Tirar o PSOL das garras do petismo!

No dia da condenação de Lula em segunda-instância, em ato a favor do ex-presidente, Guilherme Boulos afirmou: “Lula já foi absolvido pela história e pelo povo brasileiro, por tudo aquilo que fez e por tudo aquilo que representa para o nosso povo!”. A frase não foi um deslize. É em momentos assim, de euforia com a claque, que certos sujeitos revelam tudo o que pensam. Pois é ele que está prestes a dominar parte relevante da esquerda que se diz “oposição” ao petismo.

Boulos reuniu-se há poucos dias com Lula para avisá-lo que sua candidatura pelo PSOL “está se consolidando” (informações da Folha de São Paulo). O fez porque suas negociações com a direção do PSOL estão bastante avançadas. É assim que a militância do PSOL fica sabendo do avanço das negociações de seu partido com um sujeito externo às próprias fileiras: por meio da mídia burguesa.

Em seguida, a direção do PSOL fez reunião com o PCB para tratar da unidade eleitoral por Boulos. A nota publicada no site do PSOL é vaga e — no bom estilo do parlamentarismo burguês — esconde dos olhos do grande público o verdadeiro caráter das tratativas e negociações. Tudo muito longe do lema leninista de “dizer a verdade às massas”. Veja a nota aqui. Somente ao final ela revela a que veio: realizar um “intenso debate” que terá por “base” o programa da plataforma “Vamos”, elaborada para a candidatura de Guilherme Boulos.

Ter por base de discussão o programa do “Vamos” significa rebaixá-la desde o início; significa estabelecer um piso pobre, ou seja, definir que o debate será norteado pela mediocridade política. O programa do “Vamos” não é de esquerda: é o tipo de programa que Marx combateu a vida toda. Aliás, o marxismo forjou-se como corrente específica dentro do movimento socialista exatamente no combate a esse tipo de programa reformista, repleto de ilusões no Estado burguês (desde os embates de Marx com Proudhon). Esse programa não é de esquerda, mas de centro (pequeno-burguês). Trata-se em grande medida do Programa Democrático-Popular do PT, comprovadamente falido diante da História. É fácil saber onde isso dará.

Tudo já está muito bem definido na cúpula do PSOL (e em todas as suas articulações). Para eles não há mais qualquer dúvida: Boulos será oficializado em março. A militância de base foi tremendamente desprezada e desrespeitada. Boulos será oficializado, a não ser que…

A não ser que a base se revolte e lute para viabilizar seus candidatos. A única variável que a direção do PSOL não controla totalmente é a revolta da base do partido. É preciso dar combate. Dado que o futuro do PSOL é relevante para o conjunto da esquerda, toda a esquerda tem de apoiar essa luta, mesmo de fora do partido. A luta ainda não está perdida. É preciso não assumir o ar de derrota — como parece fazer a corrente MES, que soltou nota contraditória, tecendo vários elogios a Boulos. Em nome de quê preparam já o recuo? Desistir sem dar combate é vergonhoso.

A oficialização de Boulos, justamente pelo que consolida no PSOL em conjuntura tão particular, será passo sério (senão definitivo) no estabelecimento desse partido enquanto linha auxiliar do PT; será a opção por um caminho falido e a morte do PSOL como possível instrumento de luta pela emancipação da classe trabalhadora. Tratar-se-á da consolidação de um novo — embora ainda pequeno — bloqueio para as lutas da classe trabalhadora. É por isso que toda a esquerda não pode ficar passiva, olhando de fora, e tem de entrar na disputa. Estendemos desde já a nossa mão em apoio à ala esquerda do PSOL.

Os companheiros do PSTU continuam estranhamente calados, apenas observando a conjuntura. O que esperam? Será que torcem para que o PSOL caminhe de vez para o lulismo, para não haver “concorrência” na esquerda radical? Será que acreditam que isso afirmará seu partido — PSTU — enquanto única opção real de esquerda na conjuntura? Na verdade, isso não ocorrerá dessa forma. Toda a esquerda sairá perdendo com o fortalecimento de um bloqueio. É preciso preparar conscientemente as melhores condições para o conjunto do movimento da classe trabalhadora amanhã. O fundamental é colocar as necessidades do conjunto da classe à frente da autoconstrução partidária — pois é justamente assim que se constrói um partido.

O PSTU não deve esperar o PSOL (que espera Boulos, que espera Lula). Como já falamos, o PSTU poderia desde já lançar seu candidato. Isso não é cretinismo parlamentar, e sim saber ocupar todos os espaços para propagar o partido. Isso também não impede uma reconsideração amanhã, em nome de uma frente socialista. Aliás, ter um candidato já relativamente fortalecido é uma forma de pressionar ainda mais, publicamente, a direção do PSOL e apoiar a ala à esquerda. O candidato, tendo já participado de debates e entrevistas, declarará publicamente ser a favor de uma unidade eleitoral com o PSOL e PCB, mas com a condição de que Boulos não seja candidato. O impacto será maior.

O mesmo valeria para o PCB, caso não estivesse embarcando de mala e cuia no barco furado do semi-petismo. Em 2014, com candidatura própria, o PCB assumiu ar mais combativo e cresceu. Por que agora se esconder e perder protagonismo atrás das cortinas semi-lulistas de Boulos? Por que não lançar um candidato próprio e, depois, de acordo com o avanço das negociações, pressionando sempre por uma posição mais à esquerda, efetivar a unidade?

É preciso ser coerente com a luta contra o petismo em todos os âmbitos. Não combater o petismo hoje, em todas as esferas onde seja possível, terá consequências nefastas para o conjunto da esquerda amanhã. O PCB parece não ser coerente com isso, por capitular antes de lutar; o PSTU, por manter-se passivo.

Tirar o PSOL das garras do petismo! Todo apoio à ala esquerda do PSOL contra os lulistas de plantão!

Conjuntura Editoriais
12.02.2018
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