A farsa contada mil vezes

Nesta sexta-feira, em pelo menos três grandes cidades do país a juventude saiu às ruas para protestar. Em São Paulo, o confronto entre manifestantes e policiais ganhou visibilidade nacional após a grande imprensa veicular imagens do coronel da PM Reynaldo Simões Rossi sendo espancado por manifestantes. Ao lado das imagens, o texto relatava as palavras do coronel ensanguentado antes de seguir para o hospital: “segura a tropa, não deixa a tropa perder a cabeça”.

Tal montagem basta para retratar o coronel como herói e os manifestantes “black blocs” como vândalos, bandidos sem rosto que batem em um policial indefeso, assim como poderiam bater num trabalhador exaurido após um dia de trabalho.

Na guerra de versões, no campo das trincheiras da comunicação, a imagem é essencial. A jornalista alvejada pela bala de borracha no dia 13 de junho fez o que diversos relatos de abusos e agressões policiais não fizeram em anos: mostrar a repressão da polícia militar. A imagem do coronel é o troco nessa guerra. Uma imagem vale mais que mil palavras. Acontece que imagens são editáveis e contam uma realidade que nem sempre é verdadeira. A jornalista alvejada apontou uma câmera para um policial que puxou o gatilho, aí não há dúvidas, mas e no caso do coronel Simões Rossi?

A Folha de S. Paulo divulgou um video que “comprova” a verdade — o policial sendo agredido. Mas nem a Folha, nem o Estadão apuraram o relato de testemunhas que dizem, mostrando suas caras, que, minutos antes, o coronel estava arbitrariamente colhendo nomes e RGs de manifestantes sem alegar acusação alguma e, no momento, em que ele foi cercado, avançava sobre um manifestante para agredi-lo ou prende-lo. Esta versão é confirmada por uma foto do coronel em posição de ataque. Ora, se a história for contada dessa forma, de agredido, o coronel passa a agressor, e os “black blocs” nada mais faziam do que proteger um manifestante de ser preso.

Ainda outros relatos de testemunhas também desmentem a versão de que o tumulto no Parque Dom Pedro foi uma ação dos black blocs. Segundo estes relatos, a polícia iniciou o confronto e reproduziu no Parque Dom Pedro a mesma tática usada dia 13 de junho na avenida Consolação: os manifestantes eram alvejados com bombas, cercados e mesmo quem quisesse dispersar estava impedido.

A imprensa também deveria apurar por qual razão a polícia avançou sobre os manifestantes que formavam a bateria do ato, imobilizando-os e destruindo, sob seus olhos, seus instrumentos musicais. Imaginem se a imagem veiculada em rede nacional fosse essa e não a do coronel ensanguentando pedindo para “segurar a tropa”.

Como se vê as imagens são editáveis e uma mentira contada mil vezes se torna verdade. Era o que dizia o chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels. Ele era um gênio da comunicação de massas e os recursos desenvolvidos por ele fizeram história. Alguns de seus ensinamentos são usados até hoje na publicidade das grandes corporações e nos grandes meios de comunicação.

Foi forjando a culpa dos comunistas no incêndio do Reichstag que Goebbels desencadeou a ascensão nazi, em 1933. Foi forjando a existência de armas químicas que os Estados Unidos promoveram a guerra do Iraque. Foi acusando os traficantes da Rocinha que a polícia carioca tentou se eximir da morte do pedreiro Amarildo, e agora é editando uma imagem, recortando-a de seu contexto, que a grande imprensa julga e condena os manifestantes.

A cena repetida mil vezes — produto de uma apuração parcial dos fatos — demoniza os manifestantes, exalta o coronel truculento e transforma a polícia em defensora da ordem. Tal montagem, intencional ou não — pouco importa — prepara terreno para uma repressão ainda mais violenta contra a juventude que hoje está disposta a lutar. Não por acaso, a presidente Dilma rapidamente classifica a ação dos black blocs como antidemocrática e cobra apuração!

E o coronel-herói já dá entrevistas pacificadoras: “Existe uma minoria que não quer interlocução, não quer negociação, mas existe sim uma maioria que em conjunto com a Polícia Militar poderia coibir a infiltração desses criminosos nessas manifestações legítimas”, declarou ao Jornal Nacional do sábado 26 de outubro.

Por outro lado, os jovens que hoje saem às ruas já não partilham de ilusões quanto aos “bons” conselhos da polícia militar, pois sabem muito bem a quem ela realmente serve, nem quanto ao caráter traidor do PT e de todos os demais partidos burgueses que se revezam no poder. A luta não é contra a tarifa nem contra esta ou aquela pauta específica, mas, como dizia metaforicamente a faixa: POR UMA VIDA SEM CATRACAS, pois para quem tem toda uma vida pela frente não há como ver neste sistema em agonia uma perspectiva de futuro.

Histórico
28.10.2013