Fora Cunha!

Acuado pela acusação de que recebeu US$ 5 milhões em propina do esquema de corrupção da Petrobras, o presidente da Câmara dos Deputados, terceiro nome na linha de sucessão presidencial, Eduardo Cinha (PMDB-RJ) anunciou na sexta-feira passada sua ruptura com o governo Dilma, sinalizando que um novo período de turbulência vem pela frente na já profunda crise da política nacional.

A acusação que pesa sobre Cunha é grave e, independente de sua condenação, é insustentável a sua permanência à frente da Câmara, pois agora ele usará o cargo para criar todo tipo de dificuldades contra as investigações, tal qual Renan fez em 2007 e repete agora em 2015 à frente do Senado. Cunha acusa o governo de dirigir as investigações contra ele, mas nada diz sobre os US$ 5 milhões, revelando sua estratégia de defesa: atacar Dilma e apostar suas fichas na impopularidade da presidente, que hoje beira os 90% de reprovação.

Neste momento de perplexidade nacional, é preciso se perguntar: quem é Eduardo Cunha? Suas credenciais não poderiam ser piores. Debutou na política em 1989 e, por meio de PC Farias, foi alçado à presidência da Telerj. Tratava-se de uma recompensa pelos serviços prestados ao então recém-eleito Fernando Collor – durante sua campanha foi Cunha quem descobriu, ao achar uma brecha na lei eleitoral, como barrar a candidatura de Silvio Santos, beneficiando o jovem político alagoano. Na época Cunha era do PPB, atual PP, sigla herdeira da Arena, o partido de sustentação da Ditadura Militar.

Após o impeachment de Collor, Cunha aliou-se a Anthony Garotinho, assumindo, em seu governo do estado do Rio de Janeiro, a Cehab (Companhia Estadual de Habitação). À época, Leonel Brizola chamou Cunha de “pior parte do governo”, pedindo seu afastamento pois eram “tantas denúncias e reclamações” contra Cunha “devido à má-gestão e também aos seus antecedentes” (31/03/2000). Garotinho, que então preparava sua migração para o PMDB, ignorou Brizola e manteve Cunha.

Assim como Garotinho, Cunha voou para o PMDB. Em 2006 Cunha distanciou-se de seu padrinho político, colocando-se contra a candidatura própria do partido à presidência da República. Na época, Garotinho era o maior defensor dessa linha, contra Temer, que já vislumbrava estreitar laços com o PT (seria eleito presidente da Câmara). Assim, Cunha traía Garotinho e apoiava Temer em favor do PT! Nessa época, já se falava na “bancada do Eduardo Cunha”, em alusão ao seu grupo de influência – cerca de 50 deputados de Rio, Minas, Goiás e Distrito Federal, além do controle do PSC e PTC (Folha de SP, 31/10/2009).

Nas eleições de 2006 a 2014, Cunha apoiou o PT. Em 2010, quando Temer finalmente obteve o posto de vice na chapa com o PT, Cunha manteve-se fiel e chegou a repreender uma ala do PMDB que ameaçava apoiar o então candidato do PSDB, José Serra, por meio dos palanques regionais. Com ascensão de Temer a vice, Cunha viu campo aberto para ele mesmo tentar a presidência da Câmara, conseguindo o feito em 2015. Durante sua campanha, Cunha não se dizia nem de situação nem de oposição; pregava a “independência da casa” frente ao governo. O resto, todos já conhecem.

Este é Eduardo Cunha. De sua história, algumas lições podem ser tiradas e que se relacionam diretamente com a crise atual. Cunha é o representante por excelência dos políticos que ascenderam após a retirada dos militares no início da década de 1980. Sua figura caricata e pouco consistente é o que basta para o papel que desempenha: cresceu na esteira do caçador de marajás, migrou para o populismo carioca, substituindo-o pela forte ligação com os evangélicos, de um lado, e por outras tantas ligações escusas, por outro.

Mas o que é importante, é que esse tipo de animal político cuja espécie se multiplica no Congresso Nacional ganhou força nos anos 2000, pelas mãos de Lula e do PT, pois nunca é demais lembrar que quem reciclou Collor, Renan e seus subprodutos (como Cunha) foi Lula em sua santa aliança pela governabilidade, instaurando o capítulo final de um certo modo de dominação burguesa no país. O que se vê agora, com essa acusação sobre os 5 milhões é que Cunha era um operador direto nessa roda-gigante construída pelo PT e os partidos da base aliada em torno à Petrobras. Se agora Cunha e o PT se estranham é somente porque para ambos o que resta é a tentativa de salvar a própria pele.

Nesse processo, a crise se desenvolve numa espiral ascendente. O lamaçal é tão grande e sufocante que mesmo a oposição burguesa (PSDB, sobretudo) segue paralisada sem saber o que fazer. Aos trabalhadores e jovens do Brasil cabe dizer não a toda essa roubalheira, não a Cunha, ao PT e às pseudo-alternativas da burguesia contra a crise, recusando, assim, os velhos fantasmas que insistem em nos assombrar.

Histórico
21.07.2015