairá completamente novo. Terá findado seu transformismo. A diferença entre a aparência (o “novo”) e a essência (o fisiologismo podre do tipo PT, PSDB, MDB etc.) desaparecerá por completo.

Mas as centrais sindicais prometem o maior combate do século!

Enquanto isso, enquanto a reforma da previdência tende a passar, ONDE ANDAM AS CENTRAIS SINDICAIS? No mais completo mundo da lua. Lua não: Lula (livre)! Como maior expressão do sindicalismo e peleguismo vendido à burguesia – cujo suprassumo é Lula – as centrais se dão ao luxo de não fazer nada na conjuntura atual. Depois da frágil paralisação do dia 22/03 – de forma oportunista, para confundir a classe trabalhadora, chamada de “greve geral” –, nada mais foi feito, senão coletas de assinaturas para informar ao senhor Rodrigo Maia que as centrais sindicais são contra reforma. Quem sabe assim o Botafogo da Odebrecht não se sensibilizará, se informará finalmente e perceberá que a reforma é ruim para a maioria da população? Seria cômico se não fosse trágico.

E a própria paralisação do dia 22/03 – como boa parte das demais, desde 2017 –, foi previamente bem combinada pela burocracia sindical com seus grandes patrões, para não atrapalhar a produção e haver reposição das horas paradas (seja o mero atraso nas entradas, seja a paralisação por um dia todo). Eis por que muitas vezes ouvimos trabalhadores comentando que não gostariam de paralisar, dado que terão de repor suas horas, e dado que suas rotinas ficarão ainda mais bagunçadas. 

É claro que, a despeito de tudo isso, a paralisação – mesmo que pelegosamente combinada – revela certa necessidade de as burocracias sindicais se moverem e mostrarem serviço diante da classe. Se não fizerem nada, tendem a ser mais rapidamente atropeladas. Então tomam a dianteira para melhor controlar. Assim, o caminho é para frente, e não para trás (ou seja, pela radicalização das paralisações). Mas dentro de uma política de frente única não basta falar genericamente que as centrais fazem pouco e deveriam paralisar “por mais tempo”. É necessário denunciar os acordos com os patrões e as reposições das horas paradas. Só assim se dialogará com o espírito do trabalhador que às vezes prefere até não parar. Do contrário, trata-se de uma política de frente única criminosa contra a classe trabalhadora. Por que as centrais mais à esquerda não denunciam isso? Porque elas próprias fazem o mesmo! Sem compreender que a frente única é objetivamente colocada pela conjuntura, ou seja, por uma necessidade do movimento geral e real da classe trabalhadora que se dá hoje sob nossos olhos, as direções das centrais mais “combativas” temem ferir o amor próprio dos burocratas sindicais que acedem às reuniões de acordos. As direções das centrais ditas mais “combativas” capitulam aos acordos “favoráveis”, dão inúmeros tapinhas nas costas das grandes figuras, tendo em vista salvar as possibilidades da frente única – como se dependesse delas próprias, como se fosse expressão de sua política, e não do movimento geral da classe.

Agora o novo capítulo dos nossos aguerridos sindicatos é o primeiro de maio unificado no Anhangabaú, no centro de São Paulo. Combativo. Combativíssimo. A direção da CSP-Conlutas declarou em seu site que se trata de algo “inédito”, uma iniciativa “histórica”. Direções lendárias da classe trabalhadora estarão presentes, como Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Leci Brandão, Ludmilla, Paula Fernandes entre outros. Espera-se com entusiasmo que as centrais sindicais talvez realizem, num transe derivado da agitação das enormes massas ali mobilizadas, atos que tendam à superação (aufhebung!) da estreita divisão do trabalho sob o capitalismo, ou seja, atos que superem num só golpe a alienação do trabalhador em relação ao produto do próprio trabalho. Quase como uma expropriação dos expropriadores! Será o momento de maior expectativa e tensão no ar durante a atividade – o momento oportuno – quando então serão anunciados os resultados do bingo com os sortudos ganhadores de carros e outras maravilhas tecnológicas do apogeu da civilização ocidental.

Qual é a semelhança do primeiro de maio com os outros dias de “paralisação”? O fato de que se para quando já se está parado. Assim como nos outros dias há reposição, agora “para-se” no feriado! 

A direção da CSP-Conlutas comemora como um feito inédito e histórico o que já ocorre recorrentemente há décadas no Brasil e é a expressão passiva da podridão do movimento sindical brasileiro (para não falar da decomposição abjeta da indústria cultural que compõe esses showmícios, indústria planejada conscientemente pela burguesia para afastar os reminiscentes críticos da “MPB” das esferas da música). O dia memorabilíssimo comemorado pela direção da CSP-Conlutas é o símbolo mais perfeito da traição e controle da classe trabalhadora brasileira por todos os aspectos do capitalismo. Que coisa deprimente e vergonhosa para uma central que pretende ser “combativa”.

E a próxima paralisação, como já combinam as centrais, vai ficar só para o dia 14 de junho!! Existe maior facilidade para o governo do que isso? Que mamata! A tal grau, que cabe perguntar: não estariam as centrais fazendo cálculos de ganho sobre os milhões que poderiam advir a elas da proposta de capitalização da previdência? Um novo filão, semelhante, aliás, aos fundos de pensão. Soam como ouro ao ouvido dos burocratas desesperados, sobretudo àqueles que sofrem materialmente com o fim do imposto sindical.

Se a reforma da previdência não passar, será apesar de todos as centrais sindicais. Ao que parece, o governo Bolsonaro e seus trapalhões, milicianos e terraplanistas fazem mais para que a reforma não passe do que os “representantes” (eternos) dos trabalhadores brasileiros. Bolsonaro, nos salve! Ou, melhor: que entrem em cena os russos – aqueles com os quais nunca se combina –: a revolta espontânea da classe trabalhadora brasileira atropelando suas direções sindicais. Só isso aponta um caminho real hoje.