Quem não é (ou já não foi) vândalo?

De junho para cá uma palavra ganhou lugar de destaque na grande imprensa, em seus editoriais, nas observações dos âncoras, na voz dos comentaristas e dos seus ilustres convidados.

Todos, em uníssono, acusam de vândalos os manifestantes que saem às ruas desde junho, tendo como principal alvo os black bloc. Vale sempre lembrar que aqueles gigantescos protestos de massa, que reuniam centenas de milhares, se espalhando como rastilho de pólvora por todo o país, fizeram a aprovação da presidente Dilma despencar cerca de 50% e por pouco não abreviaram o mandato do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

Atônitos, os representantes do capital vociferam: VÂNDALOS!!!

Abstraindo momentaneamente a ira de ambos os lados, cabe refletir se a acusação seria, de fato, totalmente imprópria. Haveria alguma semelhança entre as manifestações, de junho para cá, e a prática daqueles povos que deram origem ao termo vândalo? Ou, ainda, haveria, afinal, alguma semelhança dos vândalos atuais com aqueles que foram posteriormente assim acusados, apesar de não serem os vândalos originais?

Vejamos, então, o que representaram os vândalos do passado. A importância histórica das tribos germânicas dos vândalos é indissociável da decadência do Império Romano durante o século V. Naquela época, os vândalos invadiram as terras do antigo Império, saquearam Roma e ocuparam Cartago, estabelecendo ali seu Estado.

Somente cerca de 1.300 anos depois destas conquistas históricas dos vândalos originários é que o termo passou a ser usado, indiscrimidamente, como sinônimo de espírito de destruição. Diante do chamado Reino do Terror jacobino, estes foram acusados de vândalos pelo bispo Henri Grégoire em seus relatórios para a Convenção.

Mais de um século depois, os revolucionários russos também foram identificados aos bárbaros do século V por grande parte da intelligentsia de seu país.

Como se vê, desde o século V, passando pela Revolução Francesa e pela Revolução Russa, o termo vandalismo esteve sempre associado ao fim de uma época histórica, ao fim de uma forma de dominação de classe, à decadência de um modo de produção.

Nesse sentido a acusação de vândalos feita aos manifestantes possui algum significado. Vivemos também o fim de uma época. Vivemos a época da decadência putrefata do modo de produção capitalista. Além dessa conclusão, a reconstituição histórica feita acima esclarece outro fenômeno importante: os ancestrais daqueles que atualmente acusam os manifestantes também tiveram, outrora, seus gloriososs tempos de vândalos, na figura dos jacobinos. Eles possuem, portanto, telhados de vidro.

Diante disso, os manifestantes podem assumir legitimamente o papel de vândalos, isto é, podem representar, com orgulho, o sinal de novos tempos.

O que preocupa, na verdade, não são os alaridos histéricos da atual classe dominante contra os manifestantes. O que preocupa é que, apesar de toda a força dos vândalos originários e daqueles posteriormente acusados, os primeiros acabaram sendo vencidos pelo imperador bizantino Justiniano, Robespierre morreu guilhotinado e a revolução bolchevique foi traída internamente.

Como garantir, então, a vitória do futuro sobre o passado? Como, apesar da pequena força e da falta de programa características das atuais manifestações, evitar que a história se repita como farsa? A fragilidade programática e organizativa das manifestações, quando comparada aos antigos vândalos é, indiscutivelmente, um preocupante alerta. Mas, afinal, de quem é a responsabilidade por essa situação? Seriam as organizações de esquerda, que não foram capazes, no período recente, de construir uma direção que pudesse indicar um caminho claro para a superação da atual sociedade e a transição ao socialismo.

Histórico
06.03.2014