As imagens que nos dominam

Dia após dia todos nós, sem exceção, somos dominados por imagens. Como os prisioneiros da caverna alegórica d’A República de Platão, consideramos as imagens com as quais nos defrontamos absolutamente verdadeiras.

Para sobreviver, somos todos obrigados a correr atrás das mercadorias e do dinheiro, tenhamos ou não consciência da irracionalidade dessa correria, da irracionalidade dessa vida dominada pelas coisas, dessa vida sem vida.

À procura de algo com vida, talvez tentemos nos refugiar na arte, ou naquilo que nos acostumamos a chamar de arte. Vamos ao cinema ou ao teatro e nos 
defrontamos com algo que nos considera meros espectadores, totalmente passivos diante da ideia absoluta de um autor, que domina, além de nós, os próprios atores. Essa forma de arte burguesa tem como objetivo pacificar, apaziguar, bloquear qualquer possibilidade transformadora da platéia. Mas a principal função dessa suposta arte de nosso tempo é a de ser mercadoria e, como mercadoria que busca frenéticamente ser trocada por dinheiro, gerar, desse modo, lucro para o capital.

Se a arte, ao se transformar em mercadoria, perde sua potencialidade transformadora, cabe perguntar se as demais mercadorias que compõem a multidão de mercadorias teriam alguma característica comum capaz de cumprir o mesmo papel bloqueador. Essa característica comum a todas as mercadorias é o seu preço. Aparentemente o preço é algo óbvio, ou seja, a quantidade de dinheiro necessário para comprar uma mercadoria. No entanto, Marx mostrou que o preço, apesar de ser algo aparentemente simples, é extremamente enigmático.

A ilusão provocada pelo preço provém do fato de ele velar, ao invés de revelar, o conteúdo nele representado, o conteúdo do qual ele é apenas uma forma de manifestação. O preço de uma mercadoria oculta o seu valor, oculta a quantidade de trabalho nele contido. Ao olharmos o preço de uma mercadoria não conseguimos saber quanto de trabalho ele representa, nem sequer percebemos que ele é manifestação do valor e podemos até esquecer que aquele produto, assim como todos os demais, provém do trabalho humano.

Ao esconder o trabalho humano que produz as mercadorias, o preço faz com que elas pareçam possuí-lo indepedentemente da ação dos homens, é como se seus preços fossem o resultado da relação que elas próprias estabelecem com o dinheiro. É como se elas tivessem vida própria e se relacionassem com o dinheiro autonomamente. Nós todos passamos a ser reféns dessa ávida busca das mercadorias pelo dinheiro.

Os homens passam a ser apenas personagens de um drama que eles próprios produzem, inconscientemente, um drama que são incapazes de controlar. Os preços das mercadorias são, provavelmente, as imagens que mais nos iludem, imagens com as quais nos defrontamos cotidianamente, que aparecem para nós como algo natural, algo que sempre existiu, algo extremamente simples.

Dentre todas as mercadorias, aquela que mais enfeitiça os trabalhadores é sua própria força de trabalho, a única que lhe restou após a longa e penosa história de sua violenta separação dos meios de produção. O preço da força de trabalho, que assume a forma de salário, ofusca o trabalhador porque o impede de perceber quanto da jornada de trabalho é destinada a si mesmo e quanto é apropriada sem qualquer pagamento pelos capitalistas, na forma de mais-valia. O salário cria a aparência de que toda a jornada de trabalho é paga, mistificando a relação de exploração entre capital e trabalho. O salário é, portanto, uma poderosa imagem.

A dificuldade de superar o feitiço provocado pelo salário na consciência dos trabalhadores provém do fato de ele ser produzido objetivamente, de ele ser produzido pelas próprias relações de produção, independentemente da ação consciente da classe dominante. Essa objetividade do salário é o que o torna uma figura aparentemente neutra e, ao mesmo tempo, a mais dominadora de todas as imagens.

Ao lado do salário, essa imagem permanente, generalizada e objetiva que domina os trabalhadores, a classe capitalista produz, evidentemente, as suas próprias imagens ilusórias. Neste ano serão produzidas duas imensas imagens que paralisarão a todos, momentaneamente. Uma delas é o processo eleitoral. Desviando o foco do problema central da sociedade capitalista, a propriedade privada dos meios de produção, as eleições fazem supor que é possível resolver os problemas enfrentados pela classe trabalhadora no interior do modo de produção capitalista. Nesse sentido, as eleições representam, também, uma grande imagem.

Mas a maior e mais eficiente imagem produzida subjetivamente pela burguesia nesse ano é a Copa do Mundo. O trabalhador comum se identifica com
os atletas, os idolatra, talvez porque gostaria, em seu íntimo, de possuir a habilidade demonstrada por eles. Por que o trabalhador comum não possui a habilidade adquirida por seus ídolos, tanto no esporte quanto nas mais diversas manifestações artísticas? Simplesmente porque não teve e não tem tempo para desenvolvê-la, por ser obrigado a trabalhar jornadas extenuantes que esgotam sua energia física, “não restando”, como diz Marx, “nenhum tendão, nenhum músculo” para desenvolver outra atividade além do enfadonho trabalho assalariado.

Os jogadores de futebol, quando transformados em ídolos, não passam de imagens necessárias num mundo no qual os trabalhadores são obrigados a desempenhar uma única função, uma única profissão pelo resto de suas vidas. Para não enlouquecer numa sociedade como esta, somente criando ídolos nos quais seja possível se espelhar, nos quais seja possível, ainda que momentaneamente, fugir do caos que significa nossas vidas.

Como superar, então, o domínio que a multiplicidade de imagens exerce sobre todos nós, tendo nós ou não consciência disso? Citemos um trecho da obra que inspirou esse texto, O capital de Karl Marx. Ao tratar da superação da imagem criada pela religião, Marx afirma: “O reflexo religioso do mundo real somente pode desaparecer quando as circunstâncias cotidianas, da vida prática, representarem para os homens relações transparentes e racionais entre si e com a natureza. A figura do processo social da vida, isto é, do processo da produção material, apenas se desprenderá do seu místico véu nebuloso quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob seu controle consciente e planejado”.

Quando a humanidade superar a forma mercadoria, a forma dinheiro, a forma salário, quando os trabalhadores tiverem tempo para desenvolver todas as suas habilidades, eles serão capazes de organizar seus próprios campeonatos de futebol muito mais espetaculares do que todas as Copas do Mundo já realizadas. Somente então os trabalhadores deixarão para trás esse papel passivo, de mero espectador, assumindo um papel ativo, sem a necessidade de se espelharem nas imagens de supostos ídolos.

Para superar essas formas imagéticas é necessário, antes de tudo, superar o maior de todos os entraves, sempre oculto pelas imagens: a propriedade privada dos meios de produção.
“Para tanto”, conclui Marx, é necessária “uma evolução histórica longa e penosa”. Às gerações atuais cabe enfrentar parte dessa “longa e penosa” história capitalista. Depois de superado o capitalismo poderemos modificar o nosso lema atual. Ao invés de “NÃO VAI TER COPA!” poderemos afirmar “COPA NUNCA MAIS!”

Histórico
14.04.2014