Tempos sombrios

Em 2011, dois milhões de egípcios reavivaram a lembrança histórica da praça Tahrir (praça da libertação, em árabe), conduzindo à renúncia o ditador Hosni Mubarak, após 30 anos no poder. Em pouco mais de um mês ocorreram consecutivas manifestações de rua, acampamentos e conflitos que, apesar do saldo de cerca 850 mortos,  pareciam anunciar um novo tempo no Egito. A perspectiva de eleições livres pela primeira vez na história do país fazia crer que a chamada primavera árabe aportava também no Delta do Nilo.

Tal estado de euforia levou, mais de uma vez, a análises condescendentes sobre os fatos, desconsiderando ou mesmo relativizando  as condições objetivas postas históricamente para o avanço da libertação do povo egípcio. Tais análises são refutadas pela trágica realidade dos episódios que se seguem e que agora culminaram em um novo massacre, seguido de um novo golpe de Estado com a implementação de um violento estado de sítio.

Transição “democrática”, será?

Ainda que houvesse forte pressão popular, a renúncia de Mubarak ocorreu em termos controlados.  A transição política foi dirigida pelos militares, que eram a força por trás de Mubarak e que ele usou contra os manifestantes na Praça Tahrir. Além dos militares, dois outros personagens agiram nesse processo: a Irmandade Muçulmana e as grandes potências imperialistas, em especial os EUA.

O movimento na praça Tahrir foi espontâneo, na época, muitos analistas duvidaram da influência inicial da Irmandade Muçulmana nos protestos. Esse partido de orientação islâmica tomou a frente dos acontecimentos quando o governo estava prestes a cair, ocupando o vazio deixado por um movimento sem direção. Há quem diga inclusive que a Irmandade negociou os termos da transição com os militares, assegurando-lhes que caso vitoriosa nas eleições, não defenderia uma islamização do Egito.

O terceiro personagem é o imperialismo. A ditadura de Mubarak sempre foi bem vista pelas potências ocidentais, que tinham em seu governo um grande aliado na região. Os EUA, por exemplo, despejavam sobre a rubrica de “ajuda militar”  US$ 1,3 bilhão por ano para o Egito. Esta ajuda, além de garantir a paz na região, configurava-se como um bom negócio, já que o governo norte-americano movimentava a indústria bélica – a ponto da ajuda ser renovada, em 2013,  com apoio unânime dos democratas e republicanos.

Como não poderia ser diferente, com o consentimento dos militares e dos EUA, a Irmandade Muçulmana venceu as primeiras eleições livres do país, em junho de 2012, levando à presidência Mohamed Morsi. Era então marcado o triunfo da revolução árabe no Egito?

Mesmo os defensores da “primavera” assinalavam que a revolução deveria continuar, com a manutenção da pressão popular até a derrubada de Morsi rumo a um governo dos trabalhadores. Mas será que, de fato, ainda havia espaço para tal disputa.

Morsi e a islamização do Egito

O novo governo não conseguiu controlar a economia, que seguia o ritmo da crise internacional, com alta dos preços dos alimentos e o surgimento de greves. Por outro lado, talvez em busca de apoio popular, Morsi lançou mão de medidas rumo ao fundamentalismo religioso no país. Perseguiu a minoria dos cristãos coptas, sancionou leis que não respeitavam os direitos humanos, defendeu a imposição do véu para as mulheres, revogou o ensino laico e misto nas escolas e universidades, impôs a supervisão de clérigos à justiça e à informação.

Com a economia arruinada, Morsi perdeu o apoio popular, com as medidas conservadoras e fundamentalistas despertou a revolta da juventude dos grandes centros urbanos e, sobretudo, perdeu o apoio fundamental das forças armadas, que, diante de um governo impopular, viram a oportunidade de um novo golpe.

A queda 

Morsi ficou no poder pouco mais de um ano, em 03 de julho deste ano, foi deposto. Seus partidários foram então às ruas, formaram a “Aliança contra o Golpe de Estado”, erguendo dois grandes acampamentos com milhares de pessoas no Cairo. Havia a convocatória para uma manifestação de “um milhão de pessoas” para protestar nesta semana (13/08), sob o lema “Juntos contra o golpe de Estado e os sionistas”.

Como se sabe, a manifestação não chegou a ocorrer. Na manhã do dia 14, os dois acampamentos foram cercados por tanques blindados do exército. Em repúdio à ação, muitos  islamitas foram às ruas, o que fez com que os confrontos se espalhassem, inclusive para outras cidades, como Alexandria e Ismailia. O governo decretou estado de emergência e impôs toque de recolher em várias províncias.

Conforme relato da Folha de S. Paulo, o presidente interino, Adly Mansur, indicado para o cargo após o golpe, também ordenou que os militares oferecessem apoio à polícia para “restaurar a ordem no país”. Diante disso, o vice-presidente interino e prêmio Nobel da Paz Mohammed ElBaradei renunciou ao cargo, afirmando não suportar a responsabilidade por decisões de que discordava.

A conta oficial de mortos chega a 638, para a Irmandade, o número supera 2000 que, se confirmado, supera o massacre de 2011. O relato do repórter Diogo Bercito, enviado da Folha de S.Paulo, descreve o que chamou de “o cheiro da morte”. “No ar pesado” escreve Bercito, “a putrefação se misturava ao perfume, talvez de lírio, que fazia a atmosfera dentro da mesquita de Imam ter um quê de feérico, de irreal”.

Bercito ainda sentencia tempos sombrios no horizonte pois é “difícil acreditar que centenas de mortos possam ser empilhados, conservados com gelo, sem que a gente perceba que alguma coisa monstruosa está espreitando o Egito”.

Mas não é possível imaginar que tal massacre desperte uma nova onda de levantes populares? Para alguns, como o jornalista Hani Shukrullah, o povo egípcio está cansado dos conflitos, “eles querem o fim da batalha”, além do mais, acredita que a Irmandade Muçulmana ganhou a rejeição de amplas camadas da sociedade, “é maior do que o ódio de Mubarak precisamente porque tentaram recriar um sistema autoritário”.

Tempos sombrios

 

Quando passamos em revista, ainda que superficialmente, a história recente do Egito, não encontramos um cenário animador. É verdade que se  olharmos para o país e seus vizinhos, vemos com clareza que a velha ordem regional se foi, mas qual é a nova? Se o Egito vive a instabilidade há quase três anos, que dizer da Líbia, onde milícias ocupam o lugar de Kadafi, enquanto as potências imperialistas dividem entre si as empresas do antigo regime? Ou então da Síria, onde o levante transformou-se em uma guerra civil com um saldo de 100 mil mortos? E a Tunísia que, após um processo de islamização, vive divisões cada vez mais profundas que retardam a redação de uma nova constituição?

Não restam dúvidas sobre a enorme disposição de luta, dos povos árabes, nem sobre o processo de profunda crise política e social pela qual atravessam esses países. Por outro lado, é difícil, diante dos fatos, defender que exista uma revolução em curso. Que força social progressista dá substância para tal análise? Em qual desses países, a classe trabalhadora consegue se organizar e alcançar uma consistente representação política? Quem hoje fala em “primavera”, “em revolução em curso” apoia-se exclusivamente no fato das massas estarem nas ruas, mas se esquece (ou omite) que elas vagam se direção, sendo jogadas em sucessivos massacres e banhos de sangue. O caso do Egito é emblemático, lá as massas são conduzidas ora pelos militares, ora pelas lideranças islâmicas, enquanto o Ocidente capitalista assiste e, porque não, faz disso um grande negócio.

Histórico
28.08.2013