Vaias e vaias

No estádio do Itaquerão, a vaia sofrida pela presidente Dilma durante a abertura da Copa foi identificada como uma manifestação da elite branca do país, ou seja, uma manifestação distorcida de uma minoria que não representa a voz do “povo brasileiro”. Ao menos esta foi uma versão bastante incentivada pelos setores de comunicação do PT, simpatizantes da presidente e jornalistas incomodados com a falta de educação do público no Itaquerão. Deixando de lado a natureza excludente e elitizante própria do evento, a pesquisa divulgada pelo IBOPE nesta semana contradiz a ideia de que repudiar a presidente Dilma só caiba a uma minoria endinheirada.

Na verdade, segundo os números do IBOPE, a rejeição ao governo Dilma vem aumentando desde o início do ano chegando neste fim de mês ao mesmo patamar de junho de 2013, época das grandes manifestações contra o aumento da tarifa. Hoje, somente 31% dos brasileiros avalia como ótimo ou bom o governo do PT, número bastante distante daqueles 75% com que Lula deixou a presidência em 2010. Como se vê, se o extrato de público fosse outro, provavelmente as vaias também existiriam no Itaquerão.

Mas o que isso influência nas eleições pós-Copa? A rejeição crescente ao governo se reflete na rejeição à candidata Dilma. É verdade que se em Dilma 43% dos eleitores não votam de jeito nenhum, em Eduardo Campos, 33% também não, e em Aécio Neves, 32 %; são números bastante expressivos para dois candidatos bem menos conhecidos que a petista. Isso comprova, por outro lado, que há uma grande desconfiança não apenas com Dilma mas com Aécio e Campos, ou seja, com as alternativas postas em campo pelos grandes partidos tradicionais da burguesia, um cenário ainda mais parecido com o de junho do ano passado quando todos os partidos eram repudiados. Outro fato nessa direção é o alto

índice de brancos e nulos, perto da casa dos 15%, o maior índice desde a primeira eleição direta no país, em 1989. Assim, para conforto de Dilma, muito provavelmente Aécio ou Campos também seriam vaiados no Itaquerão.

Quem pode ajudar a melhor entender o porque destes números é o próprio vice-presidente e candidato à reeleição na chapa de Dilma, Michel Temer do PMDB. Durante a convenção que referendou a chapa governista, Temer discursou: “vamos acabar com essa besteira que o governo Dilma trabalha apenas para um setor” (“os pobres” emendou Temer, ou, se quiserem, todos aqueles excluídos da Copa…). De fato, como disse o ex-presidente Lula, “nunca os empresários ganharam tanto” não tendo do que reclamar. E se hoje a hegemonia do PT no poder está de algum modo ameaçada, isto nada tem a ver com uma ofensiva da burguesia contra um governo dos trabalhadores.

O PT foi e continua sendo um excelente recurso da burguesia para bloquear a construção de uma alternativa verdadeiramente revolucionária no Brasil. Se setores da burguesia dão sinais de que podem debandar para as candidaturas de Aécio ou Campos é apenas porque estes setores não depositam a mesma confiança de outrora na capacidade que o PT demonstrou ter para segurar as massas. Chega-se, sem dúvida, num aprofundamento da crise da dominação burguesa no país.

No entanto, o jogo da luta de classes não pode ser medido por vaias e aplausos, ainda que a elite endinheirada e branca pense que sim; tampouco pode depender, como lembrou Zé Maria, pré-candidato do PSTU, do processo eleitoral burguês. De todo modo, ainda falta muito fôlego para que a esquerda socialista se apresente como alternativa. A seu favor pesa o aprofundamento da crise dos grandes partidos, uma economia estagnada e o retorno da inflação e do desemprego. Contra, uma massa que ainda permanece hesitante e desconfiada. Neste cenário, somente a auto-organização e a luta baseada em um programa sólido podem

despontar como o fiel da balança; quando esse momento chegar, aí sim o alambrado há de vir abaixo.

Histórico
24.06.2014