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“A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.”

–Marx, O capital. Livro I - Cap. XXIV, 1867.

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ELEIÇÕES 2010

Dilma e o avanço do bonapartismo

Conselho Editorial

22/08/2010
Dilma e o avanço do bonapartismo

“'berra o burguês furiosamente para a sua república: antes um fim com terror, do que um terror sem fim!' ...Bonaparte compreendeu esse grito”
Karl Marx, 18 Brumário.

A primeira manifestação daquela que seria a maior crise do capitalismo mundial desde 1929, a quebra do mercado imobiliário norte-americano, em 2008, voltou a ocupar as manchetes da grande imprensa internacional, nesta semana, quando foi anunciado o fracasso do programa de ajuda aos proprietários de imóveis em dificuldades, lançado pelo governo dos Estados Unidos em março de 2009.
Segundo noticiou a France Presse, cerca de 48 % dos 1,3 milhão de proprietários norte-americanos, ou seja 630 mil pessoas, tiveram a ajuda do governo cancelada. O motivo seria o não pagamento das parcelas renegociadas da dívida. A este fracasso, somam-se outros dados pessimistas divulgados esta semana, como o crescimento abaixo do esperado da economia norte-americana,  estagnação da produção no Japão, novas incertezas vindas da Europa.
No Brasil,  porém, os únicos números comentados são aqueles que apontam a disparada de Dilma na corrida presidencial. Segundo a pesquisa DataFolha, publicada neste último sábado, Dilma chegou a 47 % das intenções de voto, abrindo 17 pontos de vantagem em relação ao tucano José Serra, consolidando sua hegemonia à frente da corrida eleitoral, apontando para uma quase certa vitória no primeiro turno.
Antecipando-se aos dados divulgados pelo DataFolha, a equipe de marketing tucana usou a imagem de Lula no programa eleitoral televisivo de Serra. Buscando “colar” a candidatura de oposição a Lula e aproveitar sua popularidade recorde de 77 % dos brasileiros, Serra e sua equipe deram sinais de desespero.
José Serra se mostrou incapaz de criticar o governo Lula e o PT. Pior do que isso, vacilante, Serra procurou colar-se em Lula, ao mesmo tempo em que dizia-se oposição. Serra seria continuidade de Lula? Maior continuidade que Dilma? A vacilação de José Serra e de seus marqueteiros têm uma única razão: medo de Lula, medo do Bonaparte! Esta posição, no entanto, repete aquela mesma de 2005, quando o governo Lula cambaleante, a um passo da derrocada, foi absolutamente poupado pelo tucanato.
A impotência de Serra diante do Lula  não só sacramenta o esfacelamento do PSDB – o grande  partido da burguesia nacional – , como demonstra o terror que esta mesma burguesia tem da classe trabalhadora. E quem melhor que Lula para segurar a classe trabalhadora no Brasil?  Quem melhor do este governo com traços cada vez mais bonapartistas, ou seja, um governo corrupto, que costura alianças com os setores mais atrasados da política nacional, que quebra todas as regras da democracia burguesa em nome dos interesses privados, que pisa em cima das leis, que saqueia os cofres públicos, que ganha os miseráveis com migalhas e silencia os sindicatos, para segurar a revolta classe trabalhadora?
E diante disso tudo, diante do fracasso do projeto burguês de país – representado pelos anos FHC –, o que resta da candidatura de José Serra senão a mais absoluta sensação de impotência e fracasso? Por outro lado, Lula, como um verdadeiro bonaparte, soube como ninguém, impor, primeiro ao seu próprio partido uma candidata estranha a ele, depois, a fez à sua imagem e semelhança para toda a nação.
As conseqüências não serão, a curto prazo, as melhores possíveis. Logo os novos efeitos da crise mundial estarão sendo sentidos no Brasil. Toda a euforia do milagre brasileiro será lembrança de um  passado glorioso distante. Quando este momento chegar, a burguesia brasileira apelará a Dilma Roussef e fará como aquele burguês da França de 1851, descrito por Marx, que diante da crise econômica e da emitente revolta da classe operária berrou furiosamente: “antes um fim com terror, do que um terror sem fim!”. Lá, ainda escreveu ironicamente Marx, “Bonaparte compreendeu esse grito”.

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