Quem é (e quem não é) conservador

Depois de terem sido divulgados os resultados do primeiro turno das eleições, muito tem se falado no crescimento de uma suposta “onda conservadora” na política brasileira. Um dos defensores dessa hipótese é Guilherme Boulos, da Coordenação Nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto).

No entanto, no que se refere à disputa para a Presidência da República, a análise mais detida dos números desmente o aumento do conservadorismo. O PSDB manteve o percentual de 2010 (24,4% dos votos), enquanto o PT perdeu 4,8% no mesmo período. Ou seja, os votos do PT não migraram para o PSDB. Parte deles migraram para os votos nulos, brancos e abstenções, que aumentaram 2%, assim como para Marina Silva (1% a mais), e para o PSOL, cuja votação cresceu em 0,5%. Evidentemente, não dá para atribuir a essa migração de votos um aumento da “onda conservadora”.

Se for feito um recorte mais longo, comparando a eleição atual com a de 2006, tanto o PSDB quanto o PT tiveram suas votações diminuídas em torno de 7% cada um, enquanto os votos em branco, nulos e abstenções aumentaram quase 3,5%. Onde há aumento do conservadorismo?

Essa análise dos resultados eleitorais (levantamento baseado em http://www.marxismo.org.br/content/nao-existe-onda- conservadora-no-brasil-nem-em-sp) conduz à conclusão de que, ao invés de haver o aumento de uma suposta “onda conservadora”, como pensa Boulos, o que está ocorrendo é o contrário, o aumento dos votos brancos, nulos e abstenções, além de um crescimento de algumas candidaturas que o eleitor vê, afinal de contas, como algo novo.

Se, ao contrário do que dizem os petistas e seus aliados, o conservadorismo não está aumentando, o fundamental é identificar as forças políticas que deram origem e aquelas que promoveram o desenvolvimento do conservadorismo na história recente do país.

O auge do conservadorismo na política brasileira completou em 2014 meio século. Trata-se do golpe militar contra o governo João Goulart. Depois de cerca de 20 anos de domínio da farda verde no Palácio do Planalto, teria, afinal, o conservadorismo sido superado e dado lugar ao novo? Certamente não. Os militares foram substituídos pela oligarquia atrasada do nordeste brasileiro, primeiro na figura de José Sarney, filiado à Arena, partido de sustentação da ditadura, depois na pessoa de Fernando Collor. Ambos não deixaram saudades. Os oito anos de governo tucano sob o comando de FHC também não trouxeram o tão esperado “algo novo”, mas apenas mais achatamento salarial, privatizações, desemprego e repressão.

Teria sido, finalmente, com o governo do ex- metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva que o conservadorismo teria sucumbido na política brasileira? Os petistas e seus aliados, em coro, diriam “sim”. No entanto, basta voltar os olhos à base aliada desses 12 anos de governo do PT que se verá o retorno das sombras do passado, o retorno dos antigos fantasmas, a conservação das velhas oligarquias conservadoras do nordeste, como Sarney, Collor e Renan Calheiros.

Além de conservar os grupos políticos que permaneceram no poder nesses últimos 50 anos, os governos do PT conservaram o domínio do principal inimigo da classe trabalhadora, o sujeito que domina, além da classe trabalhadora, o próprio PT e seus aliados. O projeto do PT (pelo menos de sua direção hegemônica permanente), desde a sua origem, sempre foi o de conservar o capitalismo, esse sujeito que a todos domina. O projeto original do PT sempre foi o de transferir o foco da luta operária do interior das fábricas para as urnas, transferir a luta da instância da produção para a instância da circulação, local facilmente controlável pelo capital.

Nesse sentido, se considerarmos, seguindo Marx, como forças conservadoras todas aquelas que conservam a classe trabalhadora sob o domínio do capital, o PT se caracteriza como uma força tão conservadora quanto os demais partidos da ordem. Genericamente o PT seria, assim, igual ao PSDB. Ambos se propõem a conservar o capitalismo, ambos são, portanto, conservadores. Qualquer um que vença as eleições manterá o grau de conservadorismo capitalista.

Somente se justificaria, historicamente, o aumento do conservadorismo num momento de profundo acirramento da luta de classes. As manifestações de junho de 2013, apesar de seu ineditismo, apesar de sua importância, força e extensão, ainda não conseguiram mover a vanguarda objetiva da classe trabalhadora, o operariado industrial. Para controlar a luta de classes nas ruas, para controlá-la nesse nível bastante superficial, ainda não se faz necessário maior conservadorismo do que aquele do PT ou do PSDB. Ambos são suficientemente conservadores para continuar conservando o capitalismo no atual nível da luta de classes.

CONTRA OS DOIS CANDIDATOS CONSERVADORES!
VOTO NULO! 

Histórico
21.10.2014