Pense na caça estabelecida pela Polícia Militar aos alunos que cabulavam aula nesta última sexta-feira, 25, no Itaim Paulista. Os parques Chico Mendes e Santa Amélia foram fechados numa força-tarefa que envolveu 30 PMs, guardas civis e conselheiros tutelares. Mais de uma centena de adolescentes foram abordados, revistados e fichados; outros foram presos dentro de Kombis e levados até as suas escolas. Dois à delegacia. Poucos conseguiram fugir.
Pense nos companheiros do Acampa Sampa, na luta há mais de um mês em consonância com um movimento mundial e instalados há uma semana na Av. Paulista – principal ponto financeiro do país –, reprimidos pela Tropa de Choque da PM na madrugada deste sábado, 26, às 5h.
Pense nas recentes cenas da USP, nos mais de 400 policiais altamente equipados, na cavalaria, no GOE, no GATE, na ROTA, no CHOQUE. Pense também nos 73 estudantes presos.
Como ficar passivo diante de tudo isso? Como não concluir que a sociedade em que vivemos está doente?
Todas as esferas da sociedade em que vivemos estão sendo militarizadas. Conforme denunciado pelo coletivo em greve, praticamente todas as Subprefeituras da cidade de São Paulo foram militarizadas em apenas 3 anos. Em 2008 era apenas uma controlada por um Policial Militar. Hoje são 23, das 25 Subprefeituras da maior cidade brasileira! É o caso da Subprefeitura do Itaim Paulista, controlada pelo tenente-coronel reformado Sergio Payão, responsável pela ação do dia 25.
Mas, em última instância, o que tudo isso significa?
A sociedade "democrática" e o "nosso" Estado de Direito, apesar de parecerem coloridos e luminosos, são apenas uma espécie de mundo sub-lunar, a deformação de outra esfera onde se dão as relações essenciais da sociedade capitalista: a esfera da produção, o interior da fábrica, onde toda a riqueza é produzida e onde se vive uma verdadeira ditadura.
Abandonemos, por um instante, como diz Marx em O capital, "essa esfera ruidosa, existente na superfície e acessível a todos os olhos, para seguir (...) ao local oculto da produção, em cujo limiar se pode ler: No admittance except on business [Proibida a entrada, exceto a negócios]". Abandonemos a esfera da circulação, "verdadeiro éden dos direitos naturais do homem", onde reinam liberdade, igualdade e propriedade. Abandonemos essa esfera onde o "livre-cambista vulgaris extrai concepções, conceitos e critérios para seu juízo sobre a sociedade do capital e do trabalho assalariado".
Ao fazermos isso, conforme afirma Marx, nós, os personagens desse drama que se chama capitalismo, mudaremos a nossa fisionomia. Do sorriso engarrafado passaremos à náusea:
"Em seu impulso cego, desmedido, em sua voracidade por mais-trabalho, o capital atropela não apenas os limites máximos morais, mas também os limites puramente físicos da jornada de trabalho". [O Capital, “A jornada de trabalho”].
Ao entrarmos na instância da produção, toda e qualquer ilusão democrática se esvai. Veremos então que a realidade é uma tortura diária sobre a classe operária. Trata-se de um pleno controle, onde o tempo é cobrado de forma rígida e a vigilância é constante, para saciar a fome do grande capital. Àqueles que ousam andar fora da linha: permanente ameaça de demissão, horas extras e trabalho aos finais de semana!
Os lutadores são demitidos antes de desenvolverem qualquer trabalho político. Basta perguntar, com pesar: que restou dos companheiros de luta da Volkswagen Anchieta não alinhados com o sindicato da governista CUT? Que foi feito com vários companheiros
da Comissão de Fábrica e da oposição dos trabalhadores?
O que se passa hoje, como vemos, com a repressão à juventude, é uma extensão para as ruas, praças, escolas e universidades da ditadura existente permanentemente na esfera da produção. De dentro da fábrica, a ditadura avança para toda a sociedade.
Ainda que não se perceba, isso tem uma significação profunda: acirram-se as contradições dentro da própria esfera da produção. A esfera da produção já é incapaz de conter normalmente as suas contradições. A classe operária não suporta mais a pressão do desemprego e o rebaixamento dos salários. Eleva-se a temperatura da panela de pressão e, consequentemente, as tensões da sociedade capitalista. O apito começa a soar.
No mundo todo, a juventude é esse apito da panela de pressão. Não disposta a aceitar a retirada dos seus direitos democráticos mínimos, os jovens de todo o mundo saem às ruas em busca de uma realidade menos morta, contra o militarismo e a burocracia, em busca de alguma perspectiva de vida. Seja na USP, seja nas periferias das grandes cidades, como em Itaim Paulista, na Zona Leste de São Paulo, o apito começa a soar.
Os jovens que hoje se colocam em luta espontaneamente nos ensinam que a esfera da circulação também tem sua importância, embora subordinada. Influenciada, talvez inconscientemente, pelos levantes da classe trabalhadora mundial, a luta dos jovens Brasil pode servir de sinal para a classe brasileira se levantar, isto é, a luta dos estudantes pode ser um fenômeno que atue sobre a classe operária, desencadeando protestos, paralisações e greves, abrindo o caminho para que se manifestem contradições ainda maiores, as contradições na instância fundamental da produção.
Talvez não por coincidência, em assembléia estudantil realizada recentemente no prédio da Faculdade de Arquitetura da USP, os estudantes reeditaram a histórica foto de 1977, quando milhares de estudantes lutavam contra a ditadura. Cerca de dois anos depois iniciaram-se as grandes greves dos metalúrgicos do ABC.
A conjuntura de hoje, certamente, é diferente daquela do final da década de 1970 e nenhum caminho está dado a princípio. Mas a revolta da juventude contra a PM na USP poderá ser ouvida pela classe trabalhadora, sobretudo hoje, quando o capitalismo enfrenta o retorno da mais profunda crise econômica mundial já vista, aquela desencadeada em 1929.
O apito da panela de pressão anuncia:
SOA A HORA FINAL DA SOCIEDADE CAPITALISTA!
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