Lições da greve

Está chegando ao fim a maior e mais longa greve de que temos notícia na universidade. Devido ao risco de ela ir a julgamento, pensamos que devemos aprovar hoje o acordo de fim de greve. É verdade que ainda há elementos não favoráveis, contra os quais teremos de lutar (reposição de horas, campanha contra o PDV, contra desvinculação dos hospitais, etc), mas se a greve for a julgamento seus resultados podem se voltar facilmente contra nós e piorar a situação. É hora, portanto, de dar trégua.

Neste texto queremos iniciar um balanço da greve, que, dada a sua proporção e importância, terá muitas consequências sobre as lutas futuras. Assim, escrevemos para que a categoria possa amadurecer e se fortalecer, preparando o futuro.

1. Trabalhador unido jamais será vencido!

Esta greve foi muito importante devido à unidade da categoria pela base. Nosso sindicato destaca-se entre os demais pela sua tradição democrática. Em geral, nos demais sindicatos, nunca é criado um Comando de Greve realmente democrático, aberto, pela base, que dê espaço para novos lutadores. O nosso, pelo contrário, não teme nada nem se esconde; se abre para que toda uma nova geração se forme para a luta. Essa é uma lição histórica para a classe trabalhadora brasileira e deve ser divulgada nos demais sindicatos.

O trabalhador, unido pela base, é uma força capaz de resistir a todos os ataques e enfrentar todas as dificuldades. Resistimos contra a intransigência do reitor e do governo; contra a repressão da PM; contra as pressões da justiça. Vimos nosso colega Hideki ser preso e tomamos as ruas pela sua libertação. Aguentamos todas as intempéries graças à unidade pela base.

O caráter democrático, a amplitude e renovação do nosso movimento permitiram que dobrássemos até a justiça. Zago tentou tornar a greve ilegal e o tiro saiu pela culatra. A Justiça teve de reconhecer a obrigação dos patrões em negociar, pagar os salários dos grevistas e repor o mínimo da inflação. Viva a unidade pela base!

2. Por que a greve derrotou o C.O.?

A burocracia universitária, cujos interesses são defendidos e administrados pelo Reitor, sai desta batalha derrotada. A maior expressão desta derrota foi a aprovação do abono de 28,6% na última reunião do C.O., contra a vontade do reitor. Por que isso aconteceu? Justamente porque exercemos nosso poder na universidade, nosso controle sobre a universidade. Passamos a controlar os portões das unidades e os portões principais; a alterar todo o funcionamento, ou seja, a colocar concretamente a questão: “quem manda aqui dentro?”

Nossa greve deixou claro que a universidade depende muito mais de nós que dos burocratas; que nós somos a vida que a mantém, e que os burocratas, em geral, são parasitas. A verdade é que trabalhadores, estudantes e professores não-burocratas podem dirigir a universidade, sem precisar do corpo de burocratas. Só assim, pela força e pela luta, a universidade pode se abrir a toda a comunidade (e produzir conhecimento contra o mercado).

Os burocratas resolveram recuar, temerosos de que essas questões ficassem ainda mais claras; temerosos de que sua inutilidade viesse à tona; não suportaram nossos piquetes, atos e trancaços, que abriram um novo horizonte para a universidade.
3. Como combater o PDV?

A burocracia nos golpeou duramente com o PDV, é preciso admitir. Como impedir que isso ocorra novamente? A burocracia acha que não são mais necessários tantos trabalhadores na USP; que o número de funcionários pode diminuir, etc. Ela defende isso porque o tempo geral de trabalho necessário para manter a universidade diminuiu nos últimos anos (graças às novas tecnologias, informatização, etc).

Mas se o tempo de trabalho geral para manter a universidade diminuiu, significa que temos de colocar trabalhador na rua e manter os atuais trabalhando tanto ou mais? Claro que não! Se é necessário menos tempo para manter a universidade, que todos os trabalhadores trabalhem menos horas (com o mesmo salário), sem ninguém ir para a rua!

A única e verdadeira forma de não sofrer com o PDV, não fazer o peso das demissões cair nas costas de quem continua trabalhando, é não aceitar nenhuma demissão e diminuir a jornada de trabalho atual. A jornada deve diminuir de acordo com a necessidade de trabalho. Essa é a escala móvel das horas de trabalho: a escala de trabalho diminui (de forma móvel) à medida que diminui a necessidade de trabalho para manter a universidade. Essa é também a única forma efetiva de combater as atuais terceirizações.

Mas se, sem conseguir a escala móvel de horas de trabalho, parte da categoria quiser o PDV (como ocorreu este ano), devemos no mínimo exigir que haja reposição de cada trabalhador que aceite o PDV, uma espécie de gatilho, de reposição automática dos postos de trabalho. Assim, quem aceita o PDV não está prejudicando o companheiro de trabalho que continua trabalhando. É fundamental começar uma forte campanha sobre isso na base.

4. Tivemos arrocho. Como impedir isso de verdade?

Derrubamos o 0%, mas com o reajuste que conquistamos ainda haverá arrocho. É preciso admitir isso. Além do arrocho que fomos obrigados a aceitar, nosso poder de compra continuará sendo corroído pela inflação todo mês e chegaremos à próxima data-base correndo atrás do prejuízo.

Para piorar, é possível que na próxima data-base estejamos sob ressaca desta forte greve, e não consigamos nos articular com todas as forças. Há, portanto, o risco real de não conseguirmos mobilizar tão fortemente a categoria na campanha salarial de 2015 e o arrocho aumentar.

Isso tudo mostra que a forma com que estamos lutando contra a inflação tem fragilidades e pode ser usada contra nós. Desta forma ficamos reféns de luta em todos os anos e os reitores podem se valer de vários artifícios para fazer passar o arrocho, como ocorreu neste ano, apesar da força da greve.

A única forma efetiva de estancar a sangria nos nossos salários é o reajuste salarial mensal dos salários de acordo com a inflação (escala móvel de salários). Podemos pressionar a reitoria para aprovar isso em nosso contrato coletivo de trabalho. Assim, todos os meses, nosso salário será automaticamente reajustado de acordo com a inflação daquele mês (inflação dos produtos básicos que consumimos, claro).

Em vez de lutarmos numa forma em que sempre saímos defasados, devemos lutar numa forma que estanque de vez a sangria, que corte o mal pela raiz. Assim garantiremos que nosso nível de vida não diminua. Não estamos pedindo nada de exagerado; não estamos pedindo grandes aumentos; só pedimos que nossas condições de vida se mantenham. Isso é justo e é o mínimo!

5. Como fazer a unidade da classe trabalhadora?

A escala móvel de salários e a escala móvel das horas de trabalho são duas reivindicações universais, que podem ser comuns a toda a classe trabalhadora brasileira. Em vez de cada categoria ficar lutando em época diferente, cada uma por seu reajuste particular, sua PLR ou PDV, com as escalas móveis todas as categorias poderiam lutar juntas, ao mesmo tempo, pelas mesmas coisas. Essas reivindicações, juntas, acabam de vez com o mal da inflação e das demissões, ou seja, dão estabilidade à classe. São, portanto, a única forma de concretizar a unidade da classe. Sem elas, falar de unidade da classe é abstração.

Só a união dos trabalhadores em torno do que é comum pode trazer à tona a força social da classe trabalhadora e enfrentar a crise atual do Brasil (da qual a crise da USP é só um exemplo). Só as escalas móveis combinadas podem garantir que não fiquemos numa greve isoladamente, como a que travamos neste ano.

A divisão da nossa classe só interessa aos patrões e aos sindicatos pelegos. Nosso sindicato pode dar mais um exemplo de combatividade neste quesito, e mostrar a toda a classe trabalhadora brasileira a fórmula concreta para unir o conjunto da classe e enfrentar a crise.

NÃO TEM ARREGO!
REPOSIÇÃO DE HORAS NÃO!
DESVINCULAÇÃO DO HRAC NÃO!
PELA ESCALA MÓVEL DAS HORAS DE TRABALHO!
PELA ESCALA MÓVEL DE SALÁRIOS!
VIVA A LUTA DOS TRABALHADORES!

 

Histórico
23.09.2014