O verdadeiro significado da Revolução Russa de 1917

O dia 7 de novembro de 2017 foi oficialmente a data em que se completaram 100 anos da Revolução Russa de 1917 (no calendário juliano, então utilizado na Rússia, a data era 24 de outubro, e por isso essa revolução é conhecida como “Revolução de Outubro”). Tamanha foi a importância desse evento, que mesmo a burguesia é hoje obrigada a falar dele. Ela o faz, é claro, com um recorte ideológico, apresentando aquilo ou como algo fortuito, um acidente da história, ou como um golpe, uma ditadura de uma minoria (como as ditaduras burguesas), ou como uma tragédia na qual já estaria necessariamente contido o stalinismo.

É evidentemente necessário combater todas essas falsificações históricas. Todavia, o melhor combate é sem dúvida o da ação, o da realização de outra revolução como a de Outubro. Isso só é possível compreendendo-se a profunda lógica produzida por essa revolução e o que ela nos legou em sentido conceitual. As revoluções têm leis próprias, mas universais. Quanto a isso, infelizmente, a esmagadora maioria das análises da esquerda hoje é limitada. Elas são em geral apenas presas ao passado, ou seja, historicistas – tentam explicar porque ocorreu o evento, tentam explicar que o stalinismo não era um resultado necessário da revolução, etc. Esse momento da análise é importante, como falamos, mas não basta; não traz síntese, não contém em si o significado mais profundo, conceitual, da Revolução de Outubro e sua relação com a tradição marxista. Sobre esse significado mais profundo trataremos neste texto.

1. A Revolução Russa assenta a estratégia da dualidade de poder – meio caminho andado

O primeiro elemento importante da Revolução Russa de 1917 foi assentar definitivamente o caminho da dualidade de poder como a estratégia revolucionária do proletariado por excelência. Essa é a via da necessária construção de um poder da classe trabalhadora, independente do poder burguês, paralelo a este e contraposto a este, que deve substituí-lo na hora certa. A rigor, não há um caminho por dentro do Estado oficial. Se os atuais revolucionários compreenderem isso a fundo, já terão andado meio caminho na compreensão do significado conceitual da Revolução Russa.

Essa via da dualidade de poder já surgira em gérmen antes de 1917, ocasionalmente. Primeiramente, na revolta dos operários tecelões de Lyon, na França, Les Canuts, rapidamente esmagada por tropas francesas. Após isso, na Primavera dos Povos, em junho de 1848, em Paris, na França, e também na Alemanha ocidental (como comprovam Marx e Engels, no famoso balanço chamado “Mensagem do CC à Liga dos Comunistas”, de março de 1850, onde se defende conselhos).

Note-se que o Manifesto Comunista, publicado no início de 1848, é relativamente dúbio quanto à estratégia da dualidade de poderes, justamente porque Marx e Engels não haviam passado ainda particularmente pela experiência da dualidade de poderes na França e na Alemanha. Por isso, as “10 medidas” a serem reivindicadas ao final do item II do manifesto não deixam claro se se deve tomar o Estado atual, ou se se deve criar um paralelo. Marx e Engels mudarão sua concepção sobre o Estado após a terceira grande experiência histórica da classe trabalhadora – a Comuna de Paris.

Com a Comuna de Paris, quando a classe operária tomou o poder nessa importante cidade europeia por mais de 60 dias, ficou claro o caminho a ser conduzido pela classe operária: o poder dual, que derrota o Estado burguês e estabelece a ditadura do proletariado. É isso que Marx reconhece em seu livro Guerra Civil na França, fazendo um balanço da Comuna. Aliás, isso faz com que Marx e Engels repensem o que haviam escrito em seu próprio Manifesto do Partido Comunista de 1848. É por isso que eles negam, expressa e literalmente, em prefácio de 1872, os 10 pontos ao final do item II do Manifesto, justamente porque as medidas ali defendidas acabavam sendo, na prática, dizem eles, medidas a serem reivindicadas ou aplicadas pelo Estado burguês. Eles ali mantinham ainda, em 1848, certa ilusão, dizem eles mesmos, de que o Estado poderia ser como uma casca vazia a ser preenchida por qualquer conteúdo.

Marx e Engels negavam, portanto, reivindicações estatais-burguesas como “Educação Pública e de qualidade para todos” (reivindicação que, aliás, mostra Marx em O Capital, advém de Adam Smith, o dito pai do liberalismo); “imposto fortemente progressivo”, entre outras reivindicações. Que dizer da esquerda que, ainda hoje, defende essas coisas, negadas por Marx e Engels no prefácio de 1872 ao Manifesto, prefácio justamente escrito após a Comuna?

Seja como for, após a Comuna, há a experiência dos Sovietes Russos de 1905 e, após ela, a de 1917. Os sovietes de 1905 e 1917 assentaram definitivamente a estratégia da dualidade de poder, mas numa forma ainda mais determinada, mais rica, como algo que se ergue a partir dos comitês de fábrica, que se lastreia nesses comitês, e deles, de sua generalização, alcança todos os setores populares na forma dos sovietes (conselhos). São órgãos econômicos e políticos ao mesmo tempo. É exatamente por isso que Lenin, no Esquerdismo, doença infantil do comunismo, inicia o livro com um capítulo sobre “O caráter universal da Revolução Russa” – ou seja, Lenin defendia que o caminho da dualidade de poderes (comitês e sovietes) produzido pelos russos seria universal, aplicável em todos os países.

Todavia, devido às condições excepcionais do isolamento internacional, do comunismo de guerra, da Guerra Civil na Rússia entre 1919 e 1921, os sovietes pararam de funcionar. Isso não contradiz o fato de a Revolução Russa de 1917 assentou a estratégia da dualidade de poder, mas possibilitou a reabertura da discussão, dentro do marxismo, sobre a via estratégica da tomada do poder. Ou melhor: possibilitou o revisionismo histórico. Ressurgiram antigas interpretações reformistas, como a da segunda fase de produção intelectual de Gramsci, interpretações que mantêm certas ilusões quanto ao papel do Estado oficial, burguês, na luta de emancipação do proletariado.

Na verdade, essas relativizações têm uma longa trajetória; começam já com a IIa Internacional ao final do século XIX. Apesar de ter sido falsificada pelos dirigentes da social-democracia alemã ao final do século XIX, a “Introdução” escrita por Engels ao livro de Marx As Lutas de Classe na França 1848-1850 contém certa dubiedade sobre o caminho para a tomada do poder. Essa dubiedade aparece também, embora de forma superficial, em outros textos desse último período da vida de Engels (como no prefácio à edição inglesa de 1886 de O capital). Após Engels, e concomitante com grande vulgarização do marxismo ao final do século XIX, a dubiedade ressurge redobrada no principal dirigente da IIa Internacional: Karl Kautsky. Vale lembrar as relevantes polêmicas entre Kautsky e Rosa Luxemburgo, em 1910, a respeito da “estratégia de desgaste” (Ermattungsstrategie) e a “estratégia de destruição”  (Niederwerfungsstrategie). Trotsky, que assistiu a algumas dessas polêmicas entre os dois, tinha clareza de que se tratava de uma adaptação da Social-Demoracia Alemã ao Estado burguês, e que essa adaptação, na verdade, em vez de produzir um “desgaste” no Estado, produzia apenas um desgaste na força de luta do proletariado.

Sabe-se que Gramsci, ao final da década de 1920, prisioneiro dos fascistas, revisando a experiência russa, começa a relativizar a universalidade da via soviética e volta à dicotomia de Kautsky e da II Internacional, defendendo a necessidade de uma guerra de posições no Ocidente, como mediação para uma guerra de movimento. Gramsci acusa Trotsky de ser o principal teórico da estratégia da dualidade de poder. Essa dicotomia produzida agora por Gramsci entre guerra de posição e guerra de movimento, assim como a anterior (“desgaste” versus “destruição”), é tirada das lições do general alemão Clausewitz, e não serve para o marxismo, na exata medida em que reproduz uma lógica estanque, dicotômica, como aquela lógica pobre da IIa Internacional que opunha um “programa mínimo” a um “programa máximo”. O marxismo que essencializa essas oposições tiradas de Clausewitz é justamente aquele que não consegue superar dicotomias não dialéticas; que opõe o desgaste à destruição, o econômico ao político e o mínimo ao máximo. Infelizmente, boa parte do trotskismo não só cai nessa dicotomia, como recupera Gramsci e faz um ecletismo sem fundamento desse autor com Trotsky. Esse caminho é condenado e condenável, como comprova, por exemplo, a própria história do PT brasileiro.

Na verdade, a Revolução Russa de outubro de 1917, ao mesmo tempo em que assentava a estratégia da dualidade de poder, assentava uma certa lógica não-dicotômica, que não trabalha com um “mínimo” oposto a um “máximo”, que não trabalha com um “econômico” oposto a um “político”, que não trabalha com um “desgaste” oposto a uma “destruição”. Portanto, a Revolução Russa ajudou a assentar não apenas a dualidade de poder, mas propriamente a lógica dialética da revolução – o caminho que é ao mesmo tempo mínimo e máximo, econômico e político, de desgaste e de destruição.

2. Os bolcheviques buscam a verdadeira dialética dentro da dualidade de poder — dois terços do caminho andados

Por mais importante que seja assentar a dualidade de poder como a estratégia revolucionária do proletariado – ou seja, como aquilo que separa os revolucionários dos reformistas pequeno-burgueses –, havia ainda uma segunda tarefa fundamental a se realizar. Separar-se dos reformistas, na verdade, é apenas um primeiro passo. Parar nele é parar a meio caminho. O que caberia ainda, refletiam os bolcheviques após outubro de 1917, seria compreender como tornar essa estratégia viva e, sobretudo, não dogmática. Não basta compreender que a estratégia é a dos conselhos. Se ficarmos gritando por conselhos, como esquerdistas, ninguém nos dará ouvidos. É preciso compreender e conceber uma forma dialética de ação em que a luta mínima dos trabalhadores desemboca necessariamente nos Conselhos e estes levam necessariamente à tomada do poder pelo proletariado, ou seja, era preciso encontrar a forma em que a luta mínima e máxima seria uma só coisa, como uma unidade contraditória, e não uma dicotomia; seria preciso compreender as reivindicações como um processo, como um sistema de reivindicações; seria preciso deduzir o eixo dialético desse sistema de reivindicações, responsável por fazer a ponte do presente atual até a revolução. Em suma: era preciso concretizar a estratégia da dualidade de poder (forma) com a noção das reivindicações transitórias (conteúdo).

Essa é a preocupação principal dos bolcheviques após a tomada do poder, e é por isso que debatem tanto quando criam a IIIa Internacional. A partir da própria prática da revolução, refletindo sobre o que fizeram, começam os bolcheviques a questionar a diferença, assentada pela Social-Democracia e a IIa Internacional, entre um programa mínimo (econômico) e um programa máximo (político), opostos entre si. Os bolcheviques querem fazer uma superação dialética dessa dicotomia entre mínimo e máximo, mas demoram um pouco para realizar a síntese teórica.

Em 1921, no IIIo Congresso da IIIa Internacional, Trotsky escreve a Tese sobre a situação mundial e a tarefa da Internacional Comunista. Lá já aparece a ideia de que os comunistas devem dirigir os combates defensivos (e esse é o termo de Trotsky), alargando tais combates, aprofundando-os, agrupando-os e os transformando em outra coisa: no combate pela tomada do poder. Para mostrar a diferença entre esse programa e o programa da social-democracia, Trotsky, Lenin e Radek chamam essas reivindicações defensivas de reivindicações “parciais”. Surge, pela primeira vez, nos textos desses três autores (que combatem o esquerdismo de um setor da internacional, dirigido por Zinoviev, Bordiga e outros), a noção de “sistema de reivindicações”, que demarcaria etapas ou momentos da luta pela tomada do poder.

Todavia, ainda não fica claro como cruzar essas etapas. Os bolcheviques querem encontrar um conceito mas ainda não o encontram plenamente. Eles querem uma lógica dialética, em que o máximo já esteja contido na mínima luta – e, por isso, o máximo “arrastaria o proletariado” para frente. Mas como ainda não há dialética e não há propriamente a noção de transição, a noção de “reivindicação parcial” tende a substituir a de “reivindicação mínima” e recria-se a oposição estanque com a reivindicação “máxima” (tomada do poder). Os bolcheviques, por isso, tendem ainda a fazer uma soma ou justaposição entre as duas reivindicações. Não há síntese: trata-se de agitar, ao mesmo tempo, as reivindicações parciais e as máximas, para que as máximas puxassem de alguma forma as mínimas para frente. Ora, ainda hoje vemos muito a nossa esquerda fazer esse tipo de coisa!

É só o IV Congresso, realizado em 1923, que resolve o problema conceitual do anterior. Os bolcheviques abandonam finalmente a oposição entre programa parcial (mínimo) e programa máximo; passam a falar de “reivindicações transitórias”, bem como de um “sistema de reivindicações transitórias”. Isso é um grande passo conceitual, pois agora, em vez de se pensar numa dicotomia, pensa-se numa coisa só que é uma unidade contraditória, algo que dialeticamente se expõe, que dialeticamente se transforma, que parte do aparentemente apenas econômico (mínimo) a chega ao aparentemente apenas político (máximo), demonstrando que esses dois elementos já estavam juntos desde o início.

Ainda assim, a reflexão e a síntese do programa não estavam absolutamente finalizadas, e o IV Congresso atribui ao V perfazer a síntese geral, concretizando finalmente o programa. Todavia, a reação termidoriana e stalinista interna à URSS impede esse movimento e faz todo o avanço teórico se perder. O V Congresso realizou-se entre junho e julho de 1924. Grande mudanças se passaram: Lenin morrera, Rádek fora expulso do Comitê Central do Partido Bolchevique e Trotsky fora colocado de escanteio pela troika Zinoviev-Kamenev-Stalin.

No V Congresso haverá a virada “esquerdista”, a chamada “bolchevização” da IIIa Internacional, dirigida por Zinoviev. A noção de “reivindicações transitórias” desaparecerá e voltar-se-á a falar em “reivindicações parciais”, bem como se enfraquecerá a noção de “sistema de reivindicações”. Voltar-se-á à ideia de que o máximo esquerdista pode ser agitado ao mesmo tempo em que o mínimo, numa mera justaposição, sem dialética, para supostamente puxar o mínimo para frente. Assim se vai do particular ao universal, pensavam eles. Mas, na estratégia verdadeiramente marxista, dialética, não se vai do particular ao universal, e sim do universal abstrato ao particular, e se retorna ao universal de forma concreta. Ora, com a concepção errônea da IIIa Internacional, a multiplicidade particular tática, sem qualquer universalidade, se sobrepôs à estratégia, e assim restou apenas a suposta “flexibilidade tática” do bolchevismo (na verdade, do stalinismo), que passou a justificar qualquer coisa em qualquer situação. Não havia mais princípio!

3. Trotsky, isolado, no combate, junto com a oposição de esquerda, completa o caminho

Como vimos, Lenin morrera em 1923. Radek, como se sabe, ao final, sofrendo pressão, capitulou a Stalin e abdicou de suas posições anteriores. Da luta dos mais eminentes bolcheviques pela elaboração da estratégia da Internacional Comunista, restou apenas Trotsky. Três elementos são fundamentais, como veremos, para a síntese que Trotsky fez do significado mais profundo da Revolução Russa:

1) Seu livro A História da Revolução Russa;

2) A greve geral francesa de 1934;

3) A relação com os operários da região capitalista mais avançada, os EUA.

Seu importante livro A História da Revolução Russa pode ser pensado como o mais sério estudo para se fazer uma síntese do que a classe operária russa, junto com o partido bolchevique, fez em 1917. É um livro sobretudo para compreender todas as minúcias e meandros da aplicação da estratégia da dualidade de poder (as leis gerais de um processo revolucionário); para se compreender como o partido (elemento subjetivo) se relaciona com as massas numa situação revolucionária; para se compreender como a dualidade de poder se reveste sempre de uma capa defensiva (e, ainda assim, amplia-se e generaliza-se até abarcar todo o poder burguês).

Quando da capitulação e condenação completa da III Internacional, em 1933, quando o stalinismo capitula diante de Hitler e permite ascensão do nazismo, Trotsky vê a necessidade de uma nova Internacional, a IV, e começa a refletir sobre o programa dessa nova internacional. Para isso, ele retoma toda a discussão dos bolcheviques no período sadio da III Internacional, ou seja, nos quatro primeiros congressos, e parte justamente da noção de “reivindicações transitórias”. Ele achava, em 1933, que demoraria apenas alguns meses para escrever o programa da nova internacional, todavia demora cinco anos! Alguns acontecimentos fundamentais da década de 1930, muito longe de afastá-lo da redação, apenas ajudaram-no a determinar mais e mais, de forma dialética, esse programa, que ficará sintetizado no programa da IV Internacional, o chamado Programa de Transição.

Para compreender isso, é importante notar, antes de tudo, a redação do Programa de Ação para a França, em 1934 (quando Trotsky se encontrava escondido na França), escrito para ser o programa da futura seção francesa da IV Internacional. A ele nos ateremos rapidamente, justamente por ser sempre lembrado como um proto-Programa de Transição. Nesse programa para a França de 1934 já aparece o desenvolvimento geral que em 1938 constará no Programa de Transição: parte-se da luta sindical operária por salário e emprego para se abrir a dualidade de poder que, ampliando-se e generalizando-se, por meio de um sistema de reivindicações, articula cada vez mais setores proletários e populares, criando as condições para a derrubada do Estado burguês e assunção do poder pelo proletariado.

Entretanto, há no Programa de Ação para a França, se comparado com o Programa de Transição, uma diferença fundamental: parte-se realmente das reivindicações mínimas, das reivindicações sindicais usuais do movimento operário, para delas tentar desencadear a via da dualidade de poder. Ou seja: não se parte, como no Programa de Transição, das escalas móveis de salário e de horas de trabalho combinadas (as reivindicações que serão depois chamadas de “transitórias” por Trotsky) – elas nem mesmo existem nesse programa para a França –; parte-se da luta sindical pela diminuição das horas de trabalho para 40h semanais e da reivindicação de “aumento geral dos salários”, para se abrir, a partir daí, o poder operário paralelo ao poder burguês.

O que provocou a modificação tão profunda entre o Programa de ação para a França e o Programa de Transição? O que se passou entre 1934 e 1938 para que se mudasse definitivamente a forma inicial do programa de Trotsky? Dois elementos fundamentais: a greve geral francesa de 1936 e a relação estreita do revolucionário russo com o movimento sindical norte-americano.

Entre 1934 e 1938, exatamente, ocorreu a importante greve geral francesa de junho 1936 (que, a rigor, se estendeu até a Bélgica). Trotsky caracterizou a situação como o início da revolução na França. Diante da crise crescente na economia francesa (e mundial) na década de 1930 e o rebaixamento do nível de vida das massas, os setores mais dinâmicos da classe trabalhadora francesa se colocaram em luta. A demissão de dirigentes sindicais fez estourar um processo de greves que logo unificaram-se em torno das reivindicações tradicionais do movimento operário (justamente as reivindicações pela diminuição da jornada para 40h e por um “aumento geral dos salários”, ou seja, as mesmas contidas no Programa de ação para a França, escrito dois anos antes). Com a radicalização do movimento, iniciou-se uma onda de ocupações de fábricas e criação de Comitês de Fábrica (os passos iniciais da dualidade de poder), que durou mais de um mês. No dia 10 de junho de 1936, os operários deram um ultimato à burguesia, ameaçando colocar as fábricas para trabalhar por conta própria, caso as suas reivindicações não fossem atendidas. A situação era revolucionária e os operários estavam a um passo de dar um golpe decisivo no poder burguês no coração da Europa. A burguesia, morrendo de medo, deu os anéis para não perder os dedos; cedeu em tudo (e teve medo, inclusive, de reprimir a greve, pois isso poderia gerar uma contrarresposta e radicalização por parte do movimento operário). O “Acordo de Matignon”, firmado então, aceitava a redução da jornada para 40 horas semanais, com direito a férias, o aumento geral dos salários reivindicado, a readmissão dos dirigentes sindicais demitidos e o reconhecimento dos delegados sindicais por empresa. Os stalinistas (que dominavam os principais sindicatos metalúrgicos) e os socialistas logo aceitaram a proposta e rapidamente se lançaram na desarticulação da greve e das ocupações. Tiveram sucesso e conseguiram, assim, salvar a ordem burguesa mais uma vez.

Trotsky se pôs a refletir seriamente sobre aquela experiência. Como foi possível chegar tão perto e, entretanto, não avançar para a tomada o poder? Qual foi o passo em falso no processo? Como foi possível não avançar no caminho legado pela experiência de 1917? Teria sido apenas a capacidade desarticuladora do stalinismo? Segundo o revolucionário russo, o problema era mais profundo, era também programático: “Os operários (…) não a levaram [a pressão sobre a burguesia] até o fim. Revelaram a sua potência revolucionária, mas também a sua fragilidade: a ausência de programa e de direção”. Entretanto, não era exatamente aquele programa mínimo reivindicado (semana de 40h e aumento salarial) o que constava no Programa de ação para a França, escrito pelo próprio Trotsky? Como dizer que os operários não tinham programa se, desde 1934, aquele era de fato o programa sindical da seção francesa da futura IV Internacional, e, a partir de tais reivindicações, se abriu a via da dualidade de poder que se espalhou pelo país? Ao que nos parece, Trotsky se põe a refletir sobre as consequências daquele programa redigido por ele mesmo. Como diz:

“A oligarquia financeira, que realiza negócios magníficos no pior da crise, pode certamente acomodar-se com a semana de 40 horas, as férias pagas, etc., mas centenas de milhares de médios e pequenos industriais, sobre os quais se apóia o capital financeiro e sobre quem ele agora faz recair os custos de seu acordo com Blum [presidente francês pela Frente Popular] devem, seja arruinar-se docilmente, seja tentar, por seu turno, fazer cair os gastos das reformas sociais sobre os operários e camponeses, assim como sobre os consumidores em geral”.

Assim, o acordo que pôs fim à greve geral era relativamente aceitável para o grande capital. Para este, era importante aceitar o acordo para não perder a propriedade dos meios de produção, mas era preciso miná-lo no médio e longo prazo, para não ver minada a su própria economia, graças à ruína dos capitais menores. Para o grande capital, tratava-se de aceitar o acordo para desbaratar o movimento grevista e preparar a contra-ofensiva, retomando o terreno econômico. O acordo tinha essa fragilidade: permitia ao capital, no médio e longo prazo, jogar os custos da crise novamente sobre os ombros da classe trabalhadora e das camadas médias. Como isso seria feito? Explicava Trotsky: “via redução dos custos de produção [ou seja, demissões] e inflação”. Como disse Trotsky, os operários já “protestam contra o fato de que o aumento dos preços, que apenas começou, possa devorar suas conquistas”.

A fragilidade desse programa era a seguinte: ele podia ser momentaneamente atendido, facilitando a desarticulação da luta, e abria uma situação em que a burguesia poderia passar seu débito à classe operária. Pior: não só à classe operária, mas também às classes médias (a pequeno-burguesia do campo e da cidade), para as quais a burguesia poderia falar que a responsável pelo novo débito era a “aventureira” classe operária grevista. Dessa forma a burguesia podia jogar a pequeno-burguesia contra a classe operária, criando objetivamente as bases para o fortalecimento do fascismo (que, como se sabe, é a mobilização dos setores médios pelo grande capital contra a classe operária). Explica Trotsky:

“Tendo em suas mãos todas as alavancas fundamentais da indústria, do crédito e do comércio, os magnatas das finanças fazem recair os custos do acordo [de Matignon] sobre as ‘classes médias’, obrigando-as dessa forma a entrar em luta contra os operários. Atualmente, esse é o nó da situação”.

Trotsky levou em consideração tudo isso. Foi refletindo seriamente sobre a experiência da greve geral francesa de junho de 1936 que ele se afastou do programa redigido por ele mesmo em 1934 para a seção francesa, o Programa de ação para a França. Era preciso negar mais profundamente o programa mínimo ou parcial da burocracia sindical, para encontrar o programa propriamente dialético ou transitório. Para aprofundar sua reflexão em busca desse programa, será muito importante também, como dissemos, a relação de Trotsky, já no México (único país que o acolhera, ao final de 1936, após ser expulso da Noruega), com os operários norte-americanos, sobretudo as discussões com os dirigentes do Socialist Workers Party (SWP), a futura seção norte-americana da IV Internacional.

Lembremos uma importante passagem dessas discussões, justamente sobre a escala móvel das horas de trabalho. Diz Trotsky:

“Mas, no fundo, o que é essa reivindicação [escala móvel das horas de trabalho]? Na verdade, é a descrição do sistema de organização do trabalho na sociedade socialista. O número total de horas necessárias divididas pelo número total de trabalhadores. Mas, se apresentarmos logo de início o sistema socialista, nós seremos chamados de utopistas pelo americano médio, que dirá que essas são ideias importadas da Europa.(…) É o próprio programa socialista, mas na sua forma mais simples e mais próxima das massas.”

Como fica claro durante a discussão com membros do SWP, as escalas móveis, combinadas, são já a descrição do sistema econômico de uma sociedade socialista, mas aparecem no presente da forma mais simples e conservadora (na medida em que apenas conservam o nível de vida da classe trabalhadora). Na Europa o “salto” do “econômico” ao “político” (para ainda usar a distinção mecânica, não-dialética, da segunda internacional) era mais fácil, devido à sua história política particular. Já na América, não; na América, o abismo entre o “econômico” e o “político” era gritante e exigia, necessariamente, um aparente “econômico” que fosse, em essência, “político”; um “econômico” que contivesse em si mesmo um “político”, ou seja, um programa que não fosse, ao mesmo tempo, nem econômico nem político, e fosse, ao mesmo tempo, econômico e político, ou seja: um programa dialético, transitório. Em vez de dicotomia, era necessária a unidade dialética. Sem esse tipo de programa, em países como nos EUA, o “salto” que levava das reivindicações usuais para a abertura da dualidade de poder estaria muito comprometido; o que ocorrera na França em 1936, com a generalização da dualidade de poder a partir da luta sindical, dificilmente ocorreria nos EUA, e a luta tenderia a ser sempre apenas sindical em âmbito estreito (mínimo). Tratava-se de encontrar, então, em sentido mais profundo, a imanência do programa marxista. Essa imanência, na qual vive em sua forma mais profunda e não-dogmática o marxismo e a própria revolução russa, ficou sintetizada historicamente no Programa de Transição, até hoje o documento mais importante legado a nós pelos bolcheviques. Ou, como disse certa vez Trotsky:

“Este programa não é a invenção de um homem. É o resultado da longa experiência dos bolcheviques. Eu repito: este programa é a concretização da longa experiência coletiva dos revolucionários. É a aplicação dos velhos princípios à situação atual.”

Se queremos aqui, no Brasil, fazer verdadeira homenagem à Revolução Russa, nossa tarefa básica, número um, é tirar esse programa histórico do esquecimento (esquecimento produzido também pelos “trotskistas”) e armar com ele os grandes batalhões da classe operária brasileira!

Editoriais
08.11.2017