Transição Socialista
   

Venezuela: lições de “tomada do poder”

A sorte da burguesia é que seus líderes atuais são mais inteligentes que os do proletariado. Sorte da burguesia, tragédia do proletariado. Infelizmente. E não é de espantar: a burguesia tem uma ordem a manter. Portanto, é pragmática e realista. 

Um bom exemplo é a conversa recente do jornal norte-americano New York Times com o professor da Escola Naval de Guerra dos EUA, Naunihal Singh, a respeito da crise política e social atual na Venezuela. Singh é “especialista em golpes” e escreveu até um livro sobre isso, Seizing Power (Tomando o Poder). As posições de Singh são de uma clareza característica de quem sabe o que está em questão na luta de classes.

Segundo o esclarecido jornal burguês, a especialidade do professor não é meramente em “golpes”, mas algo mais complexo: “É a respeito de como e quando governos apegam-se demais ao poder, como oficiais e elites políticas organizam uma mudança forçada, qual papel manifestantes e governos estrangeiros podem desempenhar, e como pode-se manter a — se é que há — legitimidade [da mudança]”.

Estudando exemplos recentes do Zimbabwe e do Egito, o professor Singh esclarece que a mudança de regime ideal (para a burguesia) se dá “quando ocorre juntamente com uma mobilização popular, como na Praça Tahrir”, pois isso “dá maior legitimidade para a administração futura e faz parecer que os militares apenas atenderam a vontade do povo”. 

Mas nem tudo se passa assim, idealmente, crê o professor. O caso da Venezuela parece ser mais complicado, sobretudo pela divisão dos militares (a alta cúpula segue apoiando Maduro). Singh estuda as fissuras internas ao exército da Venezuela e acredita que “é muito difícil prever quando e como motins de massa ocorrerão”. E, para ele, essa “é a maior ameaça” ao governo de Maduro. 

Ameaça em que sentido? 

Segundo o professor, se a alta cúpula do exército seguir muito tempo com Maduro, fortemente reprimindo o povo, isso pode gerar a situação contrária, que saia do controle, com a baixa patente do exército unindo-se aos poucos à população: “Acredito – diz ele – que o maior risco a Maduro é um motim que se entrelace com um levante civil e produza uma revolução, mas isso ainda é uma possibilidade pequena”.

Intrigado, o NY Times perguntou ao professor o que entendia por “revoluções”. Singh respondeu na lata:

“1917 na Rússia. Veja uma revolução fervilhando entre militares e civis [quando ocorre o seguinte]: civis entram em greve, soldados demandam melhores salários, ou talvez assaltam seus oficiais e os espancam. É basicamente uma ação violenta, militar e trabalhista ao mesmo tempo, até crescer em força”.

Para Singh, a melhor alternativa, para não se produzir algo assim, é similar à saída encontrada no Quênia em 2017: “quando o presidente e o líder da oposição chegam num tipo de entendimento comum, aceitável por sua constituição e elites políticas”. Aliás, é isso que Guaidó está tentando fazer, prometendo anistia aos chavistas.

Segundo o esclarecido jornal burguês, há muito chão entre 1917 na Rússia e 2017 no Quênia, mas isso só ilustra “quão incerta a crise venezuelana se tornou, e o quanto as partes interessadas [Maduro e oposição] têm de reunir forças, para evitar um desastre ainda maior”. Desastre ainda maior, leia-se, é Outubro de 1917.

Os altos setores da burguesia dominante mundial — EUA — analisam a situação venezuelana e consideram nela a possibilidade de uma revolução. Como já esclarecemos, esse é o verdadeiro motivo que provocaria uma intervenção militar estrangeira sobre o país caribenho. Infelizmente, os líderes do proletariado seguem, em sua maioria, num apoio vergonhoso a Maduro, sem considerar qualquer possibilidade histórica no processo que se dá em curso hoje. Eis por que tais líderes necessariamente perderão para a burguesia no futuro: não enxergam todas as possibilidades e não estão à altura dos desafios históricos do presente. A primeira coisa a se fazer no caso venezuelano, como já trabalhamos, é derrubar Maduro com a mobilização das massas. Fora Maduro!