Uma das polêmicas da 29ª Bienal Internacional de São Paulo, o artista plástico pernambucano Gil Vicente quase teve seu trabalho censurado por um pedido do presidente da OAB SP, Luiz Flávio Borges D´Urso, à curadoria da mostra. Em nota pública, D’Urso argumentou que “não se pode impedir que uma obra seja criada, mas se deve impedir que seja exposta à sociedade em espaço público se tal obra afronta a paz social, o estado de direito e a democracia, principalmente quando pela obra, em tese, se faz apologia de crime”. Na obra “Inimigos”, criada em 2005, Gil Vicente se retrata assassinando personalidades como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso e o papa Bento XVI.
TS – Por que você “matou” essas pessoas?
GV – Eu fiz esses trabalhos em 2005, quando eu tomei consciência de que não adiantava a gente ter esperança. E eu tinha esperança ainda em Lula, mas em 2005 eu já tava puto da vida. E tava irritado com os absurdos de Bush, irritado com a Igreja, que aprova tudo isso. Bem dizer, eu vomitei os desenhos, porque eu tava tão indignado... Então eu escolhi Lula e Fernando Henrique pra mostrar que não era uma implicância específica com algum político, era com toda a raça. Pode parecer ingenuidade minha querer que haja justiça social. Mas por que não é pra ter justiça social? Por que as pessoas todas aceitam? Tem gente que vive do lixo, come do lixo e tem gente que nem isso tem.
TS – Os desenhos foram feitos depois do mensalão?
GV – Foi sim. E, em 2003, eu fiquei aguardando, com licença da expressão, que ele chegando ao poder, ia botar um pau bem grande em cima da mesa e “agora vai ser assim”. E foi igual a todo mundo. Era uma grande esperança, todo mundo chorou e tudo pra ver esse bosta fazer a mesma coisa.
TS – O título do trabalho é “Inimigos”. São inimigos de quem?
GV – São inimigos dos seres que não têm nada. São inimigos da justiça social. Esses caras, além de não fazerem nada, roubam dinheiro pra caralho. É tanto escândalo que a gente toma conhecimento e esses caras não têm nenhum castigo. Como é que o judiciário, a classe dos advogados do Brasil permite uma coisa dessas? Eu acho que devem levar dinheiro também.
TS – Um detalhe dos seus desenhos é que em quase todos você está com um revólver e no do Lula você está com uma faca...
GV – Isso foi um acidente. Porque eu fiz primeiro o de Bush e quando fiz o segundo, eu achava que cada desenho podia ter um tipo de morte diferente. Aí eu fiz o de Lula, mas logo percebi que isso ia desviar o roteiro principal. E eu queria concentrar o espectador naquela ação de eliminar aquela pessoa. Talvez naquele momento eu estivesse especialmente chateado com ele e quis fazer uma coisa mais dramática. Mas o importante era eliminar.
TS – E como você avalia hoje o governo dele? Esses últimos oito anos.
GV – Acho uma bosta, porque ele não fez nada pra esse pessoal que importa. Se a classe média melhorou, se tá consumindo mais, se o Brasil tá com mais dinheiro ou menos dinheiro, se tá sendo bem visto lá fora, eu tô cagando, entendeu? A minha prioridade e que eu acho que deve ser a prioridade em qualquer lugar são as pessoas que estão fodidas. São as pessoas que não têm educação, que não têm saúde, nenhuma assistência de nada. Então eu avalio como uma merda o governo de Lula, e como os outros vão ser também.
TS – Sobre a polêmica da OAB, de ter pedido a retirada dos seus desenhos, como você vê?
GV – De primeiro, eu fiquei assustado, achando que os desenhos iam ser retirados. Mas depois a coisa foi se configurando mesmo como um ato isolado desse cara. E todos esses lugares que eu expus, teve polêmica, mas 90%, 95% é gente que aprova o trabalho. Aí eu não pensava que pudesse ter essa repercussão. Claro, Porto Alegre e Recife ia ser menor que em São Paulo. Mas nunca imaginava que ia ter isso tudo e foi por causa da OAB.
TS – Até aqui algumas obras foram retiradas, aquela da Dilma. E a sua também teve a possibilidade de ser retirada. Teve a dos urubus também. Então, a arte, principalmente quando ela coloca uma questão política, ela tem liberdade realmente pra se manifestar?
GV – Isso é direito constitucional, né? Ela é na constituição, mas você vê que não pode, né? Porque reclamaram disso, reclamaram daquilo, taparam um trabalho, tiraram uma parte essencial de outro trabalho, que é o de Nuno, e quase que o meu ia ser retirado.
TS – Como está a situação hoje da classe artística com a produção política?
GV - Quando a ditadura acabou, tudo se aquietou, não tem mais subversivo, não tem mais movimento. E a classe artística durante o período militar estava sempre defendendo justiça social. Eu não sei até que ponto isso era incentivado por uma elite civil, porque acabou tudo. Por que agora todo mundo que reclamava não reclama mais? O país ficou bom, por acaso? Parece que as leis de incentivo à cultura fizeram calar os artistas todinhos.
TS – Nos seus desenhos, há uma negação total dessas figuras. Mas, além da execução que você propõe ali, o que você acha que as pessoas deveriam fazer?
GV – Eu acho que o povo deveria exigir punição muito severa, acho que até prisão perpétua pra quem roubar dinheiro público. Isso é o mesmo que roubar dinheiro de uma pessoa. Aliás, muito pior, porque você tá lá no poder pra fazer uma coisa pra todo mundo. E eu digo isso e as pessoas riem. É uma coisa tão óbvia, tão evidente, que as pessoas dizem “claro que não vai acontecer isso, Gil”. Mas por que a gente tá convencido de que não pode melhorar, que não pode ser de outra forma? Se vai ser assim, eu vou reclamar a minha vida inteira.
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