Por que Moro não prende Lula logo?

Antes de responder a essa questão, é preciso refletir rapidamente sobre a conjuntura nacional; é preciso entender o que se passa em nosso país tanto social quanto politicamente.

Os conflitos e motins dos setores “armados” da classe trabalhadora — membros das instituições policiais do Espírito Santo e Rio de Janeiro — são um sério alarme à burguesia e às organizações revolucionárias. A burguesia não dorme no ponto; percebe-o, persegue os grevistas e se arma. Temer anunciou o aumento do efetivo da Força Nacional de Segurança (criada por Lula) dos atuais 1,5 mil para cerca de 7 mil homens. Enquanto isso, parte da “esquerda” vive em outra realidade, combatendo um “golpe” imaginário e fingindo que a greve dos policiais por salários não existe, sem apoiá-los.

A situação é aguda e as tensões devem crescer entre o proletariado e a ordem burguesa. Além de apresentar um programa de defesa das atuais condições de vida do proletariado (veja aqui), é preciso pensar uma tática que mantenha a burguesia enfraquecida politicamente como classe o maior tempo possível. Aí entra a questão levantada no título deste texto.

É cada vez mais evidente que a linha política dos maiores setores da burguesia nacional coincide com o “programa” apresentado pelo pmdbista Romero Jucá na famosa conversa grampeada com Sérgio Machado. A rigor, esse não é o “programa” de Jucá, mas um senso-comum nos altos meios políticos e econômicos do país. Era preciso, dizia Jucá, tirar a Dilma (“infelizmente”) e botar Temer no lugar, para diminuir a onda de descontentamento que dava base ao crescimento da Lava-Jato. Só assim eles teriam chance de se salvar e… salvar o Lula (pequeno detalhe que os petistas fazem questão de esquecer).

O plano segue em andamento. O primeiro ponto — tirar a Dilma e botar o Temer — já foi realizado. Os outros dois — salvarem-se e salvar Lula — andam a todo vapor. O problema é que eles começam a perceber que a sua salvação depende do salvador Lula.

Nesse sentido, além de notar o óbvio e imediato, sob o nariz de todos, é preciso notar o movimento geral. O óbvio é: Alexandre de Moraes foi colocado no STF para salvar Temer, o PMDB e o PSDB. O não óbvio é: quem mexeu todas as cartas no STF para a entrada de Moraes foram os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli, conjuntamente. O primeiro, tucano; o segundo, advogado do PT. Boa parte da esquerda acha que está havendo uma perseguição a Lula pelo grupo de Temer, mas não nota que Alexandre de Moraes foi nomeado para o STF com apoio do petista Toffoli (e anuência do PSDB) para salvar o Lula. Parte da esquerda finge não notar que ninguém menos que Fernando Henrique Cardoso está servindo de testemunha de defesa de Lula na Lava-Jato, dizendo asneiras como “um presidente não tem como saber de tudo” (uma variação do “eu não sabia” de Lula no mensalão de 2005). Parte da esquerda parece esquecer que Temer, diante do corpo morto da ex-primeira dama Marisa Letícia, no hospital, pediu ajuda a Lula, que, como sempre, fazendo politicagem em todos os lugares, respondeu: “me chama que eu vou”.

No hospital, Lula repetiu a Temer a frase que dissera a Dilma pouco antes desta cair: “o problema é que o STF está acovardado”. Anteriormente, defendendo Cunha e Renan, Lula também dissera: “o problema é que temos um presidente da Câmara totalmente acovardado e um presidente do Senado totalmente acovardado”. Lula se vê como o único não-covarde da política brasileira. Por que? Porque sabe que pode ser o príncipe do lumpen-proletariado; sabe que tem as melhores chances para 2018; sabe da influência que pode ter — como presidente — sobre os setores miseráveis da nação. Com a máquina do Estado, Lula pode comprar com migalhas grande parte da massa miserável e usá-la contra os setores mais dinâmicos da luta de classes, a saber, as grandes categorias organizadas da classe trabalhadora brasileira. O populismo sempre foi isso, e nada mais.

É por isso que os setores mais conscientes da burguesia querem salvar Lula. Só assim parece ser possível estancar de verdade a onda de descontentamento proletária que está por trás da Lava-Jato (e que é só um prenúncio de outras formas, mais claras e puras, de luta de classes). Essa onda vem crescendo desde 2013 e, para compreender sua dimensão, é preciso notar que tem atrás de si a maior crise econômica mundial desde o pós-guerra e, particularmente, no Brasil, a maior crise econômica desde 1929.

A burguesia, graças às suas divisões internas, se vê refém da Lava-Jato. Ela está cansada da crescente instabilidade no Brasil. Ela quer “paz social” para continuar explorando seus proletários e corrompendo seus políticos como sempre. Nessas condições, perdendo o controle, ela precisa do “salvador”, custe o que custar. O cérebro da burguesia brasileira está ficando tão atormentado quanto o da burguesia francesa no meio do século XIX, que permitiu a ascensão do autoritário Luis Bonaparte, descrita por Marx:

“Imaginai agora o burguês francês, o seu cérebro comercialmente enfermo, torturado na agonia desse pânico comercial, girando estonteado pelos boatos de golpes de Estado e de restauração do sufrágio universal, pela luta entre o Parlamento e o Poder Executivo, pela guerra entre orleanistas e legitimistas, e pelas conspirações comunistas no sul da França, pelas supostas jaqueries nos Departamentos de Nièvre e Cher, pela propaganda de diversos candidatos à presidência, pelas palavras de ordem dos jornais que lembram os pregões de vendedores ambulantes, pelas ameaças dos republicanos de defender a Constituição e o sufrágio universal de armas na mão, pela pregação dos emigrados heróis in partibus, que anunciavam que o mundo se acabaria no segundo domingo de maio de 1852 — pensai em tudo isso e compreendereis a razão pela qual em meio a essa incrível e estrepitosa confusão de revisão, fusão, prorrogação, Constituição, conspiração, coligação, usurpação e revolução, o burguês berra furiosamente para a sua república parlamentar: Antes um fim com terror, do que um terror sem fim. Bonaparte compreendeu esse grito”.

Lula, que diz que todos são covardes, compreende o grito da burguesia nacional.

Talvez Moro tema os conflitos que ocorreriam de uma prisão de Lula, ou, pior, talvez Moro tema os conflitos que adviriam da falta de Lula na política brasileira. Provas para a prisão de Lula, réu em 5 processos da Lava-Jato e fora, não faltam. Portanto, por que Moro não age? Também Moro tem as suas limitações de classe.

Lula se lançará oficialmente como candidato dentro de um mês. Assim será muito mais difícil prendê-lo (pois parecerá perseguição política). A verdade é que, se Lula não for preso agora, a chance de voltar a ser presidente é grande. Então o Brasil viverá sob um risco real de golpe futuro, para manutenção de um político capaz de paralisar a onda crescente de luta de classes, que já chega a parte dos militares. Se os membros da Lava-jato não tiverem coragem de executar a prisão de Lula agora, poderão se ver amanhã, eles próprios, na cadeia. A classe trabalhadora deve saber defender taticamente a prisão de Lula, mas só pode confiar em si mesma, em suas próprias forças e em seu próprio movimento.

Histórico
13.02.2017