O abismo da crise mundial

Em todo o mundo assiste-se a um processo de crise da burguesia enquanto classe, econômica e politicamente. Ele tem assumido um caráter agudo nos últimos dias, graças ao derretimento acelerado da economia capitalista mundial. O mês de janeiro registrou a maior queda nas principais bolsas de valores mundiais desde o estouro da crise econômica em 2007-2008.

É como se o chão da burguesia fosse subitamente arrancado. Ela não sabe bem para onde vai; oscila, improvisa, titubeia. Na quarta-feira, dia 27/01, o Federal Reserve (FED), banco central norte-americano, anunciou que não mais aumentaria a sua taxa básica de juros, conforme planejava. Especula-se agora que as quatro projeções de aumento para 2016 serão revisadas para baixo e há já analistas burgueses que consideram o aumento da taxa básica de juros em dezembro passado um erro.

A incerteza também reina no Japão, terceira maior economia capitalista do planeta. Na sexta-feira, 29/01, o BOJ, banco central japonês, surpreendeu o mundo ao adotar uma taxa de juros negativa. Eis algo em geral inesperado. No caso, resultado de uma votação apertada no órgão econômico (5 votos a 4). Mas a medida foi ainda mais estranha porque o presidente do banco central japonês havia anunciado, apenas oito dias antes, que uma taxa de juros negativa não era seriamente considerada.

Em nosso país o titubeio das classes dominantes não foi diferente. O anúncio recente do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, após reunião do Copom, informando a manutenção da taxa básica de juros, tomou parte do mercado de surpresa. É verdade que Tombini havia indicado a possibilidade de manutenção da taxa um dia antes, mas, apesar disso, todas as expectativas, com base nas declarações anteriores de Tombini, eram pelo aumento da selic em 0,5 ponto percentual. A ata do Copom é curiosa; fala: “a elevação das incertezas domésticas e, principalmente, externas, sobretudo mais recentemente, justifica continuar monitorando a evolução do cenário macroeconômico para, então, definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”. Ou seja, o órgão econômico reconhece que não sabe o que fazer e prefere esperar para ver o que vai dar no resto do mundo.

No mesmo processo observa-se novas medidas de “facilitação quantitativa”, ou seja, de injeção de liquidez na economia. A própria medida adotada pelo Japão é, na prática, isso, na medida em que uma taxa de juros negativa impõe a seus bancos o pagamento de determinado valor para manter dinheiro parado. Os bancos são praticamente obrigados a fazer circular dinheiro. Os analistas econômicos burgueses norte-americanos também já consideram que o FED deve, no próximo período, tomar novas ações de “quantitative easing” ou de compra de títulos para abastecer o mercado com dinheiro. E Mário Draghi, presidente do Banco Central Europeu, afirmou que o órgão deverá injetar dinheiro no mercado do velho continente já em março. O Banco Central da China, por sua vez, diante da gigantesca queda em suas bolsas, resolveu injetar em seu mercado, ao todo, na última semana, nada menos que $ 690 bilhões de yuans (quase US$ 100 bi). No Brasil, Dilma, no famigerado “conselhão” (reunião da presidência com os donos do PIB brasileiro) anunciou um pacote com novas linhas de crédito facilitado em torno de R$ 83 bilhões. Além disso, Dilma mostrou-se aberta, em entrevista recente para o UOL, ao uso das reservas cambiais do país, hoje em torno de R$ 360 bilhões, em caso de necessidade de injeção de dinheiro no mercado.

Assistimos ao mesmo processo que já não deu certo para resolver a crise que apareceu em 2007-2008. As atuais baixas taxas de juros em algumas das principais economias mundiais – EUA, Japão, Europa, Inglaterra – foram medidas tomadas após o estouro da crise, visando nominalmente à reestruturação produtiva e ao reaquecimento econômico real. Será que agora, para supostamente estimular as economias, elas se tornarão negativas, como no caso japonês e de alguns países escandinavos? É pouco provável, mas seja como for, o problema geral é que já em 2007 essa reestruturação produtiva não teve lastro na realidade; ela efetivamente não se deu após o estouro da crise e após as medidas assumidas pelos governos capitalistas, pelo simples fato de que impôs-se e impõe-se, histórica e objetivamente, uma séria e profunda tendência de queda da taxa de lucro do conjunto do sistema capitalista, impossível de ser contornada, mesmo pela vontade consciente dos tais “agentes econômicos”. É a crise sistêmica do capital. É muito mais fácil, para as instituições financeiras internacionais deste sistema econômico irracional, especular com os valores trilionários injetados pelos governos mundiais do que reestabelecer taxas de lucro rentáveis propriamente na esfera da produção capitalista. Que empresa efetivamente se valeria de empréstimos – seja de instituições financeiras ou governos – para produzir se o horizonte é absolutamente brumoso? Uma empresa que já está (de praxe) endividada, tomará mais empréstimos agora sem saber se conseguirá, amanhã, vender o que produz hoje? É natural – e revelador das tendências anárquicas e contraditórias do sistema – que num momento de total volatilidade no mercado mundial o próprio capital migre para formas voláteis de rentabilidade.

De 2007 para cá, grande parte da artilharia dita “macro-econômica” (para usar o jargão da economia burguesa) já foi gasta. Como falamos, os governos das economias mais industrializadas diminuíram suas taxas de juros (visando supostamente a reaquecer suas indústrias) e injetaram trilhões de dólares em suas economias em formas de “facilidades”. Tais capitais, entretanto, em grande medida, migraram para a especulação financeira, num afluxo sobretudo a países como Brasil, Rússia e China (mas também África do Sul, Índia, México, e outros), dando a alguns destes a ilusão de que eram imunes à crise, de que esta era apenas uma marolinha, etc.. Todavia, alguns desses países cada vez menos têm estrutura para suportar e manter tal modelo de relação capitalista, e agora, com a queda no valor das commodities, ameaçam colapsar. De tal modo que o processo de fluxo especulativo aberto após 2007-2008 encontra, já há mais de um ano, um limite claro e evidente. Como resultado, vê-se uma nuvem de capital que circula pelo mundo sem encontrar função (produtiva ou especulativa), ameaçando abrir uma crise em proporção jamais vista. A falta de liquidez dos mercados se manifesta, paradoxalmente, ao mesmo tempo em que há capital em excesso em todo o mundo.

O que o sistema capitalista pode fazer diante dessa situação? Do ponto de vista de soluções verdadeiras, efetivamente nada. O sistema somente pode pedir por mais medidas artificiais, por mais “quantitative easing”, por mais injeção direta de dinheiro para salvar os mercados. É como um processo de dependência tóxico-química num corpo praticamente condenado, que vive artificialmente de injeções. O corpo viverá enquanto existirem as injeções. Estas, todavia, não são eternas, e sua quantidade esbarra em dois elementos: nas atuais reservas econômicas nacionais e, sobretudo, no quantum que tais governos conseguem extorquir de suas próprias populações. Ou seja, a quantidade de dinheiro dos governos para salvar o sistema capitalista mundial depende do quanto as populações dos países aceitarão dar à classe capitalista (por meio dos governos capitalistas). Esse é um limite indefinido, móvel, que somente a luta pode determinar. A única certeza é que haverá necessariamente luta.

Tal luta popular contra medidas do Estado – como as de austeridade –, embora relevante, será cedo ou tarde articulada (determinada) pela luta fundamental, propriamente da classe trabalhadora produtiva contra o capital, pois é nessa relação que mora efetivamente a contradição que limita a expansão do sistema capitalista. As lutas na superestrutura são apenas um aviso – à burguesia e aos socialistas revolucionários – de que a luta fundamental, entre classe trabalhadora e capital, nos locais de trabalho, está por vir. Seus resultados são imprevisíveis. A única coisa possível de garantir, desde já, é que este sistema econômico é insustentável, completamente irracional, e ameaça toda a civilização com a ruína. Defender este sistema é uma utopia pueril. Lutar contra ele não é um imperativo moral, mas, muito mais, uma necessidade de sobrevivência.

Histórico
01.02.2016