Lula na prisão!

Dia quatro de março de 2016: o dia em que o intocável Luiz Inácio Lula da Silva foi conduzido coercitivamente à sede da Polícia Federal. Entrará esse dia para a história? Ao que tudo indica, não, pois algo de maior envergadura está por vir. Veja-se: um dia antes de Lula ser conduzido à PF caiu uma “bomba” em Brasília, a delação vazada do Senador e ex-líder do PT no Senado, Delcídio do Amaral. E esse fato já foi ofuscado. Uma semana antes, outra “bomba”: a prisão do marketeiro João Santana. E esse fato foi ofuscado pelo do Delcídio. O ritmo dos acontecimentos é frenético e indica que algo maior virá à tona em breve.

Segundo os representantes da PF e do MPF, em coletiva nesta sexta-feira, “há provas concretas” de que o núcleo duro do PT constituiu uma organização criminosa que assaltou as riquezas da Petrobras por anos a fio, em conluio com gigantescas empresas, visando ao fortalecimento e enriquecimento do cartel empresarial de construção civil; à criação de uma máquina partidária capaz de garantir a manutenção do PT e aliados no poder; e ao enriquecimento pessoal ilícito de diversos políticos.

A condução coercitiva de Lula não deixará de abrir grandes contradições; ações e reações; uma polarização diante da qual será impossível contemporizar e ficar em cima do muro. Aproxima-se a hora da verdade. A força tarefa da PF e do MPF caminhará agora necessariamente para o embate decisivo (que, todavia, pode durar médio prazo). O conflito pode ter sido antecipado pela tentativa de troca do Ministro da Justiça (ao novo caberá controlar mais a PF), mas o fato é que chegou a hora da verdade: alétheia. Qual das duas alas burguesas em conflito vencerá?

Alétheia: que verdade deve vir à tona?

O uso do termo grego — alétheia — produziu um interessante e revelador efeito. Alétheia — palavra paroxítona — é um termo grego antigo que significa “verdade”; propriamente a forma como A Verdade, num todo, sai do seu ocultamento, aparece e vigora. Portanto, alétheia pode sim ser traduzida como “em busca da verdade”.

Hélio Schwartsman, colunista da Folha de SP, demonstrando que nunca é tarde para esbanjar ignorância, fez um desfavor a respeito da tradução desse termo grego. Em sua coluna atacou a tradução de alétheia como “em busca da verdade”; defendeu que o vocábulo grego significa “verdade” em nosso sentido trivial, corrente, oposto a “falsidade”. Além disso, Schwartsman atribuiu a tradução de “em busca da verdade” unicamente ao filósofo alemão Martin Heidegger e criticou a tradução do termo por este (como se sabe, Heidegger traduz alétheia literalmente, ou seja, enquanto “não-esquecimento”, a-léthe, donde também “des-velamento”, “des-ocultamento”).

Ora, a referência a Heidegger por Schwartsman é absolutamente forçada. A tradução de alétheia por “não-esquecimento” não é única e exclusiva de Heidegger: ele a comunga com célebres helenistas contemporâneos a si, de distintas correntes de pensamento, como evidenciam os dicionários de Pierre Chantraine, Lidell & Scott e Bailly.

A confusão produzida por Schwartsman tem dois propósitos claros. Primeiro, político e pragmático: realizar uma defesa envergonhada do PT. Schwartsman termina seu artigo associando Heidegger ao nazismo e a própria ação da PF a um tipo de autoritarismo (e sabe-se que as relações de Heidegger com o nazismo são muito mais complexas do que pode-se afirmar em um parágrafo um jornalista). Segundo, um objetivo de classe, ideológico-burguês: Schwartsman torna alétheia uma verdade pontual, corrente e factual. Teria medo Schwartsman de que outras verdades pudessem vir à tona associadas a esta? Não seria esse um medo da própria burguesia hoje?

Os gregos do período arcaico e início do período clássico antes de nossa era vivenciaram alétheia como não-esquecimento. “Verdade”, para eles, nada tinha a ver com nossa noção corrente, abstrata e jurídica, vazia, de “verdade”. “Verdade” era o retomar e o relembrar da origem de um povo; o não deixar apagar-se ou esquecer-se daquilo que lhe demarcava.

Nesse sentido, para além da superficialidade da PF e da má-fé de alguns jornalistas, é possível que a alétheia que agora desponta revele algo mais. Há graus de verdade. Para além da mera verdade pontual, a alétheia que surge pode nos iluminar a condição atual da classe trabalhadora brasileira e sua origem.

Não se trata de lembrar (ou revelar) apenas que Lula é corrupto. Trata-se de lembrar também que Lula cresceu e desenvolveu-se no seio do sindicalismo pelego da década de 1970; que Lula e seus braços sindicais foram chave para a transição “a frio” (sem grandes conflitos de classe) da Ditadura Militar para o Estado Democrático-burguês, e que para esse serviço, inclusive, a Ditadura (antes de tudo o seu cérebro, general Golbery) lhes deu exposição. Além disso, trata-se de lembrar que o partido de Lula, o PT, bloqueou e impediu (e em grande medida ainda impede) a construção de uma organização revolucionária proletária de combate no Brasil. Trata-se de lembrar que o PT ajudou a manter a ordem burguesa, mesmo em décadas de impressionante queda da massa salarial e de empobrecimento geral da classe trabalhadora brasileira. A atual condição de miséria e exploração da classe trabalhadora ocorre em grande medida graças a Lula e ao PT. É tudo isso que tem de ser lembrado e resolvido hoje.

Há, portanto, um enorme grito de revolta represado há décadas na garganta da classe trabalhadora brasileira. Esse grito precisa se expressar de verdade e tomar as ruas e os locais de trabalho, com os métodos de luta da classe trabalhadora. A começar pela exigência de prisão imediata de Lula. A entrada em cena da classe trabalhadora no próximo período histórico é o único acontecimento capaz de revelar toda a verdade e desvelar de vez o falso projeto de Lula e do PT. Vacilará a esquerda novamente, como no início de 2015, diante do governo Dilma?

Se sim, o risco de caminharmos para uma forma de governo autoritário nos próximos anos, sob o controle de Lula – uma forma de bonapartismo – é real. A mobilização atual de setores vinculados ao PT, materialmente dependentes do Estado burguês, em defesa de Lula, já indica isso. A questão agora é barrar ao máximo possível esse caminho para uma forma mais aguda de autoritarismo burguês.

Que Lula seja preso!

Que venha a alétheia da classe trabalhadora!

Que se manifeste em luta toda a verdade da classe operária!

Histórico
05.03.2016