A nacionalidade do conflito no Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro, como já comentamos muitas vezes, é a melhor expressão dos anos de lulismo no Brasil. Lula e o PT conseguiram, no estado da Guanabara, acabar com todas as oposições (alas opositoras do PMDB, DEM, PSDB, etc.) e fundir toda a política numa geléia geral da corrupção. Claro, para isso foram necessários muito luta e muito dinheiro. Tudo se tornou a instituição do suborno, mas tudo se tornou também — via suborno — escanteamento de adversários.

Todos os políticos que tivessem qualquer pretensão de caminho próprio, por fora do caminho do PT, foram quebrados no RJ. Sem dúvida, o caso mais clássico e relevante é o de Anthony Garotinho, devido à força que ostentava no estado. Garotinho foi muito poderoso; além de governador, fez sua mulher sua sucessora, para poder participar da campanha presidencial em 2002, na qual perdeu para Lula. Em seguida, entrou no PMDB (2003), pois este ainda não estava alinhado com o PT e poderia lhe fortalecer o caminho próprio para o governo federal. 2006 era o ano chave. Todavia, apesar do acordo com o PMDB, Garotinho foi traído pelo grupo pemedebista de Sarney e Renan Calheiros, que intentava se aproximar do PT. Temer ficou ao lado de Garotinho à época.

Garotinho ficou revoltado ao final de 2005 com o que chamou de “traição” do PMDB. Não esperava, entretanto, que viria pela frente mais traição. Em 2006, na eleição presidencial, apoiou Heloísa Helena (primeiro turno) e Alckmin (segundo turno) contra Lula, sempre visando a enfraquecer este e o controle da máquina federal sobre o RJ; sempre visando a enfraquecer aqueles que lhe barravam o caminho próprio. Além disso, apoiou seu pupilo Sérgio Cabral Filho para o governo do Estado, tendo certeza de que este lhe garantiria espaço e máquina para candidatar-se a presidente em 2010. Cabral era chave para Garotinho erguer sua política de caminho próprio. Todavia, logo no começo de 2006, Cabral o traiu e foi para baixo das asas de Lula. Essa foi, segundo Garotinho, a mais pesada e dura traição, que praticamente lhe quebrou as pernas e lançou à marginalidade política nacional e carioca.

Curiosamente, tanto Cabral e Garotinho estão presos ou deram uma volta por Bangu. Cabral, o filho legítimo da marginalidade carioca, foi preso por agir perfeitamente como lulista dentro da máquina estatal. Tudo o que fez era exatamente o que os petistas faziam em âmbito federal, mas com menos discrição. Garotinho está preso após ater-se desesperadamente em seu feudo — Campo dos Goytacazes — temendo desaparecer da política nacional. Ao tentar ter uma máquina política para reerguer-se, Garotinho comprou votos para manter espaço político.

Garotinho foi preso um dia antes de Cabral. Seria coincidência? Curiosamente, Garotinho parece ter sido preso para não poder lucrar politicamente com a prisão certa de Cabral — fruto da necessária perseguição a todos os corruptos da entourage lulista. Cabe perguntar: quem não quer que Garotinho colha os louros da prisão de seu principal desafeto e do desmoronamento do petismo? Provavelmente Temer, setores do PSDB e do DEM, com influências na operação chequinho da PF. Isso mostra algo relativamente óbvio: por mais que tenham sido em algum sentido “oposição” ao PT, tanto Temer quando PSDB e DEM aplicam a mesma política, para manter o controle da máquinas estatais (e das verbas que passam nelas). A verdade é que não há futuro após o lulismo por dentro desses partido burgueses, apenas dentro da política autônoma e revolucionária da classe trabalhadora.

A política da classe trabalhadora busca outro caminho; ela não perdoa Garotinho, Cabral, Lula, Temer, PSDB, DEM, e nenhum desses burgueses vendidos; ela não toma como fundamental essas intrigas, disputazinhas burguesas, embora as perceba/compreenda. Ela toma como fundamental a linha política que fará todos os burgueses ficarem paralisados, para abrir espaço para a luta nacional (e internacional) da classe trabalhadora.

Nesse sentido, a derrota do ajuste fiscal hoje no Rio de Janeiro tem sentido fundamental para toda a classe trabalhadora nacional. Não é possível ficar com frescuras, como aquelas concepções ideológicas, que impedem parte da esquerda de apoiar tal luta porque há nelas servidores que são policiais ou bombeiros. Derrotar hoje o ajuste fiscal no Rio de Janeiro é criar um novo ânimo e disposição de luta na consciência geral do conjunto do proletariado brasileiro. Afinal, se eles conseguirem, por que nós aqui não conseguiremos? Por que nós aqui, no Rio Grande do Sul, por exemplo, que está em profunda crise fiscal, não conseguiremos? Por que todos nós, contra as medidas de Temer, não conseguiremos nacionalmente? Derrotar o ajuste de Pezão no Rio de Janeiro é derrotar o ajuste de Temer no Brasil todo, e é dar um novo impulso pra luta do proletariado brasileiro.

Na exata medida em que é uma luta contra a herança do lulismo — a falência fiscal derivada da farra burguesa —, a derrota do ajuste fiscal no RJ é possibilidade de se iniciar uma política proletária além do ciclo político do lulismo. Neste momento de crise política grave da burguesia, já tivemos passeatas dominicais e ocupações de escolas contra o governo burguês. O que falta é a movimentação de setores da classe trabalhadora, organizados sindicalmente enquanto tais, enquanto categorias. Isso mudará a conjuntura. Que os novos ventos cariocas se espalhem pelo país!

Histórico
23.11.2016