Os mencheviques do Syriza – Parte 2

Esta é a segunda parte de artigo de análise sobre a eleição do Syriza na Grécia. A primeira foi publicada no dia 6/2, também em movimentonn.org.

Syriza choca o ovo da serpente

Como falamos na primeira parte deste artigo, Syriza está na corda bamba. Não há espaço para uma política neutra entre a classe trabalhadora e o capital. Se Syriza enfrentar as políticas da Troika (com seu keynesianismo nacional mesclado com retórica marxista), será atacado pelo capital. Se Syriza capitular à Troika, será atacado pela classe trabalhadora ou mesmo pela direita. Assim, está no horizonte a possibilidade da queda de Tsipras e Varoufakis desse frágil equilíbrio.

No âmbito doméstico, a possibilidade de derrubada do Syriza por setores de direita, mesmo fascistas, não está, infelizmente, descartada. Isso, em parte, é de responsabilidade do próprio Syriza, cuja política tem deixado o campo aberto para esse perigo crescer e se instalar. Com sua política conciliadora, Syriza tem chocado o ovo da serpente. Foi muito noticiado, por exemplo, o estabelecimento da coalizão com o partido Gregos Independentes (ANEL), para que Syriza, supostamente, obtivesse maioria no parlamento.

Syriza precisava mesmo dessa coalizão com um partido de extrema-direita? Como dissemos, Syriza obteve 148 cadeiras, quase as 151 necessárias para ter maioria completa no parlamento. Sustentam os dirigentes do Syriza que ele precisava estabelecer uma coalizão para ter maioria no parlamento e fazer passar as suas políticas anti-austeridade. Entretanto, Syriza se negou a fazer coalizão com o PASOK, apesar do fato de que boa parte de seus membros tenha vindo desse partido. Isso devido à simbologia hoje associada ao PASOK. Por mais de 40 anos o maior partido de esquerda grego, o PASOK desmoralizou-se completamente ao aplicar as medidas de austeridade, sendo praticamente reduzido a zero em 4 anos (quase não ultrapassou a cláusula de barreira necessária ao parlamento). Por outro lado, o KKE, Partido Comunista Grego, se nega a fazer coalizão com o Syriza, devido ao programa burguês apresentado pos este, que, segundo KKE, se nega a romper com a Troika e com a dívida externa. Assim, dizem os representantes do Syriza, pouco restava para coalizão senão o ANEL.

Mas Syriza não precisava fazer coalizão com o ANEL para ter maioria no parlamento. Para isso bastaria contar com abstenção de pelo menos dois parlamentares de outros partidos, o que, devido à crise institucional burguesa que se abre quando não há maioria no parlamento, facilmente ocorreria. Basta lembrar que a eleição atual, na qual Syriza foi eleito, foi chamada justamente porque Antonis Samaras e seu partido, a Nova Democracia, não obtiveram maioria no parlamento. A burguesia grega não realizaria um processo desgastante como esse neste momento, temendo fragilizar sua institucionalidade. Além disso, caberia contar com o apoio crítico de ao menos 2 votos dos demais partidos para as suas medidas anti-austeridade, o que provavelmente ocorreria tanto por parte da esquerda (KKE) quanto por parte da direita (Aurora Dourada e ANEL). Syriza não necessitava necessariamente de uma coalizão com o ANEL; a realizou para sinalizar à burguesia mundial que não é um governo perigoso, que não quer mexer profundamente nas instituições (sobretudo a militar), que se nega a fazer um governo apenas da “esquerda”, etc. Diante da falência dos grande partidos burgueses gregos, Syriza opta por fazer uma “aliança com a sombra da burguesia” – para usar a expressão de Trotsky – somente para diminuir as preocupações do capital.

Quem são os Gregos Independentes (ANEL)? Trata-se de um racha de direita do já direitista Nova Democracia. ANEL foi criado em 2012. Na época, seu líder Panos Kammenos afirmou que “a única ideologia do nosso movimento é o patriotismo”. Isso, a rigor, é falso, porque além de nacionalista o ANEL é anti-semita, xenofóbico, homofóbico e obscurantista-religioso. É o partido que mais se aproxima do fascista Aurora Dourada no espectro da direita, mas sem defender tão claramente quanto esse partido a saída da Zona do Euro.

Kammenos, surpreendentemente, foi indicado por Tsipras para nada mais que o Ministério da Defesa da Grécia. Kammenos, além das relações com a burguesia comerciante marítima grega, tem profundas ligações com as Forças Armadas do país. No governo de Samaras e da ND, fazia parte do Comitê de Defesa Nacional e Assuntos Exteriores, assim como do Comitê do Programa de Armamento. Em entrevista ao jornal On Alert em 2014, Kammenos falou contra o controle civil das Forças Armadas: “Defendemos que o Ministro da Defesa atue apenas como um supervisor, que não deve nunca se meter no funcionamento militar. Não cabe ao Ministro da Defesa em exercício apontar os oficiais dos vários postos [no exército]”. Além disso, Kammenos disse querer “proteger as Forças Armadas de algumas mentalidades estranhas dentro do Syriza”.

Kammenos visitou as Ilhas Imia, localizadas no leste do Mar Egeu, no último dia 30 de janeiro. Essas Ilhas são motivo de antiga disputa da Grécia com a Turquia. Há 19 anos atrás, no dia 30 de janeiro, a Turquia derrubava um helicóptero grego, matando 3 oficiais do exército e quase desatando uma guerra entre os dois países. Ao mesmo tempo em que Kammenos visitava as Ilhas, prestando homenagem aos oficiais mortos, os fascistas da Aurora Dourada realizavam uma manifestação no centro de Atenas em memória dos oficiais e condenando a nação vizinha. Ao que tudo indica, as relações entre ANEL e Aurora Dourada não podem ser ignoradas.

É com esse tipo de gente que o Syriza está em coalizão. É esse tipo de gente que indicará o próximo presidente do país (lembrando que a Grécia é uma democracia parlamentar). Como vários analistas comentaram, a situação traz à mente o Chile do reformista Allende, que impedia a classe trabalhadora de se organizar de forma independente e mantinha no comando do Exército seu algoz, o futuro ditador Pinochet.

Para piorar, a sustentação ao fascismo não vem apenas de uma aliança externa ao Syriza, mas também da política acobertadora da direita promovida pelos seus próprios membros. Sabe-se, por exemplo, que mais da metade dos votos do fascista Aurora Dourada vem da Polícia Militar grega. Tendo isso em vista, Tsipras defendia, antes da possibilidade de ser eleito, o desmantelamento da Tropa de Choque e a unificação de todas as polícias numa única, “cidadã”, controlada pelo povo. Evidentemente, tão logo foi eleito tudo isso caiu por terra. Segundo Paul Mason, jornalista do britânico Channel 4 News, tão logo saiu o resultado das urnas Nikos Voutsis, novo o Ministro do Interior, membro do Syriza, ligou para os quartéis generais da polícia e do exército e afirmou repetidas vezes: “Nós confiamos em vocês”. O próprio Mason ressaltou o absurdo: “isso foi dito apesar da polícia grega ter sido configurada desde a Guerra Fria para suprimir a esquerda, com educação política sobre os perigos do marxismo”. Yannis Panousis, indicado vice-ministro de Nikos Voutsis para o Ministério do Interior, afirmou que a Tropa de Choque será mantida, “terá armas nos protestos, mas isso não significa que ela aterrorizará e intimidará [a população]”. Cabe perguntar: para que mais ela serve?

Isso, curiosamente (e tragicamente), apenas revela quão impotentes e vazias são as propostas de “unificação da polícia sob controle do povo”, uma vez que são propostas a serem realizadas pelo Estado burguês, tendo a classe trabalhadora como mera espectadora. Pelo contrário, Trotsky defende que “os piquetes de greve são as células da milícia operária”; não propõe qualquer medida charlatã de reforma da polícia dentro dos quadros atuais, mas a organização militar da classe trabalhadora pela base, a partir dos locais de trabalho, para a sua auto-defesa (para garantir sua mobilização, suas reuniões, sua imprensa, etc.).

Assim, a unidade com o ANEL, em nome de uma política patriótica contra a austeridade imposta à nação, é um desastre completo, justamente porque abstrai as diferenças entre as classes internamente à Grécia; mantém a classe trabalhadora grega paralisada, em aliança com a burguesia nacional; impede que a classe trabalhadora grega apele e se una à classe trabalhadora européia, e alimenta conflitos com demais países, como é o caso da Turquia.

Aquelas organizações de esquerda que no Brasil estão elogiando o projeto do Syriza estão, na prática, com suas políticas pequeno-burguesas, sendo linhas auxiliares do nacionalismo, ajudando a preparar uma derrota histórica para a classe trabalhadora.

O esquerdismo do KKE

Por fim, cabe comentar o papel do Partido Comunista Grego (KKE) nesta conjuntura, enquanto o maior partido que faz oposição de esquerda ao Syriza, e que muito provavelmente ganhará maior relevância com o rápido desgaste deste. Ao que parece, a política futura tende a cair nas mãos da direita (cada vez mais próxima do fascismo) ou de alguma força independente da classe trabalhadora. O KKE, ainda que de tradição stalinista, tem uma história sui generis, tendo promovido muitas vezes posições à esquerda, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Talvez seja possível caracterizar o KKE como centrista, que oscila de uma política burocrática a uma política esquerdista. Em determinados momentos, por exemplo, o KKE, tomado por um “obreirismo”, despreza por completo e condena mobilizações pequeno-burguesas, superestruturais, populares, desvinculadas da tradição da classe trabalhadora, como aquelas nas praças, ou os conflitos dos “anarquistas” com a polícia, etc. Ignora-se que tais lutas populares de enfrentamento com o Estado também têm a sua importância para a luta de classes, embora, evidentemente, enquanto pequeno-burguesas, menores que as lutas da classe trabalhadora nos locais de trabalho pelo controle dos meios de produção. Isso levou inclusive, ao final de 2011, ao conflito entre o KKE e setores anarquistas, num dos dias de greve geral sindical realizada na Grécia. Em 19 de setembro de 2011 o KKE condenava os anarquistas por servirem à repressão policial, infiltrando-se em sua passeata que cercou o parlamento, já os anarquistas condenavam o KKE por cercar o parlamento, impedindo sua invasão pelo povo.

Em diversos momentos, por outro lado, o KKE apresenta críticas corretas ao papel do Syriza na atual conjuntura, enquanto conciliador. Entretanto, para “desmascarar” o Syriza, o programa apresentado pelo KKE é, em geral, esquerdista. Ainda que fale com frequência na “socialização dos meios de produção”, o foco dos discursos do KKE é a ruptura com a Troika e o não pagamento da dívida externa. É possível afirmar que o programa do KKE se centra nesses dois pontos, e eles são os usados para expor o caráter burguês do Syriza. Syriza é burguês, diz o KKE, porque não quer romper com a Troika e quer pagar a dívida.

Trata-se de um programa similar ao da esquerda centrista de outros lugares do mundo, como a do Brasil, que foca seus ataques na “ruptura com o FMI”, “ruptura com a ALCA”, “não pagamento da dívida externa e interna”, etc., como se se tratasse disso o processo revolucionário. O processo revolucionário, entretanto, não se inicia pela esfera da circulação do capital. Assim pensam os marxistas iludidos pelo processo de administração do capital, que acabam tomando a burguesia como produtora da riqueza.

É evidente que qualquer processo revolucionário levará à ruptura com o FMI, com a Troika, ao não pagamento das dívidas, etc., mas essas coisas são o resultado do processo revolucionário, e não as desencadeadoras dele. A base do processo revolucionário é a constituição da dualidade de poderes nos locais de trabalho, a partir da luta contra a exploração do trabalho pelo capital (em defesa dos empregos e salários), nas principais forças produtivas de uma nação; é a constituição de mecanismos de supervisão e controle operários desde pontos isolados de importantes forças produtivas até à sua articulação em escala nacional, coroada pelos Sovietes (conselhos populares). A tomada do poder pelos Sovietes, resolvendo a dualidade de poderes, aí sim, efetiva a ruptura com as instituições internacionais do grande capital.

Propor imediatamente a “ruptura” com a Troika, com o FMI, a dívida, ou o que quer que seja, é apenas uma política esquerdista inócua que evidencia a confusão da esquerda revolucionária. Tais coisas são secundárias, no sentido de que são problemas a serem resolvidos pela classe trabalhadora num segundo momento. Antes de agitar o que será feito após a tomada do poder, a esquerda revolucionária precisa resolver o problema de como tomar o poder, ou melhor, de como a própria classe trabalhadora tomará o poder, enquanto um processo de auto-emancipação.

Esse tipo de política esquerdista e confusa por parte dos “marxistas” acaba desenvolvendo dentro deles, como complemento, a lógica da administração do Estado burguês. Por exemplo, argumenta-se muitas vezes, nos processos eleitorais, que “se fossemos vitoriosos, romperíamos com a dívida e o FMI, e em seguida aplicaríamos tantos % em saúde, em educação”, etc. Trata-se de um delírio político que, no final das contas, pressupõe o Estado atual; que bloqueia a apresentação de um programa que ajude os trabalhadores a transitar deste momento até àquele da tomada do poder por seus próprios organismos autônomos e independentes. A classe trabalhadora fica como espectadora, que não se empodera. O princípio de auto-emancipação dos trabalhadores, que prega que estes “confiem apenas em suas próprias forças”, é abandonado, e tais “marxistas” descambam para reivindicações de cunho estatal-burguesas, social-democratas e reformistas, que são a face burocrática da moeda, que complementa a face esquerdista.

Essa questão é decisiva e, enquanto o KKE apresentar como centro do seu programa a “ruptura” com a Troika e a ruptura com a dívida, sem antes ter criado as formas de dualidade de poder da classe trabalhadora, parecerá à maioria da população esquerdista e, em parte, aventureiro. Curiosamente, o KKE, ao não defender abertamente a ruptura com a Zona do Euro, tratando-a como secundária, concorda com a crítica que fazemos. Mas essa ponderação é minoritária em seu programa, que se mantém marcadamente esquerdista. Assim, é possível que tal política esquerdista abra caminho para a direita (que possivelmente saberá se colocar como mais consequente para parte da população).

Do que se trata é de criar, a partir da luta em defesa dos salários e empregos, nas principais forças produtivas da Grécia e da Europa, a dualidade de poderes crescente. O KKE, com privilegiada posição em importantes sindicatos operários da Grécia, será testado no próximo período. Para onde apontará sua política centrista?

Conclusão

Diante da questão colocada inicialmente, na primeira parte deste artigo – “é o Syriza necessariamente um fenômeno progressivo, uma vez que capta um descontentamento da classe trabalhadora?” –, pensamos o seguinte:

Na medida em que amplia a divisão de setores da burguesia europeia (contrapondo-os à alemã), a capitalização do descontentamento popular pelo Syriza pode ser progressiva, caso a classe trabalhadora consiga aproveitar tal paralisia burguesa para passar à ação contra o sistema. Isso depende da existência, na Grécia e na Europa, de um partido revolucionário com inserção na classe trabalhadora, sobretudo na operária. Por isso, pensamos, a possibilidade progressiva é ainda uma variante menor do processo, não necessária. A capitalização do descontentamento por parte do Syriza (bem como pelo Podemos na Espanha) pode muito facilmente tornar-se seu contrário — a ofensiva esmagadora direitista da burguesia contra a classe trabalhadora desorientada nesses países.

Ainda assim, se ocorrer, uma possível derrota localizada da classe trabalhadora não impedirá seu forte ascenso em curso no mundo. A negação dos partidos burgueses tradicionais (como o PASOK e a ND na Grécia, ou o PSOE e o PP na Espanha), e a sua substituição por frágeis variantes de esquerda (como o Syriza e o Podemos), aponta para uma linha geral de reorganização da classe trabalhadora em nível mundial, criando as condições para a resolução da crise histórica de direção do proletariado.

Histórico
09.02.2015