Por que não houve frente de esquerda nacional?

Hoje o voto em Marina Silva e mesmo o voto nulo aparecem como formas de expressar uma indignação ou desejo de mudança com muito mais expressão do que a esquerda (PSOL, PSTU, PCB, PCO). Mas Marina é uma candidata da burguesia e o voto nulo é algo tão indeterminado que pode ser capitalizado até pela direita.

Como explicar que, depois de junho de 2013, toda aquela revolta esteja sendo absorvida ou neutralizada pela burguesia? Como explicar que, um ano após as maiores passeatas da história do país, a esquerda brasileira nem mesmo pontue nas pesquisas de intenção de voto?

Pensamos que isso ocorre principalmente porque não houve uma união nacional da esquerda nas eleições. A esquerda não soube se colocar como alternativa nacional. Analisemos o problema, tomando alguns dos principais argumentos apresentados para a não-união.

Foi graças ao “vale tudo eleitoral” do PSOL?

Um dos argumentos que mais se apresenta é a submissão do PSOL à lógica do vale tudo eleitoral. Teria sido isso o mais relevante?

Quando iniciaram-se as conversas entre PSOL e PSTU para a formação da frente, o PSTU criticava a hegemonia do setor de Randolfe Rodrigues do PSOL na articulação da frente, afinal, Randolfe era (e é) a expressão máxima do oportunismo no PSOL. Randolfe é a típica figura capaz de se coligar com qualquer partido, da esquerda à extrema direita, e receber dinheiro de qualquer tipo de empresa, para viabilizar candidaturas. Enfim, Randolfe significa claramente o fisiologismo da política repugnante e o PSTU agiu corretamente ao tentar repeli-lo.

Entretanto, Randolfe, por pressão interna ao partido, renunciou à pré-candidatura à presidência, e em seu lugar apresentou-se Luciana Genro, representante da ala à esquerda majoritária do PSOL, convocando o PSTU para assumir a vice-candidatura e formar uma frente nacional. Luciana Genro, inclusive, é militante de uma corrente (o MES) que, assim como o PSTU, tem origem no chamado “morenismo”. Estariam dadas as condições para a frente?

Eis que o PSTU não aceitou a coligação nacional, coligação pela qual batalhou anteriormente. E o mais estranho: em diversos estados formou uma frente local, inclusive com setores representantes do grupo de Randolfe Rodrigues, como Gilberto Maringoni em São Paulo. Como explicar isso?

O PSTU argumentou em seguida que Luciana Genro também sucumbiu ao “vale tudo” quando recebeu R$ 15 mil de uma rede de supermercados do Rio Grande do Sul. Mas seria isso mesmo o determinante? Afinal, o próprio PSTU aceitou coligar-se com o PCdoB em 2012 (partido mafioso e base do governo), para eleger um vereador em Belém-PA…

Assim, as contradições só saltam e crescem, e fica difícil explicar a questão. Qual seria o verdadeiro motivo?

Foi por “divergência programática”?

Como comentamos em editoriais passados, não há, do ponto de vista marxista, grande diferença nos programas apresentados pelo PSOL e o PSTU nestas eleições.

Como todos podem verificar, mesmo nas propagandas de televisão, o foco das duas candidaturas é “contrariar os interesses do capital financeiro” para entregar serviços sociais à população. Ambos prometem realizar rupturas ou mudanças com a dívida pública para que, assim, o dinheiro dos impostos da população não vá para os banqueiros (pagamento da dívida) e possa ir para serviços sociais, como o de saúde, de educação, de moradia, etc. O foco é ampliar os serviços sociais do Estado atual.

Justamente por se centrarem no “combate ao capital financeiro”, justamente por não apresentarem um programa concreto para combater a crise econômica (inflação e demissões), aliviam, implicitamente, o lado do capital industrial. Trata-se da demonização do que chamam de “capital financeiro” e a secundarização do capital industrial.

Mas sabemos que é justamente na indústria, na fábrica, que ocorre a exploração do trabalho, surge a mais-valia, que sustenta o sistema capitalista. Preocupar-se principalmente com a gerência da riqueza capitalista — já roubada, já extraída da classe trabalhadora — é, em certo sentido, legitimar o roubo dos trabalhadores pela classe capitalista. Preocupar-se em saber onde vai a mais-valia já roubada, o capital já nascido, é algo que pressupõe a exploração. A origem mais próxima dessa forma de pensamento pragmática é o PT. Foi o PT que já ao final da década de 1980 começou a formar o “Bloco Produtivista”, bloco com com o capital industrial, contra o “financeiro”, para desenvolver a indústria e assim, supostamente, gerar emprego e melhores condições de vida para os trabalhadores. Esse “bloco produtivista” levou Lula à presidência com José Alencar (controlador da indústria textil) como vice.

Na verdade, a divisão implícita em tal forma de pensamento — capital especulativo, ruim, versus capital produtivo, bom — é pouco consequente, vez que, como argumentou Lenin já no Imperialismo, fase superior do capitalismo, o capital financeiro é muito mais a fusão entre capital produtivo e bancário, portanto não pode ser combatido por meio de medidas apenas no âmbito do Estado, do controle da dívida, da taxação de grandes fortunas, etc. Ele só pode ser combatido por meio de um programa de ação que apresente demandas efetivas para a classe trabalhadora enfrentar a crise (como as do Programa de Transição de Trotsky); ou seja, medidas que partam da organização dos trabalhadores na produção, e não de um presidente na esfera da circulação do capital, do Estado.

Essa velha lógica mantém os trabalhadores como espectadores e impotentes: o candidato X ou Y vai tirar dinheiro da dívida para aplicar em educação (e, se der problema, buscará, de alguma forma, o apoio popular para realizar a medida). E pior: para os trabalhadores — meros espectadores — tal lógica aparece hoje como radicalismo vazio e inócuo. Na verdade, em vez dessa lógica pragmática, são necessárias propostas que empoderem — deem poder — aos trabalhadores, a partir da luta, pela base, em defesa daquilo que lhe é mais básico — salário e emprego.

PSOL e PSTU, portanto, comungam programaticamente da lógica de focar-se na esfera da circulação do capital, sem apresentar nacionalmente propostas concretas e relevantes para combater a crise de um ponto de vista que coloque o destino dos trabalhadores nas mãos e nas forças dos próprios trabalhadores.

Por que então não houve a frente de esquerda nacional?

Se não foi graças ao “vale tudo eleitoral”, nem por divergência programática relevante, por que não houve a frente de esquerda nacional? Quando as coisas não podem ser explicadas logicamente, algo está sendo escondido.

Pode-se se supor (como revelam conversas de bastidores) que diversas condições foram colocadas de ambos os lados para o estabelecimento da Frente Nacional, condições que implicavam no fatiamento de cargos parlamentares, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo. A frente de esquerda seria traçada mais a partir de números e intenções de voto do que para expressar uma necessidade do conjunto da classe. O não acordo sobre a divisão de possíveis cadeiras a serem conseguidas nos diversos Estados levou à inviabilidade da frente nacional. Graças à disputa por cadeiras parlamentares, portanto por dinheiro e estrutura, a esquerda não se unificou.

É verdade que nem sempre a unidade deve ser buscada. A unidade não é um princípio sagrado. Mas em conjunturas particulares, sobretudo quando a esquerda é muito frágil — como ocorre hoje — a unidade é tarefa fundamental para ganhar espaço nacional. Apresentar uma candidatura de esquerda nacional poderia, talvez (sobretudo antes da entrada de Marina), colocar Luciana e Zé Maria na percentagem de intenção de votos que teve Heloísa Helena pelo PSOL em 2006 (entre 6% e 7%) o que, após junho de 2013, seria mais significativo.

Precisamos lembrar o beabá do marxismo; o que escreveram Marx e Engels no Manifesto do Partido Comunista: “os comunistas não estabelecem princípios particulares segundo os quais queiram moldar o movimento operário”; “os comunistas acentuam e fazem valer sempre os interesses comuns do proletariado”, sempre “representando o interesse do movimento total”. A esquerda, infelizmente, colocou seus interesses particulares à frente do interesse geral e comum da classe, à frente do que seria progressivo para a luta do conjunto da classe trabalhadora.

Pensamos que a expressão medíocre da esquerda hoje hoje, após junho de 2013, deve servir de lição para o conjunto dos lutadores. É preciso compreender que a única forma de se construir um partido revolucionário é fazendo avançar a luta geral da classe; valorizando sempre em primeiro lugar as necessidades gerais da classe e não as necessidades particulares do grupos. O particular está subordinado ao geral.

Histórico
16.09.2014