O ânimo das massas e o “Fora Temer”

O governo Temer será um governo de crise permanente. Veja-se o caso Jucá, homem forte do governo. Isso não significa que as massas queiram derrubar este governo já. Há um receio generalizado nas massas de piora rápida e acelerada da situação econômica em caso de ainda maior instabilidade. Por mais que não gostem de Temer, mostram as pesquisas que as massas preferem ou deixá-lo no lugar ou convocar novas eleições. As massas não estão de modo algum erguendo o “Fora Temer”. As exceções são os meios pequeno-burgueses, que até ontem apoiaram Dilma diretamente ou pela “neutralidade” esquerdista.

As massas da classe trabalhadora são muito conscientes – em geral mais conscientes do que a chamada “esquerda”. Elas tinham total consciência de que Temer entraria no governo com a saída de Dilma. Elas se sentem até, em certa medida, responsáveis por Temer (o que pode desenvolver nelas até certa tolerância a essa figura nefasta). Por isso, achar que elas querem já a derrubada do governo é algo pueril (ou considerá-las ignorantes ou estúpidas, o que é uma forma de elitismo).

As massas veem Temer como um certo mal necessário porque, é evidente, com a continuidade de Dilma no governo em pouco tempo haveria um caos econômico no país; a desmoralização do Estado burguês e sua crise fiscal em pouco tempo redundariam numa crise de liquidez do sistema financeiro interno e, consequentemente, numa crise de produção com um grau catastrófico de aumento do desemprego e inflação dos produtos de primeira necessidade. Algo talvez semelhante ao que se passa hoje na Venezuela (a despeito das grandes diferenças da economia desses países).

As massas, apesar de muito conscientes, têm ilusões. A primeira é acreditar na possibilidade de moralização da política nacional com Temer. A composição atual do governo Temer evidencia um governo paródia do de Dilma. Henrique Meirelles foi colocado para retomar a confiança dos mercados. Ao mesmo tempo, imprimirá à sua política econômica a mesma submissão ao setor financeiro do capital, que caracterizou tanto o PT, e que aprofundou o caráter primário e submetido ao rentismo da economia brasileira. A nomeação de Leonardo Picciani para a chefia do Ministério dos Esportes, em pleno ano de Olimpíada, que torna esse ministério central, à luz dos holofotes, revela a submissão de Temer aos setores do PMDB mais próximos do PT. A expressa intenção, pelo ministro Geddel Vieira, de manter o golpista Waldir Maranhão à frente da Câmara dos Deputados revela também um governo frágil, que teme mexer mesmo nos aliados mais inconsequentes, ocasionais e estapafúrdios do PT. E a figuração, à frente do governo, de personagens como Romero Jucá, liderança política em todos os governos nas últimas décadas, inclusive do PT, revela que tudo mudou para continuar igual.

A imposição de André Moura (PSC) como líder da bancada do governo na Câmara dos Deputados revela que a chantagem do “centrão” continuará a mesma, ou seja, a atual relação do legislativo com o executivo seguirá. Temer queria Rodrigo Maia (DEM), mas teve de aceitar André Moura, a principal figura da tropa de choque de Eduardo Cunha. É mais do que claro que isso foi imposição de Cunha. André Moura, além de investigado na Lava-Jato e na Zelotes, é investigado em mais cinco processos, num deles acusado de homicídio. A chantagem do “centrão” (ex-“blocão”, o que há de mais decadente e falido no Legislativo, criado nos anos do PT), em nome de cargos e emendas, seguirá paralisando o poder Executivo.

Temer tentou, portanto, livrar-se do “centrão” fisiológico, mas não conseguiu; tentou diminuir o número de ministérios de 32 para 20, mas conseguiu 23, depois teve de retomar o da “Cultura”, aumentando para 24, e agora cogita transformar, por medida provisória, em ministérios os postos no Banco Central e na Advocacia-Geral, possivelmente fechando as contas em 26 ministérios. Jamais se viu um governo iniciar de forma tão vacilante, tendo de recuar em todas as suas pretensões. O caráter de falência geral do sistema político perdurará e se aprofundará, portanto, contrariamente à expectativa das massas, não haverá qualquer tipo de “moralização” da política por essa via. Será preciso buscar outra.

É sintomático que, como já analisamos, o PSDB tenha entrado no governo. O PSDB também vacilou; anunciou numa semana que entraria, na seguinte, que não entraria, e na outra acabou entrando. Por que o PSDB fez isso, quando já era evidente que o governo Temer sofreria as mesmas pressões políticas, e se caracterizaria como um governo Dilma enfraquecido? Porque o PSDB tem contradições internas e pretensões de vários de seus membros à candidatura presidencial em 2018. Sobretudo José Serra buscou os holofotes, definiu que entraria no governo mesmo à revelia do PSDB, e acabou arrastando o partido todo para dentro, pois seus concorrentes internos temiam ficar para trás. Assim, Aécio Neves buscou impor seu filhote Bruno Araújo na condição de Ministro das Cidades, e Geraldo Alckmin impôs seu filhote Alexandre de Moraes no Ministério da Justiça. Todos tentam assim, por meio de espaço, visibilidade, e alavancas no Poder Executivo, garantir vias abertas para a concorrência em 2018.

Acontece que todos os figurões do PSDB serão engolidos pela crise geral do sistema político. José Serra já aparece como Dom Quixote, pois sua tentativa de figurar como representante do capital industrial paulista no “turbinado” Ministério de Relações Exteriores se afunda impotente diante das mínimas declarações de Henrique Meirelles. E não nos esqueçamos que Serra há pouco chamou Meirelles de “ignorante” e de “o pior presidente do BC que o Brasil já teve”. Aécio mingua nas pesquisas eleitorais e é envolvido em novos casos de corrupção, inclusive na Lava-Jato, e Alckmin afunda diante da revolta da juventude e da classe trabalhadora no estado de São Paulo. A única coisa que o PSDB conseguiu fazer, assim, foi revelar novamente a impotência da burguesia industrial brasileira diante das formas de acumulação do grande capital, que pilham o Estado sem qualquer projeto de país.

Na verdade, é a revolta da classe trabalhadora – que está subterrânea, mas emergiu em junho de 2013 rapidamente, e aparece também no acintoso aumento de greves de trabalhadores nos últimos dois anos – que está trabalhando internamente as contradições de todo o sistema político burguês. É essa revolta que, pacientemente, desgasta todo o sistema político da burguesia, e envolve, de forma cada vez mais ampla e profunda, as frações burguesas em contradições e na impotência. Essa revolta ou aparecerá ainda com maior força, emergindo em rebelião social, ou será paralisada por um governo autoritário (certamente, não o governo fraco de Temer).

Em pouco tempo as massas perceberão que hoje não há tendência de regeneração da política brasileira, mas de aprofundamento da crise do sistema político burguês, e voltarão as costas a este. Tende a haver, portanto, um processo de racionalização geral na conjuntura. Ou seja, as massas tenderão a sair do politicismo atual – da concepção que enxerga a maioria dos problemas como advindos da política, da má gestão de Dilma, do PT, do PMDB ou do PSDB – e migrarão suas preocupações para a manutenção das suas condições de vida, dos salários e empregos, e contra os ataques do Estado capitalista. As massas, graças à sua própria experiência, começarão a busca por outra política, ao negarem ainda mais qualquer esperança de mudança na via política parlamentar oficial.

Isso é um elemento muito importante, pois aponta para o que é fundamental: as relações de produção na sociedade do capital, onde se dão primeiramente as verdadeiras relações políticas, as relações de luta de classes. Nesse sentido, a saída de Dilma foi muito importante, pois ajudou a quebrar, e quebrará mais num processo, a imagem que turva os olhos e impede a racionalização da conjuntura; que cria um politicismo, etc. Tudo isso aponta para a determinação da estrutura econômica sobre a super-estrutura política, portanto, para a retomada de um programa revolucionário, estratégico, que parte dos locais de trabalho da classe trabalhadora, da defesa das atuais condições de vida (manutenção dos salários e empregos). Nesse programa a classe trabalhadora encontrará sua verdadeira política, que é criação do poder operário a partir dos locais de trabalho, o poder paralelo ao do Estado oficial.

A defesa do “Fora Dilma” se mostrou como absolutamente correta e, sobretudo, como uma medida tática e apenas tática, que não compromete os que o defenderam com nada depois disso. Os que defenderam o esquerdista “Fora Todos” são agora obrigados a falar, necessariamente, “Fora Temer”, pois já o falavam antes. Assim, são obrigados a ficar desalinhados com o sentimento geral da massa trabalhadora, que se sente em certa medida responsável (e conscientemente disso) por Temer. Por trás da defesa do “Fora Temer” hoje, diante da inexistência de um poder operário, está e só pode estar a defesa de novas eleições, ou seja, de reorganização do poder oficial.

Defender novas eleições (decorrência necessária do “Fora Temer”) é defender que a crise atual, que se aprofunda, seja resolvida na via parlamentar. Por isso há um grande setor da burguesia que as defende. Defendê-las é alimentar a ilusão da classe trabalhadora na via parlamentar. Novas eleições aparecem como “democráticas”, mas devem ser só uma perda de tempo, uma contratendência na tendência geral de enfraquecimento do sistema político burguês. O fundamental neste momento não é falar “Fora Temer”, mas chamar as massas à resistência contra os ataques de Temer que virão, que já são anunciados, apontando para a via da auto-organização dos trabalhadores nos locais de trabalho. A resistência contra os ataques de Temer, e não o “Fora Temer”, deve ser o ponto mínimo de unidade da classe trabalhadora. Essa resistência precisa se dar, sobretudo, como luta das categorias de trabalhadores, organizadas sindicalmente. Isso fortalece e engrossa a via da luta contra o capital (portanto, não apenas contra os ataques do Estado) nos locais de trabalho.

A esquerda deve ficar, sim, de ouvido atento à hora do “Fora Temer”, mas o ideal é que este se dê – diferentemente do “Fora Dilma” – como resultado de um processo de luta que parta da estrutura e se erga até a super-estrutura capitalista. Só esse movimento geral permite a criação do poder operário, portanto, da resolução política definitiva que se abriria com a queda de Temer.

Cair hoje no “Fora Temer” dos petistas é criar um politicismo que embaça a conjuntura, que faz a esquerda se desalinhar dos ânimos das massas, e que joga a esquerda, novamente, e necessariamente, nos colos do PT e dos lulistas. O PT conta ainda – como já expresso por Lula e Dilma – com a possibilidade de reverter as votações no Senado contra o afastamento de Dilma, nestes 180 dias que lhes restam. O PT conta com a possibilidade de criar algum fato político que desestabilize Temer ou macule ainda mais este diante da população, para que alguns senadores mudem de voto. O PT precisa apenas de um terço do Senado para barrar o impeachment daqui a 180 dias. Alguns senadores, como José Reguffe e Cristóvão Buarque, já indicaram que se arrependeram de ter votado pelo afastamento de Dilma.

É preciso pensar outra forma de política, que não deixe, novamente, a esquerda refém dos petistas e lulistas:

Resistir contra os ataques de Temer!

Resistir no chão da fábrica contra o capital!

Criar o Poder Operário!

Histórico
23.05.2016