Nunca antes na história deste país…

Um senador foi preso no exercício de sua função. O petista Delcídio do Amaral é símbolo dos tempos agudos e extraordinários que atravessamos. No áudio que o derrubou ninguém escapou: toda a fina flor da lamacenta política nacional apareceu associada a um projeto de uso privado do Estado.

Na ocasião, Delcídio traficava influência no STF em busca de um Habeas Corpus para Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras preso na Op. Lava-Jato. Para isso intentava acionar nada mais nada menos que o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o vice-presidente da República, Michel Temer. Curiosamente, Delcídio não acionava seus companheiros de partido, do PT, mas caciques do PMDB. Tal como Lula, Delcídio não tratava tais políticos como membros de outro partido, mas, chamando-os pelo primeiro nome, como companheiros de uma mesma empreitada suja.

O STF, sem alternativa, teve de mostrar serviço: prendeu Delcídio e o banqueiro André Esteves. Mesmo assim, ficou maculado. Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Teori Zavascki e Luiz Fachin são os ministros que apareceram como influenciáveis (e há, sabemos, outros que se notabilizam dia a dia no STF por favorecer o consórcio político majoritário).

Ou seja: a história toda de Delcídio revela que na cúpula dos três poderes verticais (executivo, legislativo e judiciário) se localiza outro poder, que cruza os anteriores horizontalmente. É a cúpula da cúpula, que realmente dirige o país, e que funciona como associação política permanente voltada ao favorecimento de grandes empresas capitalistas.

Claro, nada é tão homogêneo assim; há contradições. Se não houvesse não estariam presos Delcídio do Amaral e o 13o homem mais rico do Brasil, André Esteves. A questão é: que contradições são essas e porque se manifestam?

Tais contradições poderosas são disputas entre setores burgueses. Tais disputas cresceram porque a economia capitalista mundial está em profunda crise há cerca de sete anos, e há quase três anos ela se manifesta no Brasil de forma aguda (bem como em outros países que, assim como o Brasil, serviram anteriormente de fôlego ao capital no início desta crise mundial).

A alta cúpula do PT, Lula e sua entourage mafiosa pmdbista não são representantes de um setor “progressista” da burguesia nacional; são um setor político totalmente vendido ao grande capital internacional, um setor que funciona apenas como intermediário do grande capital para facilitar a pilhagem das riquezas naturais e exploração de mão de obra brasileiras.

Lula, é sabido agora, era caixeiro-viajante da Odebrecht, da JBS, da Ambev, da Petrobras e de outras tantas empresas “brasileiras” (públicas ou privadas) de capital aberto negociado em Nova York. A Lava-Jato não é — apesar da retórica petista — produto dos ianques tentando derrubar um “governo progressista”, mas uma chantagem de setores minoritários do capital em situação de profunda crise burguesa. Tais setores estavam até então alijados da festança burguesa, mas agora aproveitam a paralisia para lutar por sua fatia.

Talvez nunca antes na história deste país viu-se uma crise da dimensão da atual. Isso porque ela combina uma crise econômica mundial como a de 1929 (e que ainda não chegou a seu ponto mais alto) com a falência do conjunto do sistema político-partidário brasileiro. Claro, essa crise ainda tem muitos passos a dar.

Essa situação grave abre enormes possibilidades para se estourar este círculo vicioso de exploração, miséria e corrupção burguesas. É justamente em situações assim que a classe trabalhadora exerce seu faro e seu instinto de oportunidade. Diante da percepção de que o país caminha sem rumo, a classe trabalhadora conclui que precisa exercer sua própria política, cujo primeiro passo é a luta pela manutenção das suas atuais condições de vida.

Certa convulsão na superestrutura capitalista — uma onda não conservadora — já dá indícios dessa nova política proletária, bem como de sua dimensão. Junho de 2013 registrou passeatas como nunca antes na história deste país. O mal-estar pós estelionato eleitoral em 2014 é — ainda que deformada — a consciência de que representantes que não executam o que falam devem ser revogados. O ano de 2015 agora termina — como nunca antes na história deste país — com mais de 200 escolas ocupadas por estudantes secundaristas!

Claro, a luta da classe operária na estrutura capitalista é objetivamente muito diferente da luta na superestrutura. A luta da classe operária tende a superar ilusões superestruturais e fragilidades pequeno-burguesas (como um certo tipo de anarquismo senso-comum que perdura em setores da juventude, que alimenta características anti-organizacionais e que se volta, muitas vezes, contra a a própria democracia proletária).

Dados todos esses elementos, é possível conjecturar que o ascenso da classe trabalhadora que se aproxima terá dimensões nunca antes vistas e deverá retomar os métodos tradicionais de luta da classe, como os comitês de fábrica e a democracia proletária dos conselhos. Talvez aí caminhemos para algo também nunca antes visto na história deste país — algo que parece impossível até se tornar inevitável —, a tomada do poder econômico e político pelos organismos da classe trabalhadora.

Histórico
29.11.2015