A conjuntura para o realinhamento

Um post desta semana na página “Não Vai Ter Copa” do facebook rapidamente “viralizou” porque dizia:

“Faltam 35 dias para a copa!

Greve dos rodoviários do Rio
Greve dos rodoviários do ABC
Greve dos rodoviários de Belém
Greve dos rodoviários de Florianópolis
Protesto do MTST no centro de SP
Manifestação do Movimento Anchieta na zonal sul de SP
Tensão sobre a reintegração de posse na zona leste de SP, numa importante ocupação do MTST
Greve de servidores técnicos das universidades
Greve unificada da educação (estado e município Rio)
Greve municipal da educação em Caxias
Greve nos estaleiros em Niterói
Greve de vigilantes
Greve dos servidores da cultura

O fato é que a luta do povo está roubando a cena. Viva!”

É verdade: está tomando forma, se delineando, uma luta diretamente da classe trabalhadora contra o capital, acelerada pela conjuntura política de tensão contra a Copa do Mundo. Em praticamente toda greve, todo ato de rua de uma categoria, surge naturalmente o grito “Não Vai Ter Copa!” A luta contra o capital está se vinculando à luta para derrotar o governo e pode ser o fator decisivo nessa queda de braço. A situação é exatamente a seguinte: se a classe trabalhadora quiser, não vai ter Copa; o destino da Copa — e em grande parte o do Governo Dilma — está nas mãos da classe e ela ainda está pesando o que fazer, um pouco indecisa. É neste momento que a ação firme da vanguarda pode ser determinante. Lembremos: foi a ocupação da fábrica Sud-Aviation, impulsionada pelos trotskistas franceses da OCI em maio de 1968, que desencadeou todo um enorme movimento que quase pôs abaixo o governo francês.

A revolta dos trabalhadores, que tende a explodir no início da Copa, não é mera barganha, mero jogo/simulação de burocratas sindicais: em vários casos os trabalhadores estão atropelando suas burocracias sindicais e tomando a frente da luta. Foi assim com os rodoviários do Rio Grande do Sul há alguns meses e com a forte greve dos Garis do RJ. Está sendo assim, agora, com a greve dos rodoviários do Rio de Janeiro, com a dos professores municipais de São Paulo e a dos operários de Cubatão.

Ou seja: a peculiar conjunção de reivindicações “econômicas” (possibilitadas pelo descontentamento com a economia manifesto em 2013) e reivindicações “políticas” (diretamente contra a Copa e, logo mais, contra a eleição) está criando uma conjuntura única, que não mais se repetirá e que pode não aparecer novamente no Brasil após a Copa e as eleições. Essa junção é de tal forma explosiva que, se a luta for consequente, pode ajudar a virar uma página no sindicalismo brasileiro. Vivemos um momento único, que deve ser aproveitado ao máximo pela classe para criar uma correlação de forças favorável para as lutas de amanhã.

É verdade que as greves ainda não são nos setores mais importantes para o capital, nos setores propriamente operários (excessão feita aos lutadores da greve do Comperj e dos operários da Construção Civil de Cubatão). Mas o processo é claro: de manifestações de rua mais pequeno-burguesas em junho de 2013, avançamos para setores importantes da circulação do capital (rodoviários, garis, professores, servidores) e cada vez mais para o setor fundamental: a esfera da produção do capital, onde surge o alimento do capital (a maisvalia), onde se pode cortar o mal pela raiz. Aumentam a tensão e o descontentamento nas grandes fábricas, no setor energético, refinarias, nas obras de construção civil, etc.

Tudo isso significa que junho de 2013 foi mesmo um cataclisma na conjuntura política brasileira, o cisma que separou a classe da burocracia sindical, preparando-a para andar sozinha, de acordo com sua própria vontade. A conjuntura para um realinhamento sindical, tão desejada por vários companheiros, está se abrindo, e é obrigatória a intervenção consciente e não conciliadora da vanguarda. Entre o #VaiTerCopa de Dilma e o #NãoVaiTerCopa não deve haver meio termo, uma vez que a própria derrota/desmoralização do governo — o cancelamento da Copa — são os aceleradores do realinhamento sindical e político da classe trabalhadora. A derrota do governo significa uma enorme consciência de poder e força por parte da classe trabalhadora.

Nós, do MNN, não acreditamos propriamente na divisão entre “reivindicações econômicas” (por salário e emprego) e “reivindicações políticas” (contra os governos). Pensamos que há reivindicações supostamente “econômicas” (escalas móveis de salários e horas de trabalho) que combinadas e articuladas por uma organização de vanguarda podem ter um potencial diretamente político (constituição da dualidade de poderes). Mas a conjuntura brasileira é favorável a tal grau que até os que trabalham com a dicotomia “econômico” X “político” podem vincular suas reivindicações salariais à luta contra a Copa e impor uma derrota ao governo. Nada justifica, portanto, a não vinculação dessas lutas à luta contra a Copa agora, pouco tempo antes da abertura do Mundial, quando apenas cresce a tensão social.

É evidente que a derrota do governo nesta queda de braço ainda não está dada e a luta pode se tornar derrota para a classe trabalhadora. A responsabilidade que pesa sobre a vanguarda é grande e deve ser considerada. Mas na política nada é feito com 100% de garantia e com a possibilidade de verificar de antemão todas as variáveis. O movimento da classe que pode abrir gigantescas possibilidades pede também uma dose de ousadia, de ruptura com o carreirismo e a rotina. Uma derrota pontual do governo em relação à Copa pode ser um grande passo para a construção do Poder Popular, ou seja, para a construção formas poderosas e autônomas da classe trabalhadora na resistência contra a vontade capital.

Avançar na luta, nas paralisações, greves e piquetes!

Avançar no combate às burocracias sindicais!

Viva a luta da classe trabalhadora!

 

Histórico
13.05.2014