Transição Socialista
   

Lula, vai tarde! Agora é fim do foro e fora Temer!

Adeus, Lula! As chances de se reerguer e se tornar candidato são agora mais e mais remotas, a não ser que estoure, entre agora e a eleição do final do ano, alguma grande movimentação da classe trabalhadora, e a burguesia se veja obrigada a usar mais uma vez os serviços sujos de Lula e do PT para segurar a classe trabalhadora.

Lula foi preso e nenhum setor relevante da classe trabalhadora se propôs a marchar por sua libertação. Nas fábricas (nas quatro cidades da grande São Paulo onde acompanhemos, por exemplo), nenhum operário quis mexer um dedo por Lula. Grosso modo, somente aqueles dependentes financeira e materialmente do projeto do PT (entre eles, seus satélites partidários, PSOL e PCdoB) se movimentaram. A nação ficou em silêncio ou na comemoração.

Que fazer agora? Fim do foro privilegiado, fora Temer!

É importante conceber palavras-de-ordem capazes de dar sequência à expressão da revolta popular. Agora elas devem ser sobretudo “Fim do foro privilegiado” e “Fora Temer”. É necessário que a pressão da classe trabalhadora se volte também contra todos os que mantêm este nefasto regime político. Nesse sentido, é sim a hora de um “Fora Todos”. É necessário que a revolta siga e se volte contra MDB e PSDB. Em parte, é isso que ocorre hoje, com a prisão de Paulo Preto, doleiro do PSDB paulista (levando as investigações até a porta de Serra e Alckmin), bem como com a prisão dos amigos mais próximos de Temer, no caso da empresa Rodrimar no Porto de Santos. Mas é preciso ir além.

Por que Aécio, Temer, Renan e outros corruptos, diferentemente de Lula, ainda não estão presos? Ora, porque têm foro privilegiado. Essa excrescência poderia ter sido banida do sistema jurídico brasileiro, não fosse o petista-mór do STF, ministro Dias Toffoli. O STF já tinha maioria pela extinção do foro e, no meio do processo deliberativo, Toffoli pediu vistas no processo e suspendeu a deliberação. Assim, ainda que seja agora a hora da revolta se virar contra todos os outros — “Fora Todos!” — ela deve ser concretizada, de forma que possa efetivamente se vincular aos anseios populares e se realizar. O “Fora Todos!” deve ser concretizado com a palavra de ordem de “Fim do foro privilegiado!” e, em nome dela, os revolucionários devem saber fazer aliança com todos os setores sociais necessários (mesmo os pequeno-burgueses, ditos de “direita”).

O “Fim do foro” não é, evidentemente, uma palavra-de-ordem revolucionária, mas democrático-burguesa. Ainda assim, deve ser apoiada taticamente pois nesta conjuntura específica pode ampliar a crise da dominação da burguesia.

Por fim, a palavra de ordem de “Fora Temer!” deve ser reerguida com mais força. Deve-se inclusive utilizá-la para superar as dissensões entre os revolucionários e a “esquerda” pequeno-burguesa que até agora lutou apenas contra prisão de Lula (usando o “Fora Temer” como diversionismo). Estes devem ser chamados para uma luta unificada, pela queda do Temer e pelo fim do foro privilegiado. A parte honesta desse setor social quererá lutar com mais força contra Temer e os tucanos. A parte verdadeiramente petista, evidentemente — e como sempre —, trairá qualquer luta que aponte balançar a ordem burguesa.

É possível que a luta arrefeça momentaneamente?

Sim, é possível. É possível que num primeiro momento a luta pelo fim do foro privilegiado e pela queda de Temer não caminhe para lugar algum, nem ganhe corpo social. Isso porque não interessa a nenhuma grande direção política atual levar essa luta adiante. Ao PT não interessa o fim do foro nem a derrubada de Temer (como já ficou claro na traição às paralisações gerais em 2017). Aos grupos de direita histérica idem, dado que têm relações com partidos burgueses como DEM, PSDB e outros.

Infelizmente, a esquerda paga muito caro por ter se negado a engrossar a onda de revolta contra Dilma desde 2015, ter deixado de se construir num momento fundamental da política nacional e ter entregado o descontentamento a grupos estúpidos de “direita” que nem mesmo existiam. Isso fez com que as massas que derrubaram Dilma ficassem totalmente órfãs quando tais grupos de “direita” se recusaram a derrubar Temer (no auge da crise com Joesley Batista). E o PT, vale lembrar, também se negou a derrubar Temer no auge dessa crise. Só a esquerda revolucionária poderia ter atravessado todos esses obstáculos, todos esses momentos contra Dilma, Temer, Lula, e saído incólume, de forma independente, apresentando um caminho de verdade, continuidade da luta contra todos.

Além de tudo isso, não se deve negar a possibilidade de um amplo setor social pequeno-burguês (a dita “classe média”) sair das ruas por um período, dado que via em Lula um dos maiores riscos sociais. Essa visão não é de todo absurda, pois a pequena-burguesia pressentiu que, com o retorno de Lula, seria mais controlada amanhã. A necessidade de a burguesia recrudescer seu regime (para controlar a classe operária) faz com que setores maiores da burguesia tenham de controlar setores menores. É o que analisamos muitas vezes como tendência de bonapartização do regime. Eis por que esse setor social pequeno-burguês — classe média — insiste na ideia de que o Brasil pode se tornar uma ditadura populista como a Venezuela. O lulismo seria, corretamente, a maior encarnação desse risco, dada sua capacidade única de mobilizar setores miseráveis para paralisar a classe operária e as oposições menores da burguesia (ditas de “direita”).

Apesar desse possível arrefecimento, graças aos elementos citados acima, os revolucionários devem fazer o certo: agitar amplamente o fim do foro privilegiado e a queda de Temer.

Melhores condições para os revolucionários se abrirão

O arrefecimento deve ser momentâneo, pois as determinações estruturais da atual crise são muito superiores às determinações meramente políticas. O motor de tudo, na verdade, não é a Lava-Jato, mas a revolta popular que cresce desde junho de 2013, como expressão do grau insustentável que atingiu a luta de classes.

Além disso, no campo propriamente político, é necessário constatar que não se trata da mera queda de uma figura política, mas da derrocada de um partido fundamental na manutenção da ordem burguesa brasileira. É o fim de um ciclo histórico de dominação da burguesia. Agora a destruição do PT se acelerará. O PT deve sofrer uma derrota acachapante nesta eleição de 2018, quebrando sua máquina de controle da classe. A maioria dos comparsas de Lula o abandonará; migrará de partido. Aliás, as próprias candidaturas dos lulistas Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D’Ávila (PCdoB) já são parte desse processo, representando uma desleal e baixa apunhalada nas costas de Lula.

Com o PT, fecha-se um ciclo histórico de dominação da burguesia. O PT é o partido que esfriou a classe trabalhadora nos anos 1980, garantindo assim uma transição a frio, pacífica, do regime ditatorial-militar-burguês para o regime democrático-burguês (que não deixa de ser uma ditadura de classe, mas com maior grau de liberdade). Nenhuma transição de regime se dá tranquilamente, sem grandes sobressaltos políticos, grandes acontecimentos na luta de classes. No Brasil dos anos 1980 não foi diferente, mas, surpreendentemente, tudo foi mais tranquilo do que em boa parte do mundo. Aqui nem mesmo os militares foram punidos por seus crimes terroristas contra direitos humanos por duas décadas, produzindo-se um grande pacto social, para o qual em grande medida as posições oportunistas (parlamentares, eleitoreiras) da maioria do PT foram fundamentais.

A construção do PT bloqueou a construção de uma esquerda revolucionária no Brasil desde os anos 1980. É por isso que não perdoamos o PT. Alguns podem achar o nosso antipetismo um tanto “exacerbado”, mas é porque não refletem seriamente — historicamente — sobre o tamanho da oportunidade perdida. Não percebem o estrago político e moral que o PT fez na esquerda brasileira. Não refletem seriamente sobre isso porque, em geral, não são propriamente revolucionários, marxistas, e satisfazem-se com a mediocridade dos objetivos do PT.

Hoje, quando cai esse partido, o fiel da balança do regime democrático-burguês, fecha-se todo esse ciclo de traições, mas fecha-se também o ciclo de controle e domesticação da esquerda e das massas trabalhadoras. Abrem-se assim gigantescas possibilidades para a construção de algo novo, a construção de uma organização revolucionária. A velocidade de construção de organizações revolucionárias no próximo período será muito superior à das últimas décadas.

Lula, vai tarde!
Pelo fim do foro privilegiado! Fora Temer!