Balanço e perspectivas da paralisação nacional

Sobre o dia 28/04 — dia de paralisação nacional contra os ataques do governo de Michel Temer/ Henrique Meirelles —, cabe destacar elementos positivos e negativos que se manifestaram. Além do correto elogio, é preciso pensar suas fragilidades e limites, para encontrar conscientemente a melhor forma de superá-los.

O saldo geral do dia é positivo, como veremos. Todavia, podemos dizer também, sinteticamente, que o dia 28/04 foi marcado por um apoio passivo da maioria da população à paralisação. A maioria da população não acorreu a uma manifestação, por exemplo; preferiu ficar em casa, apoiar de longe. A grande maioria dos que foram aos atos são ainda os setores organizados, ou seja, a chamada “esquerda” e a estrutural sindical.

A maioria da população não apoiou ativamente porque há uma disjunção — uma separação — entre a vontade de luta da população e seus representantes políticos oficiais. De forma sintética: a maioria da população quer lutar, mas não confia nos grupos políticos e sindicais à frente das manifestações.

É de se esperar que a maioria da população não confie nos grupos políticos/sindicais à frente dos protestos. Afinal, boa parte da população é bastante sagaz; sabe que grupos como a CUT, MST e aliados, por exemplo, estão mais interessados em desgastar Temer para fazer propaganda de Lula, do que em lutar de verdade; sabe que grupos como a Força Sindical, por exemplo, estão mais interessados em salvar o imposto sindical, para viver parasitando a população trabalhadora, do que em combater a reforma trabalhista como um todo.

É compreensível, portanto, que a maioria da população veja as reformas como nefastas, mas ao mesmo tempo não queira se juntar aos oportunistas da CUT, Força Sindical etc. Trata-se de um problema de crise de direção do proletariado.

Muito simbólico desse problema foi o ocorrido nas principais fábricas do país. Na Grande São Paulo (incluído, evidentemente, o ABC), as centrais sindicais trabalharam junto com os donos das empresas para quebrar a vontade de luta dos operários. Nas principais fábricas (sobretudo metalúrgicas) da região econômica fundamental do país ocorreu um locaute (quando a burguesia fecha as suas fábricas para os trabalhadores não as fecharem). No ABC, a CUT acordou o locaute com a burguesia nas fábricas mais importantes (como comprova, por exemplo, o boletim informativo do RH da Mercedes-Benz de São Bernardo. Pode ser lido aqui). No resto da grande São Paulo, em fábricas de sindicatos da Força Sindical, ocorreu o mesmo. Em importantes fábricas em que estivemos desde a primeira hora em Osasco, Taboão da Serra, Guarulhos, e diferentes regiões da capital São Paulo, recebemos diretamente de operários a informação do acordo entre o sindicato e a empresa.

Isso explica porque tais centrais sindicais pediram mais de um mês para realizar uma nova paralisação (a anterior foi em 15/03): elas precisam de tempo hábil para fechar acordo com a empresa, e dão tempo hábil à empresa, para planejar sua produção sem ser profundamente afetada. Em todos esses locais, as horas não trabalhadas terão de ser repostas (via banco de horas). A burguesia não perderá sua extração de mais-valia (apesar, é claro, do impacto da paralisação sobre o comércio, ou seja, sobre a realização da mais-valia). Ao ter de repor essas horas, a classe trabalhadora pagará por aquilo que ainda é, em grande medida, um show das centrais sindicais, que têm mais interesse em politicagem do que em política.

Compreende-se porque a classe trabalhadora não confia nos organizadores dos atos — ela quer muito mais, quer uma luta de verdade, onde a burguesia paga o pato pelas contradições criadas pela sua própria sociedade. Os trabalhadores fabris foram diretamente desmotivados a ir às fábricas. Tudo foi construído para que ficassem em casa. Tratou-se de ação consciente: as principais categorias (sobretudo metalúrgicos), que são a vanguarda objetiva do conjunto da classe trabalhadora nacional, que são as que arrastam as demais, foram cirurgicamente cortadas da participação geral.

A burocracia sindical é bastante consciente do que faz: quanto menos ela deixa escapar uma luta na estrutura produtiva (uma luta dos setores organizados, uma luta dentro das fábricas), mais ela tem liberdade para fazer politicagem na superestrutura. Quanto mais ela pára os operários e manda-os para casa, mais ela pode ir às ruas, livremente, para falar grosso, defender seus interesses privados, a eleição de Lula, o imposto sindical, etc.

Ainda assim, apesar de todos esses problemas, é preciso reconhecer que o caso é complexo e exige uma análise ainda mais rica. Apesar de tudo, os dias de paralisação nacional como este dia 28 são muito importantes. São processos contraditórios, pois a burocracia sindical não quer se mexer, mas é obrigada a fazê-lo. Por trás dela está o descontentamento crescente da classe trabalhadora brasileira com a ordem burguesa nacional. As burocracias sindicais sabem que, caso não se mexam, serão atropeladas cedo ou tarde pela revolta de sua base. Portanto, o que move as burocracias hoje, em primeiro lugar, não é a vontade de salvar Lula ou o imposto sindical, mas o medo da morte, o medo da classe trabalhadora.

Além disso, o vazio na frente das fábricas era paradoxalmente algo cheio. Não havia operário; a situação parecia melancólica e desanimadora. Mas não havia operário porque a burguesia ficou morrendo de medo da força e da aglomeração operária e fechou as suas fábricas (com ajuda dos sindicatos). A burguesia mostrou assim sua impotência como classe — o fato de ser uma minoria inútil e parasitária, que não produz nada. A classe trabalhadora, por sua vez, mostrou sua potência como classe — mostrou que é a esmagadora maioria da sociedade e quem produz toda a riqueza. Tais elementos são fundamentais, pois demarcam o processo de luta que se abre como uma luta de classes. A verdade das relações sociais — a racionalidade da luta de classes — começa a se impor, desmontando e diluindo toda a confusão criada contra a classe trabalhadora por décadas (não só pela ideologia oficial da burguesia, mas também pelos seus auxiliares principais, a “esquerda”, sobretudo o PT).

Quais são as tarefas centrais agora para seguir a luta? A primeira tarefa é transformar o apoio passivo da população em apoio ativo, militante, presente. Os operários não foram às fábricas, e por conseguinte não foram às manifestações no período da tarde. É preciso trazer os operários à participação. Mas como? Essa é uma tarefa difícil, que passa ainda por um processo contraditório. Neste momento, nenhuma organização da esquerda revolucionária tem condições de fazê-lo diretamente; nenhuma delas organiza verdadeiros comitês de base nas empresas (comitês de fábrica), para organizar de verdade a revolta da base pela base.

O central, portanto, ainda é fazer a classe trabalhadora, como um todo, se mover, mesmo que nessa forma lenta, pesada, ampla e relativamente confusa, dirigida pelos grandes sindicatos. É preciso chamar mais paralisações nacionais. Essa movimentação lenta e burocrática criará cada vez mais contradições dentro da burocracia sindical, fazendo a classe trabalhadora se mover mais, e auxiliando o trabalho dos revolucionários no seio da classe trabalhadora. Além disso, a própria burguesia não conseguirá realizar muitos locautes, pois começará a ter desorganizações em seu processo produtivo e perdas. É preciso insistir.

É fundamental, para isso, a tática da frente única. É preciso saber fazer frente e unidade com as centrais sindicais, mesmo as mais burocráticas, contra os ataques do Estado burguês, para começar a colocar a classe trabalhadora em movimento. Mas é preciso compreender que a liberdade de crítica é condição sine qua non de uma frente única de verdade. Fazer acordos com a CUT ou a Força Sindical para movimentar a classe trabalhadora, sem denunciar os acordos que essas centrais estão fazendo com os patrões, não é fazer frente única. Isso foge ao conceito marxista e revolucionário de frente única, e é ajudar a trair a classe operária, na exata medida em que facilita às centrais pelegas a quebrar a revolta dos operários. Nenhuma central sindical fez críticas a tais posições da CUT e da Força, pelo menos não em São Paulo, reinando na maioria dos atos uma harmonia artificial, discursos vazios e ideológicos sobre “socialismo” (o que Trotsky chamaria de “socialismo em dias de festa”), como se tudo estivesse maravilhoso e perfeito, como se não houvesse contradições gigantescas se passando naquele dia, como se grande parte da burocracia sindical não estivesse atuando conscientemente para quebrar a classe trabalhadora. Não se pode enganar a classe trabalhadora, não se pode mentir para as bases. Não se constrói bases sólidas, nem militantes revolucionários, meramente num frisson eletrizado de agitação que encobre contradições da realidade.

A tarefa principal dos revolucionários hoje é aplicar a frente única (da forma correta, com liberdade de crítica), para colocar a classe em movimento. Mas os revolucionários também devem se preparar para o próximo passo. A luta geral se torna cada vez mais uma luta de classes — do operariado contra a burguesia —, e os revolucionários devem se preparar para esse tipo de luta. Ou seja: para além da movimentação lenta das centrais, é o momento dos revolucionários entrarem nas fábricas e iniciarem dentro delas um trabalho sigiloso, visando a construir comitês de fábrica, para que estes surjam no momento certo e ultrapassem a limitada e burocrática organização sindical. Os sindicatos são formas amplas, que abarcam muitas empresas, enormes regiões, e organizam poucos operários (cerca de 20% a 25%, mesmo os mais combativos). Em sua maioria, os sindicatos são hoje aparelhos de controle do Estado burguês sobre a classe trabalhadora. Na hora certa, eles precisam ser substituídos pela organização dos trabalhadores em cada fábrica — os comitês de fábrica —, preparadas anteriormente, capazes de organizar um setor muito mais amplo e revoltado do operariado contra a exploração capitalista. Tais são as necessidades que o dia 28/04 coloca na ordem do dia para os revolucionários.

Histórico
30.04.2017