Novo partido Solidariedade: ‘inimigo’ de Dilma?

Parece que muitos anos nos separam da realidade de apenas seis meses atrás: em março, Dilma tinha índices recordes de aprovação e sua reeleição era vista como um dado – no primeiro turno, diria qualquer analista político.

Em março, o Ibope dizia que o governo Dilma era avaliado como ótimo ou bom por 63% dos eleitores. Seus dois primeiros anos de governo tinham a maior aprovação registrada desde a volta das diretas. Após o enfraquecimento do PSDB e a dizimação do DEM nas eleições de 2012, com o crescimento do PT, do aliado PSB e do PSD de Kassab e com a eleição de Haddad em São Paulo, a consolidação do PT como principal partido político da burguesia no Brasil parecia inabalável.

Mas ainda em março os preços dos alimentos dispararam. Em seguida, apareceram os resultados do PIB de 2012 e de 2013, bem abaixo das expectativas do governo e do mercado. O PSB de Eduardo Campos se afastou cada vez mais do governo, e a candidatura de Campos hoje é vista como certa.

Explodiram as manifestações de junho e em apenas três semanas a aprovação de Dilma caiu de 57% para 30%. Em meados de julho, ainda no calor do levante, Marina Silva, cujo Rede tenta a aprovação do TSE, chegou a encostar em Dilma nas intenções de voto – segundo o Ibope, a diferença foi de 58% a 12% em março para 30% a 22%.

Nova pesquisa realizada pelo Ibope em setembro mostra que com a conjuntura mais fria Dilma teria recuperado parte da vantagem sobre Marina – 38% a 16% – mas, ainda assim, o caminho fácil que se via em março parece ter ficado para trás.

Novo ‘inimigo’ de Dilma, o Solidariedade de Paulinho

Essa semana, Dilma acaba de ganhar um novo ‘inimigo’, para usar a palavra do fundador do partido Solidariedade, o Paulinho da Força.

Citando promessas feitas por Dilma para as centrais sindicais em 2010, como a jornada semanal de 40 horas, e o fim do fator previdenciário, Paulinho diz que a presidente não fez nada pelos trabalhadores, que ele a considera sua ‘inimiga’, e que em 2014 ele estará com a oposição. Como lembra o presidente da Força Sindical, Dilma teve o apoio de todas as centrais sindicais em 2010, algo que Lula nunca conseguiu.

Com a ruptura de Paulinho com o PDT para criar o novo partido, do qual deve assumir em breve a presidência, a Força Sindical dificilmente estará com Dilma em 2014. Paulinho diz ainda que a criação do Solidariedade teve apoio significativo de ‘movimentos sociais’, e sobretudo do MST, o que pode representar mais perdas de apoio para Dilma.

Até o prazo de filiação para as eleições de 2014, o Solidariedade deve ter mais de 30 deputados e ao menos um senador e um governador, o que significará em torno de dois minutos de televisão no horário eleitoral. Paulinho acusa o Planalto de tentar bloquear a criação do partido e não à toa, trata-se de um revés significativo para o PT em 2014.

Mas qual a profundidade dessa ‘inimizade’ de Paulinho e do Solidariedade? Se o partido tem uma base inquestionável no sindicalismo, isso significa realmente uma defesa dos interesses da classe trabalhadora, como aparece no seu discurso? Solidariedade e PT são de fato inimigos de classe?

Parece no mínimo improvável, já que Paulinho indica que vai se opor a Dilma para apoiar o tucano Aécio Neves, e já está aproximando para a organização deputados de todo o ‘baixo clero’ de partidos como PMDB, PSD, PR, PP, PEN, PHS…

Se assim já se coloca claramente ao lado da burguesia e dos partidos políticos corruptos tradicionais, poderia o Solidariedade com sua base na Força Sindical e presidente ex-metalúrgico ao menos ser comparado ao PT? Poderia se transformar numa grande ilusão para as massas, e numa forte ferramenta para a classe dominante?

Ora, evidentemente, ao contrário do PT e da CUT em 1978–1980, o Solidariedade não nasce a partir de uma luta da própria classe trabalhadora, mas já nasce de uma luta interna à casta burocrática sindical e política.

Como fica claro na fala de Paulinho para a Folha de São Paulo, trata-se de uma ruptura com o PDT apenas para ter controle sobre o dinheiro do fundo partidário: ‘Normalmente os partidos põem 40% do fundo para os Estados. Eu estou há dez anos na presidência [estadual] do partido e nunca recebi R$ 1. Tinha que fazer vaquinha todo mês. Sei que é muito difícil tocar o partido sem ter dinheiro’.

O fato é que após o PSD de Kassab, a criação de novos partidos virou um grande negócio. Como a distribuição do fundo partidário é definida pelo número de deputados federais dos partidos, cada deputado passou a valer certa fração do fundo, e a negociação para entrada nas novas legendas acontece abertamente: o deputado que entra no partido fica com uma parte do dinheiro. Como afirmou à Folha o deputado Ademir Camilo, que acaba de aderir ao também recém criado Pros: ‘Estou levando 72 mil votos, então receberia 60% desses 72 mil votos. Você sabe que é R$ 3,75 o valor por voto’. Ou seja, seu ‘passe’ foi negociado por R$ 162 mil.

Ou, como resume Carlos Lupi, presidente do PDT, criticando a saída de Paulinho: ‘Você pega um partido para quê? Qual é a identidade? O que eles vão defender? Qual é a proposta? Qual é o programa? Não tem! É um ajuntamento de possíveis deputados filiados para ter tempo de televisão e negociar.’

Ou seja, o Solidariedade não nasce para se contrapor a Dilma, mas para ‘negociar’, apoiar quem estiver disposto a pagar. Não muito diferente do que faz o PDT, que ocupa o Ministério do Trabalho e por isso promete continuar apoiando Dilma.

Se o Solidariedade de Paulinho aparece como mera paródia do PT e como variante do oportunista PSD de Kassab, pelo próprio nome, ele aparece ainda como uma paródia evidente do Solidariedade polonês, federação sindical criada em 1980 a partir das greves contra a burocracia stalinista.

Mas assim como o PT e o PSD, essa ‘inspiração’ internacional de Paulinho não escapa do mesmo caráter de classe do governo Dilma. Com forte influência católica e apoio financeiro do Vaticano e da CIA, o Solidariedade polonês desempenhou papel chave na transição capitalista, conduzindo as privatizações e a abertura da economia ao mercado.

Como se vê, o Solidariedade de Paulinho não expressa nenhuma alternativa para a classe trabalhadora, nem expressa sequer uma oposição burguesa consistente ao PT. Sua criação, como a criação recente de outros partidos como Pros, PSD e Rede, não passa de uma fragmentação que expressa a crise de todos os partidos burgueses, carentes de qualquer projeto histórico e reduzidos à luta oportunista pela apropriação privada dos recursos do Estado.

Em resumo, independente do papel que ele possa desempenhar na eleição de 2014, trata-se de mais um partido que apenas aumentará o ódio da juventude e dos trabalhadores contra ‘os partidos’ em geral.

 

Histórico
04.10.2013