Fim de jogo

“Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
(…)
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa,
Pois que senão o coração perdoa”.
Fado Tropical

Nem mesmo se iniciou o novo mandato da presidente Dilma, aliás, mal completaram-se dez dias do fim do 2o turno, e o desenrolar dos acontecimentos produz um sentimento de incômodo mesmo no mais aguerrido dos militantes petista. Como aquele clima de festa, de disputa, de luta de classes, diria ele, pode ser suplantado pela frieza dos números, elevações de tarifas e pelo velho troca-troca de Brasília?

Pois parece que a música está com a razão: cuide que a ação se faça mais que depressa, antes que o coração perdoe. Assim, três dias após a eleição, o Banco Central elevou a taxa de juros em 0.25%, medida que surpreendeu os analistas e foi vista como um aceno de agrado ao mercado. Mais do que isso, é a maior taxa desde novembro de 2011, quando a chamada selic bateu a casa dos 11,5%. A medida vem logo após meses de campanha em que João Santana, o marqueteiro do PT, construiu a imagem de Aécio como aquele que “sempre plantou dificuldades para colher juros” e Marina como aquela que quer tirar o sustento da mesa das famílias mais carentes para pôr na roda dos banqueiros, tal qual o brilhante esquete da TV. Mas e agora, Dilma, como explicar esse aumento?

Não se explica. O silêncio é melhor. Melhor ainda é atender ao clamor do coração e se ocupar de outros assuntos, vindo à público “deflagrar” a reforma política “por meio de um plebiscito” e assumir um “compromisso rigoroso com o combate à corrupção e com a proposição de mudanças na legislação atual para acabar com a impunidade”. Palavras de efeito que podem encantar a família que senta à mesa na hora de jantar, mas que tão logo ecoam nos corredores do Congresso são prontamente repreendidas pela base aliada do PT. Repete-se assim a mesma situação de quando a presidente pretendia atender “o clamor das ruas”, em junho de 2013: suas palavras foram jogadas ao vento e as ações enterradas por Renan e toda quadrilha, que não concordavam com propostas “bolivarianas” vindas do PT.

Nove dias depois, onze após a vitória, o governo Dilma ocupou-se de nova medida para agradar o mercado e, mais uma vez, contradizendo suas palavras de campanha:  aumento do combustível. Ora, os preços, então, estavam represados, candidata? — diria o adversário no debate.

Tal aumento, anunciado por Guido Mantega, não veio sozinho. O ministro da Fazenda confirmou que, até a metade deste mês, um pacote fiscal mais severo deve sair do forno, pois cortes são necessários para “equilibrar as contas e cumprir a meta do superavit primário”. Quais os alvos de Mantega? Na lista estão os gastos com subsídios, citando especificamente os concedidos nos empréstimos feitos pelo BNDES por meio de taxas menores do que as de mercado. “Vamos diminuir os subsídios financeiros, isso é uma redução de despesa”. Mantega disse também que o governo deve cortar despesas com seguro-desemprego, abono salarial, auxílio-doença e pensão por morte.

Antes que as intenções se tornem atos, o mesmo incômodo toma de assalto o militante petista que ainda guarda no peito o adesivo de campanha. Então, para atingir a meta do superávit (leia-se a reserva do PIB paga aos bancos e credores), o ministro propõe cortar seguro-desemprego e outros direitos dos trabalhadores? Não estaríamos num governo tucano ou pondo em prática a “nova política” de Marina?

Não, são apenas os “ajustes necessários” na economia, diria a presidente. Se quem paga a conta são os trabalhadores e o crescimento econômico, e quem diretamente se beneficia é o “tal mercado” — que não ganha eleição, como bem lembrou o ex-presidente Lula —  é porque “há distância entre intenção e gesto” deixando que a mão cega execute antes que o coração perdoe mesmo apenas dez, quinze dias após o fim do jogo eleitoral. Que venham “mais mudanças”!

Histórico
09.11.2014