Porque Dilma não representa o mal menor

Neste 2o. turno repete-se a polarização entre PT e PSDB, querela iniciada há cerca de vinte anos. Se Lula assumiu seu primeiro mandato, em 2002, com o discurso da esperança que venceu o medo, hoje, Dilma, em sua reeleição, usa em sentido contrário a mesma ideia: Aécio representa o retorno dos fantasmas do passado que tanto devemos temer.

Nesse jogo eleitoral, conforme o perfil do eleitorado, o sentido do voto se altera. Por exemplo, a vitória de Aécio em São Paulo, o maior colégio eleitoral do Brasil. O que isso significa? Que o eleitorado paulista é reacionário, como pensam e dizem os petistas? Evidentemente que não. Trata-se de um voto contra o PT e Dilma, mais do que um voto a favor do tucano. É um voto pela mudança, ainda que Aécio não represente mudança verdadeira. É uma manifestação de repúdio ao PT muito menos pela campanha de alguns grandes veículos de comunicação contrários ao governo e muito mais pela situação objetiva da economia do país. E quem mais sente, sem dúvida, é a massa que vive nos grandes centros urbanos. Isto explica também porque o PT perdeu mesmo em seus redutos mais tradicionais, como o ABC, onde a indústria automobilística sente os efeitos da crise, cuja primeira consequência são os acordos de redução de salários, férias coletivas e demissões. 46 das 58 zonas eleitorais da cidade de São Paulo (muitas delas muito pobres) votaram em Aécio. Desse modo, é preciso ver o mapa das votações sem maniqueísmo e compreender as razões econômicas que movem as massas.

Por outro lado, é evidente que na medida em que a esquerda socialista não consegue se afirmar como alternativa nacionalmente, com o aprofundamento da crise, a massa que repudia o PT também encontra conforto na extrema direita, seja ela a bancada da bala, seja ela a dos pastores, como substitutos a um Congresso desacreditado.

Outro perfil de eleitorado é aquele que defende o voto em Dilma como um mal menor. Trata-se de um universo muito mais restrito, porém, importante já que reúne parte da vanguarda política (dos movimentos sociais), intelectuais e parte da juventude. Desprezá-los seria um erro, pacientemente devemos discutir e desmontar esse discurso. É preciso mostrar a eles porque se trata de uma grande ilusão a ideia de Dilma como um mal menor.

Objetivamente, a candidatura de Dilma não é um mal menor por razões muito precisas. A primeira e, mais importante, é a de que, do ponto de vista das relações econômicas e de produção, PT e PSDB são essencialmente iguais. Os dois partidos governam para a burguesia, representando distintos grupos e interesses, mas sempre pautados pelos limites impostos pela burguesia. Ambos foram financiados igualmente pelas grandes empresas nestas eleições (num total que passou a casa dos 60 bilhões, ou seja, duas Copas do mundo).

Nesse sentido é exemplar comparar os czares econômicos de ambos. O PSDB tem em Armínio Fraga o seu nome forte. Mas e o PT? Durante o governo Lula, Henrique Meirelles, um quadro administrador do mercado financeiro internacional como Fraga, e Delfim Neto, um dos grandes ideólogos do desenvolvimentismo dos militares, foram os pilares do projeto lulista. Guido Mantega, que pode ser considerado como uma “opção à esquerda de Delfim” já é carta fora do baralho e o novo nome (caso Dilma seja eleita) deve seguir os passos de seus antecessores.

Ainda no campo econômico, os defensores do PT reivindicam o êxito das políticas de distribuição de renda, como o Bolsa-família. Ora, em primeiro lugar, o valor do programa é irrisório se comparado com o que é gasto com os bancos e com a dívida pública (20 bilhões x 250 bi R$/ ano). Em segundo lugar, essa política se vincula diretamente com a aposta do crescimento baseado no mercado interno, algo que mesmo dentro do PT é tido como fracassado. E, como vimos, os efeitos disso já são sentidos nos grandes centros urbanos. Por outro lado, os maiores beneficiados dos programas de distribuição de renda no Norte e Nordeste do país em breve verão seus ganhos sendo pulverizados tão logo a inflação (hoje represada artificialmente) cresça e a carestia de vida aumente, algo igualmente tido como certo para o ano 2015, independente do vencedor das eleições.

A terceira razão diz respeito às liberdades democráticas. Os petistas, em coro, denunciam a tolerância zero da polícia militar do governador Alckmin em São Paulo. E estão certos, ela existe mesmo, sobretudo contra os movimentos sociais e a juventude. Eles esquecem, porém, que os aliados do PT reproduzem esta mesma política nos Estados que governam, como o Rio de Janeiro, atingindo um êxito de fazer inveja ao governador de São Paulo: na capital carioca, por exemplo, a polícia é a que mais mata e morre no mundo. Mas a repressão não recebe apenas apoio indireto do governo federal, pelo contrário, desde o governo Lula a Força Nacional e o exército são acionados com frequência, instaurando uma situação de completa violação dos direitos humanos em nível nacional.

A quarta razão está na corrupção. O recente caso dos desvios na Petrobras é outra, entre tantas, variantes do mensalão. Trata-se de um assalto do Estado para irrigar políticos aliados do Congresso Nacional, grandes empresas, fundos de campanha e, indiretamente, manter sob controle o aparelho sindical e os movimentos sociais ligados ao partido. Não importa se Lula e Dilma sabiam ou não, se Dilma agiu para conter a sangria; trata-se de uma prática institucionalizada que hoje sustenta uma certa casta no poder e toda uma “velha política”. Então, contra-atacam os petistas, o valerioduto injetou dinheiro no mensalão tucano e há o gigantesco cartel do metrô em São Paulo. Sim, têm razão, mas isso, em nada altera a assombrosa prática do PT, pois dos tucanos nada esperamos! E mais grave ainda é que tal prática perpetua esse sistema político decadente. É por isso que o PT e Dilma não podem ser vistos como mal menor, a sua manutenção no poder significa dar sobrevida a este sistema em crise, mantendo viva a ilusão de que é possível mudar o país sem uma profunda ruptura política e econômica.

No próximo dia 26, o voto nulo é a única alternativa verdadeiramente transformadora. Vamos assinalar com clareza que a ilusão com o PT chegou ao fim, e vamos dizer não ao tucanato! Nem Aécio, nem Dilma são capazes de apresentar uma caminho para a juventude e a classe trabalhadora do Brasil! Ainda que a esquerda socialista precise passar por uma dura auto-crítica, ainda que ela precise encontrar os meios de voltar ao diálogo com a classe operária e a juventude radical, o voto nulo neste próximo dia 26 pode ser simbolicamente este primeiro passo, lançando na lata do lixo da história Dilma e o PT, Aécio e o PSDB.

Histórico
14.10.2014