Transição Socialista
   

Dois erros da esquerda na atual conjuntura

1. A tese de que maioria dos brasileiros é a favor da Copa

Recentes estatísticas revelam que metade da população brasileira é contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. A pesquisa da CNT (Confederação Nacional do Transporte) deu 50,07% de contrários. Além disso, no total 75,8% são contra os gastos programados para o evento. Há boa margem para crescer o descontentamento.

Já a pesquisa Datafolha revela que 52% dos brasileiros são favoráveis. Mas em julho de 2013 a mesma agência registrava 65% de favoráveis — ou seja, a aprovação à Copa está sendo fritada em grande velocidade e em poucas semanas amargará uma derrota ao governo.

A Datafolha nos diz que os contrários ao evento são 42% da população. Mas quando observamos a pesquisa por regiões notamos que Sudeste e Sul — onde estão 107 milhões de brasileiros (mais de 50% da população) — registram o maior número de contrários à Copa. No Sudeste os favoráveis à Copa são 44% (o número de contrários não é, curiosamente, divulgado). A região Sul registra apenas 39% de favoráveis (e o número de contrários também não é divulgado…)

Sem dúvida, de acordo com o peso econômico, demográfico e político dessas regiões é possível afirmar que os setores mais destacados da classe trabalhadora — a sua vanguarda — contrariam a realização da Copa do Mundo, justamente porque a sentem como mais um ataque do capital (corrupção, modificações de leis trabalhistas, despejos, etc.)

A tese que toma como dado que a classe trabalhadora é favorável à Copa serviu apenas para justificar a não-defesa da luta direta contra a Copa por parte de certas organizações de esquerda. Tais grupos projetaram seu próprio caráter conciliador sobre a classe trabalhadora, visando justificar seu centrismo. A consciência da classe trabalhadora é mais maleável do que registram meras estatísticas e menos adaptada que a de boa parte da esquerda: quando percebe sua própria força, ela muda rapidamente, tomando disposição de luta.

Assim, nada — senão o centrismo — justifica a vacilação de parte da esquerda, que ou reluta em divulgar e engrossar as manifestações ou se nega a dizer em alto e bom som: “Não vai ter Copa!”. As diversas pautas rotineiras dos diversos partidos ou setores devem ser secundarizadas neste momento em que a classe trabalhadora expressa sua revolta contra o capital por meio da revolta contra a Copa.

2. A fraqueza estratégica (a ausência dela ou o erro quanto a ela)

A tese de que a Copa é apenas um símbolo do capital e que a atual revolta é uma revolta contra o capital aponta para a ampliação dos conflitos de classe. Pela velocidade dos ventos, é possível que o descontentamento contra a Copa atinja seu ápice no início ou durante o evento, e que um grande conflito se desencadeie. Dilma e o PT (com apoio dos demais partidos burgueses), como se sabe, preparam o uso do exército.

Diante dessa possível ofensiva do capital, é urgente uma estratégia de defesa da classe trabalhadora, sem a qual o risco da uma derrota no próximo período é bastante grande. Os atuais lutadores, entretanto, ou não vislumbram seriamente o problema, ou buscam uma estratégia errada.

Os adeptos da tática Black Bloc, que têm toda a legitimidade de responder com violência à violência cotidiana do Estado e têm, por isso, o mérito de impulsionar hoje os conflitos de classe carecem de uma estratégia — são apenas uma tática. Não percebem que o conflito que podem ajudar a desencadear necessitará de uma força material e organizada da classe trabalhadora muito superior à atual (ou, se o percebem, simplesmente não sabem como organizar tal força). Que poderão fazer caso o exército estiver nas ruas? Ações de guerrilha certamente serão desastrosas. Não se trata de recriminar os jovens lutadores radicalizados, mas de apontar para uma limitação que já começa a surgir e que em pouco tempo será grave.

Já a esquerda tradicional — sobretudo setores majoritários do PSOL — alimenta ilusões numa estratégia de defesa por dentro do Estado. Essa estratégia é falsa, pois a repressão virá do próprio Estado. A única estratégia de defesa da classe trabalhadora pode ser por fora do Estado, pela criação de organismos paralelos, independentes, para a organização e a defesa da classe trabalhadora.

Não é por meio de parlamentares que se garantirá a segurança da classe trabalhadora caso os conflitos se ampliem. A via eleitoral deve ser secundarizada e deve-se buscar a formação de organismos de base da classe trabalhadora nos locais de trabalho e moradia. Neles, criar comitês que convoquem os trabalhadores para a luta contra a Copa, que discutam e organizem para, se preciso, dispor de formas de defesa da classe trabalhadora contra a ofensiva do capital.

Sem a criação dessas formas de poder dual, paralelo — o Poder Popular — não há chance de resistência aos ataques do capital; não é possível levar até o fim a legítima revolta social da classe trabalhadora contra o capital.