De volta os arrastões no rio. Um “bom futuro”?

Os arrastões voltaram a ocorrer nas praias do Rio de Janeiro. As contradições de classe se aprofundam no Brasil. Jovens moradores de rua ou residentes da periferia da capital carioca se reúnem para roubar em sequência, se deslocando por diversas praias daquela que é, para uns poucos, a cidade maravilhosa. Nos feriados dos dias 15 e 20/11 eles agiram nas praias mais elitizadas da capital, localizadas na zona sul, desde o Arpoador até Ipanema. Há sete anos não havia registro de arrastões nas praias cariocas.

Geralmente os jovens furtam pequenos pertences, como colares, celulares e carteiras, podendo chegar, em alguns casos, a bens mais valiosos, desde bicicletas que alcançam preços de R$ 4.000,00 até motocicletas. Nos dois dias foram detidas 30 pessoas, a maioria menores de 18 anos, dentre os quais havia duas crianças de 10 anos.

A imprensa burguesa entrevistou alguns banhistas que descreveram assim a situação: “veio do Arpoador. Foi uma onda de gente correndo. As pessoas gritando que era arrastão. Vi um monte de gente correndo, criança gritando, foi um desespero”. Outro relatou: “eu estava indo em direção à água, procurando lugar para sentar e vi todo mundo levantando, correndo, tropeçando nas cadeiras”.

A mídia dominante não costuma ouvir o outro lado, rotulado por ela de meros vagabundos e marginais. Aproveitemos, então, para tirar esses meninos do anonimato, para transformá-los de meras cifras da criminalidade em pessoas de carne e osso, descrevendo sua possível história comum.

Para isso teremos que nos deslocar a uma época remota, há cerca de meio século, isto é, teremos que voltar às décadas de 1960-70. Nesse período a densidade populacional do país se inverteu. A maior parte dos 70% que vivia no campo migrou para as cidades, fazendo com que atualmente menos de 10% resida no meio rural. Esse processo ocorreu através da expulsão de milhões de trabalhadores rurais de suas regiões, nas quais não encontravam mais condições de trabalho. Ao chegarem nas cidades eram jogados na periferia. Na cidade do Rio de Janeiro, particularmente, a expulsão sistemática das famílias mais pobres do centro da cidade iniciou no século XIX, por meio de diversos planos de “melhoramentos e embelezamento” da cidade.

Se os trabalhadores rurais foram expulsos de suas regiões de origem, alguém se beneficiou com sua desgraça. Nesse último meio século aprofundou-se uma característica existente desde a colonização do país, a saber, uma das mais altas concentrações de terras do planeta. Esse aprofundamento das desigualdades no campo criou as condições para surgir no Brasil o maior produtor individual de soja do mundo, o gaúcho Eraí Maggi Scheffer, que fatura mais de R$ 1 bilhão por ano com seu agribusiness.

A burguesia brasileira que, por um lado, se orgulha de ser conterrânea do “rei da soja” mundial, por outro, se revolta com a violência dos meninos nas praias cariocas. Os mais obtusos não percebem e os mais espertos fingem não perceber que Maggi só existe em consequência da existência desses meninos.

De fato, esses jovens que roubam nas praias cariocas são, em sua maioria, descendentes daqueles que foram, mais cedo ou mais tarde, expropriados num processo denominado por Marx de acumulação originária do capital, um processo violento de separação dos trabalhadores dos meios de produção de suas vidas. A indústria não conseguiu e não consegue absorver essa multidão de trabalhadores expulsa do campo, parte da qual formou o que Marx chama de exército industrial de reserva, indispensável para reduzir os salários daqueles que estão trabalhando.

Esses ex-trabalhadores rurais, ao se transformarem em proletários urbanos passaram a servir a um duplo propósito: primeiro, abrir espaço para os “Maggi” e seus colegas agrários e, em segundo lugar, enriquecer os industriais urbanos com os baixos salários e as jornadas extenuantes.

Conhecendo a história desses meninos não há como se revoltar contra eles. Esses jovens são mais vítimas do que os banhistas apavorados. Diante dessa história, o sentimento possível é o asco, a repugnância e o desprezo absoluto por todos os ditos “reis”. O sentimento possível é a certeza que as grandes manifestações populares de junho representam apenas o primeiro sinal de que esses meninos, os “capitães da areia” de Jorge Amado, conquistarão, um dia, junto com toda sua classe, o nome do grupo presidido por Maggi.

Afinal, quando a classe operária se erguer e dar um caráter realmente revolucionário à onda levantada em junho, tomando de volta tudo o que lhe expropriaram, ter um “Bom Futuro” deixará de ser um privilégio dos capitalistas.

Histórico
28.11.2013