A crise e a luta dos trabalhadores

Neste domingo, 16 de agosto, na avenida Paulista, manifestantes pediam para tirar fotos com policiais militares que prontamente atendiam às solicitações enquanto nos carros de som eram frequentes as associações dos corruptos do PT com o “comunismo”, o “socialismo” e a “violação da propriedade privada”, da “moral e ordem”.

Isto não significa, entretanto, que quem protesta está vinculado a uma extrema direita fascista. Essa caracterização serve ao PT, como se este estado atual das coisas não fosse reflexo da política traidora do partido. O que, por outro lado, salta aos olhos nos protestos é o seu caráter difuso, sem direção. Na Paulista, por exemplo, Levi Fidelix subiu ao palanque, enquanto o senador Ronaldo Caiado preferia misturar-se na multidão, assim como José Serra e José Aníbal, ambos do PSDB. Além de Fidelix, uma fila de desconhecidos se sucediam em discursos desconexos e até infantis que só não recebiam vaias pois terminavam invariavelmente com o “Fora Dilma”. Apenas Aécio, em Minas Gerais, e o deputado Jarbas Vasconcelos, em Pernambuco, foram excessões entre os políticos de oposição e que buscaram algum um protagonismo.

De toda a mise-en-scène do dia 16, fica a impressão de um governo desmoralizado, de uma oposição dos partidos burgueses que não sabe o que fazer e de uma massa que vaga à deriva. Entretanto, não se pode desprezar que mais de meio milhão de pessoas tenham saído às ruas em todo o Brasil, com maior ênfase em São Paulo, Rio e Brasília. Está claro que, apesar da geléia geral, o “Fora Dilma” e a revolta contra a corrupção são os elementos agregadores.

Se a situação não piorou para Dilma, manteve-se estável, o que por si só já é grave, pois qualquer novo deslize pode leva-la ao impeachment. A movimentação favorável a ela que também ocorreu esta semana, com o encontro  da presidente com líderes do MST, MTST, CUT e UNE não poderia ter assumido um tom mais ficcional. Em especial, os discursos de Guilherme Boulos, do MTST, e de Vagner Freitas, da CUT, defenderam enfurecidos a presidente contra seus adversários “poderosos”, enquanto ela mesma, em sua fala posterior, pregou o diálogo “com a oposição”. Para além do vídeo pró-Dilma, tal encontro não produzirá nenhum efeito mais sério e o dia 20 deve ser infinitamente menor que o 16.

Por outro lado, para se equilibrar, Dilma também abre mais e mais espaço para os senadores Renan Calheiros e o eterno Romero Juca, ambos do PMDB. Esta aliança apenas escancara para quem Dilma governa e quais suas metas para superar a crise. O pacote proposto por Renan é um dos mais escandalosos ataques à classe trabalhadora dos últimos tempos, seguindo a mesma linha do PPE.

Para os trabalhadores não é possível depositar ilusões nas alternativas burguesas à crise. Tanto Aécio, ou qualquer outro nome do PSDB, Temer e Cunha apenas seguirão desferindo ataques contra o emprego e os salários. Se hoje o Brasil não promoveu cortes como os da Espanha ou Grécia, é porque Dilma está refém de um Congresso que quer vê-la sangrar.

Com o acirramento das contradições entre a crise econômica e a crise político-institucional instalada na Brasília em tempos de Lava-jato, só resta aos trabalhadores construir seus próprios meios de luta e resistência. Assim, como escreve Trotsky, “nem a inflação monetária nem a estabilização podem servir de palavras-de-ordem ao proletariado, pois são duas faces de uma mesma moeda”. Contra o arrocho salarial, só se pode lutar com a palavra-de-ordem de ESCALA MÓVEL DE SALÁRIOS. Contra as demissões, “o trabalho disponível deve ser repartido entre todos os operários existentes” sem redução dos salários, a ESCALA MÓVEL DE HORAS DE TRABALHO.

Tais reivindicações não são o fim, mas o início da luta transitória pela construção de uma alternativa revolucionária à crise que hoje assola o país. Como diz, uma vez mais Trotsky, “A possibilidade ou impossibilidade de realizar as reivindicações é, no caso presente, uma questão de relação de forças, que só pode ser resolvida pela luta.”

 

 

 

 

Histórico
19.08.2015