Transição Socialista
   

O que está por trás da ópera-bufa do G7?

Muito se discutiu no final de semana passado sobre o resultado desastroso da cúpula do G7 — reunião do grupo das sete nações mais industrializadas do mundo: EUA, Alemanha, Japão, Inglaterra, França, Itália e Canadá. A reunião acabou neste sábado, dia 09/06, ao final da tarde.

A cúpula fora convocada para resolver a crise que ronda o comércio internacional desde que anunciadas medidas protecionistas pelo governo de Trump. O ponto alto foi seu anúncio de que os EUA taxará a importação de aço e alumínio em 25% e 10% respectivamente. Claro, o evento também serviria para declarações de fachada contra a devastação predatória do planeta e a favor de direitos de minoria.

Antes, durante e depois, Trump fez questão de humilhar as demais potências do G7. Uma das declarações irônicas de Trump foi lembrada pelo blog Crítica da Economia. Trump afirmou no twitter: “Estou ansioso para endireitar acordos comerciais injustos com os países do G7. Mas se isso não acontecer, vamos ficar muito melhor do que antes”.

Depois de chegar atrasado, deixar as demais potências esperando, sair mais cedo, atribuir negociações a pessoas do segundo ou terceiro escalões de seu governo, Trump resolveu abandonar a cúpula pela metade e ir ao encontro do norte-coreano Kim Jong-Un em Singapura. Pouco antes da viagem de Trump, parecia que o encontro finalmente chegaria num acordo feliz, embora frágil, costurado por J. Trudeau (Canadá) e E. Macron (França). A declaração de oito páginas condenava ações protecionistas bem como assumia um compromisso de combater as supostas tentativas de desenvolvimento de tecnologia nuclear bélica pelo Irã.

Parecia que ia ter um happy end, mas de repente…

Pouco depois, quando já embarcava em seu avião, Trump, soltando raios e trovões, anunciou no twitter que os EUA não assinariam mais a declaração. Acabou com toda a alegria de uma só vez. Trump decidiu isso porque o anfitrião do encontro, Trudeau, teria sido pueril e feito uma declaração desonesta…

É assim, incrivelmente, que a mídia mundial descreve o acontecimento catastrófico. A harmonia global novamente teria sido desequilibrada por um desequilibrado imprevisível. Essa forma de contar as coisas é ridícula. Assim, evidentemente, Trump não é diminuído, mas, pelo contrário, engrandecido em seu poderio, transformado numa espécie de gênio-louco.

Seja como for, a cúpula terminou, na prática, sem declaração conjunta. Seis potências assinaram, mas sem os EUA, o que são elas? Segundo Trump, nada.

Trump zombou das potências mundiais e as fez chocar entre si a cada momento. Trump fez questão de desmoralizar por completo o Primeiro Ministro canadense e o Presidente francês. Ambos, sabe muito bem Trump, ladram mas não mordem; na realidade, agiram no evento como cães dóceis a serviço da Alemanha de Merkel — a verdadeira articuladora das posições inflexíveis contra a postura protecionista dos EUA. Por parte da França isso seria aceitável, pensa Trump, pois é o papel de sempre do governo desse país. Mas da parte do seu querido, fiel e sempre subserviente Canadá? Como aceitar? Trudeau, disse Trump, foi “desonesto, fraco, afável e submisso” às demais potências.

O ardil de Trump não parou por aí. Visando ao caos, trouxe o fantasma da Rússia para rondar o fim do evento e assustar os alemães. Trump jogou uma casca de banana e todos caíram, tornando o evento ainda mais ridículo. Trump defendeu o retorno da Rússia ao G7. Essa cúpula era G8 até 2014. Ou melhor, G7+1, a reunião das maiores potências industriais do planeta + a Rússia. A Rússia, apesar de sua fraqueza econômica (se comparada aos demais países do G7), fazia parte do organismo em parte devido ao seu poderia bélico (herança dos czares e da URSS), mas também, em grande medida, para servir de elemento de diversionismo e chantagem dos EUA contra os demais países. A Rússia foi expulsa depois de ter anexado a Crimeia em 2014, graças às pressões feitas pela Alemanha.

Enfim, as declarações a respeito de um possível retorno russo ao G7 dão o tom do fiasco do evento. Trump, em seu twitter, falou da seguinte forma sobre o país de Putin: “Sou o maior pesadelo da Rússia, mas, dito isso, a Rússia deveria estar nesta reunião”.

Trump curiosamente foi apoiado pelo novo Primeiro Ministro italiano, Giuseppe Conte, do recém eleito Movimento Cinco Estrelas. Esse grupo dito “populista” corresponde às forças que atuam internamente à UE para a sua dissolução enquanto bloco. É o “euroceticismo”, que se volta, sobretudo, contra hegemonia alemã. Eis por que Conte foi o único do G7 a apoiar Trump em sua declaração sobre a Rússia. A declaração de Conte, também no Twitter, foi tão esclarecedora quanto a de Trump:

“Estou de acordo com o presidente Donald Trump: a Rússia deveria ser reintegrada no G8. É do interesse de todos”.

É do interesse de todos, apesar de não ser do interesse de ninguém. Claro, sendo só dos EUA, deixou claro Trump, já basta…

Não se sabe se a falta de sentido das declarações é resultado da absoluta perplexidade produzida pelo encontro, ou se é um simples sinal de falência intelectual da burguesia em tempos de twitter. Seja como for, Angela Merkel deu sua tedesca contribuição ao debate de gigantes a respeito da Rússia: “Sem chance”. Mas a coisa ainda melhora. O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk — que, como todos em Bruxelas, está a serviço da Alemanha —, declarou garbosamente: “Deixemos o G7 como está agora. Sete é um número da sorte, pelo menos na nossa cultura”.

Com este argumento de peso, findou-se o assunto Rússia e a própria cúpula.

Óperas-bufas como essas, criadas pela genialidade sórdida de Trump, por serem divertidas, são justamente diversionismo para neutralizar o resultado puramente negativo do evento. A burguesia está em crise política em todo o planeta. A falência do G7 apenas antecipa a falência de outros órgãos multilaterais fundamentais criados no pós-Guerra, como a OMC. A raiz da falência desses órgãos tem lastro material e responde a uma situação nada divertida para os capitalistas: o risco de uma nova crise econômica de grandes proporções. As ações assumidas por Trump e seu desprezo pelas demais nações revela que seu país já se prepara seriamente para o grande choque que virá. Nada há de lunático na postura de Trump. Este não é um raio inconsequente no céu azul do liberalismo internacional. Ele é mais inteligente e mais responsável que seus demais pares capitalistas.

As ações protecionistas de Trump, como já comentamos, são em grande medida hoje as responsáveis pela manutenção aquecida da maior economia do planeta, os EUA. E os dados são impressionantes. Trump afirmou no dia 4/6, também via twitter, que “em vários sentidos esta é a maior economia da HISTÓRIA da América e o melhor momento visto para procurar emprego”. Há mais postos de trabalho sendo abertos do que trabalhadores desempregados, segundo a agência Bloomberg, e uma pesquisa de longo-prazo revelou que a média de desempregados para vagas está no nível mais baixo em cinco décadas. As taxas de desemprego atingiram o menor patamar inclusive para hispânicos, negros e asiáticos, o que tem pressionado por uma elevação dos salários (embora relativamente modesta). Abaixo da atual taxa oficial de desemprego (3,8%), somente a média de 3% do início dos anos 1950. A taxa de crescimento do PIB para este ano já regista 2,5%, e, segundo Larry Kudlow, o principal assessor econômico de Trump, deve chegar a 3%.

Professores de economia dos EUA questionaram a afirmação de Trump sobre “a economia mais forte de todos os tempos”, trazendo dados sobre a administração de Eisenhower em meados de 1950 e início de 1960, quando o crescimento foi de 4,4% do PIB (Bloomberg, 07/06, Trump Says the U.S. Economy Is the ‘Greatest’ Ever. It’s Not”, “Trump diz que a economia dos EUA é a ‘maior de todas’. Não é”). Acontece que um crescimento de 3% hoje representa a reprodução de uma massa de capital de dimensão assustadora, dezenas de vezes maior do que a acumulada nos anos 1950. A cada ano, o capital choca-se com seus próprios limites, sobretudo com a dificuldade de acumular uma massa de valor gigantesca, representada crescentemente no elemento fixo do capital constante (ou seja, grandes máquinas, instalações etc.).

Essa é a dificuldade que, como ensinou Marx, caracteriza a lei da queda tendencial da taxa de lucro. Essa lei é reflexo do aumento da produtividade do trabalho, ou seja, ela reflete uma situação em que um trabalhador individual consegue, no mesmo tempo que antes e sob as mesmas condições intensivas, produzir mais mercadorias. Isso ocorre graças ao desenvolvimento técnico dos elementos fixos do capital constante. A cada momento, a tendencialmente agigantada dimensão desses elementos diminui relativamente o tamanho do capital variável (gasto com força de trabalho). Mas é a força de trabalho que produz valor e, sobretudo (para os capitalistas) valor a mais: mais-valia (que vira lucro). A proporção do lucro do capitalista em relação ao total do seu capital empregado tende a diminuir pois o capital variável decresce em relação ao capital constante. Ainda assim, a massa (não a taxa!) de lucro — bem como a massa de mais-valia — pode aumentar, e tem mesmo de aumentar, como única forma de o sistema capitalista seguir de pé.

Lembremos ainda com Marx (O capital, livro III, seção III) quais são as medidas (contratendências) para os capitalistas contornarem a queda tendencial da taxa de lucro:

1. A elevação do grau de exploração do trabalho;
2. A compressão do salário abaixo de seu valor;
3. O barateamento dos elementos do capital constante;
4. A superpopulação relativa;
5. O comércio exterior;
6. O capital por ações.

Cabe neste texto apenas notar aí, entre outros elementos, o item 5, o comércio exterior. E com isso voltamos ao início do texto e ao propósito do G7.

Boa parte dos esforços protecionistas de Trump tem por pretensão justamente acabar com os superávits comerciais dos EUA com demais países. Trump quer salvar seu mercado doméstico e ainda inundar todo o mundo — Europa, América Latina, Ásia — com os produtos de sua indústria. Valendo-se de medidas protecionistas, os EUA buscam estabelecer condições em que possam vender suas mercadorias com os preços baixos que derrubam todas as muralhas da China. Os EUA querem realizar um preço de mercado (aquele que se efetiva com a concorrência) abaixo do preço médio de produção mundial, e que seja, ainda assim, acima do preço de produção individual das mercadorias produzidas nos EUA. Com essa diferença entre preços de produção, os EUA conseguem, na própria concorrência, atingir não apenas um lucro, mas um lucro extra, um super-lucro, na exata medida em que roubam parte do lucro embutido nos preços de produção das mercadorias dos seus concorrentes mundiais.

Isso faz com que a economia dos EUA imponha aos demais países sua própria estrutura de preços e lucros. Todos os demais concorrentes dos EUA são obrigados a se adaptar à sua produtividade, sob pena de perecer. A adaptação tem de se dar com aumento da “produtividade” (leia-se aumento da exploração da classe operária) e via medidas protecionistas-estatais de seus governos (protecionismo cambial, subsídios, tarifas etc). Isso faz com que toda a economia do planeta seja arrastada para a superprodução, puxada pela economia dos EUA, preparando um estouro de crise econômica ainda mais profundo. Quanto tempo isso demorará, ainda não se sabe.

Toda a economia mundial está hoje mais do que nunca dependente dos rumos da economia dos EUA. O desprezo absoluto de Trump por todas as demais grandes potências industriais foi sintomático. Todos caminham cegamente atrás da política do não menos cego governo dos EUA. Na quarta-feira desta semana, aliás, é possível que o FED (banco central dos EUA) anuncie um novo aumento em sua taxa de juros, para segurar a velocidade assustadora da economia. O impacto disso já discutimos. A Argentina, por exemplo, já emprestou US$ 50 bi do FMI. O governo brasileiro injetou na última semana U$ 20 bi na economia para segurar o real (que, todavia, continuará subindo em relação ao dólar).

Todos os capitalistas globais são conduzidos pelos alucinados capitalistas norte-americanos para mais uma crise econômica. As consequências dela são insondáveis, mas possivelmente apontarão para um esgarçamento da liderança e condução do mundo capitalista pelos EUA, ao menos temporariamente (enquanto os próprios EUA têm de lidar com suas contradições internas). A crise abre a brecha de oportunidade, falamos sempre. Mas não só para a classe operária, senão também para setores capitalistas que veem oportunidades de abarcar mercados dos EUA, a começar por Alemanha e Japão. Todavia, tais potências capitalistas também têm de lidar com sua maldita classe operária, que sempre surge em cena atrapalhando seus nobres planos, reivindicando o fim da miséria, da mortalidade e da fome. Em última instância, portanto, a crise capitalista só encontra limite na luta de classes e só pode ser resolvida pela luta de classes.

O bate-cabeça das potências do G7 anuncia a oportunidade que se abrirá para a classe operária mundial.